28 de out de 2017

Zygmunt Bauman e os tempos modernos

Como as reflexões do filósofo recém-falecido se enquadram na angústia diante do avanço do pensamento reacionário

Zygmunt Bauman
Zygmunt Bauman vivia incomodado com a maneira com que o tempo e a relação deste com os seres humanos e as coisas se desenvolvia na atualidade. Assusta mesmo ver como todo mundo quer saber de tudo todo o tempo e como os fatos e a vivência de experiências se tornou algo efêmero, pontual.

É curioso como o raciocínio do recém-falecido pensador cabe como uma luva ao avanço das ideias conservadoras e da onda de xenofobia, misoginia e preconceitos em geral. Marca este momento a ausência ou fragilidade cientifica que apoia os questionamentos, protestos e micromanifestações, na grande maioria virtuais, contra exposições de arte, publicidade e afins, todas consideradas “propaganda comunista” ou incentivos ao “gayzismo” e ao “abuso aos menores”.

A turma que organiza esses questionamentos não está preocupada com a base científica. Partem de rudimentos de ciência, deslocados de contexto, citações de pensadores que devem se revirar no túmulo ao serem usados de maneira tão desconexa com o contexto geral dos seus escritos. E dão calço ao avanço do discurso que busca tornar o mundo preto e branco, um sem contraditório, sem diferente, sem plural, típico de quem não gosta de ouvir algo que não lhe agrade...

O mais preocupante, quando se trata de ciência, é a subversão dos seus conceitos por estes. A turma parte da busca de respostas simples para questões complexas, a tentativa de resolver polêmicas de questões amplas e profundas em contendas de redes sociais e whatsapps da vida.

É complicado compreender como teve gente que passou décadas a estudar, pesquisar, testar e experimentar para ter seus escritos, suas teorias mal interpretadas ou deslocadas em função de interesses menores que forçam o que foi escrito, dobram e amassam livros e mais livros em função de sua conveniência.

Momentos como este parecem exigir respostas complexas para questões complexas. A disputa travada no seio da sociedade está para além neste momento do formato tradicional. O Congresso Nacional e as Assembleias estaduais passaram a se movimentar, pressionados para desmontar pressupostos democráticos fundamentais e básicos.

Hoje, me parece, surge a necessidade da defesa do Estado de Direito, da democracia, mesmo dos marcos do capitalismo, da garantia das regras do jogo para que ele possa ser jogado. Essa é uma bandeira que pode e deve unir os verdadeiros comprometidos com a nação construída até aqui, aqueles que se importam com as garantias democráticas, constitucionais, vindas das lutas históricas e seculares dos brasileiros.

Esse movimento precisa ganhar força e não permitir que o País retroceda onde mais dói, no conceito de nação plural, laica, democrática e constitucional.

Thiago Vasconcelos Modenesi
No CartaCapital

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.