28 de out de 2017

Teixeira é alvo da Justiça francesa, espanhola, suíça e FBI e segue solto


Com pedidos de prisão protocolados pelas autoridades da Espanha e dos Estados Unidos e mais de dois anos desde que o maior caso de corrupção do futebol foi deflagrado na Suiça, o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que mantem-se em liberdade no Brasil, passa a ser alvo da Justiça francesa.

Na Espanha, Teixeira foi acusado de lavar dinheiro de comissões ilícitas na venda de amistosos da seleção brasileira e de organização criminosa junto com o ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, que foi preso este ano. Em julho, o país solicitou a prisão do dirigente brasileiro. 

Nos Estados Unidos, foi acusado no caso Fifa de fraude, lavagem de dinheiro e de obter milhões de dólares em propinas em troca de beneficiar empresas de marketing esportivo. Desde 2015, as autoridades norte-americanas solicitam a sua prisão, o que é impossibilitado por decisões judiciais aqui no Brasil, onde Teixeira permanece desde 2015.

Neste caso, os documentos oficiais do FBI indicam que Ricardo Teixeira recebeu propinas por mais de uma década em contas secretas de Zurique, cidade que sedia a Fifa e para a qual o dirigente viajou diversas vezes para articular a candidatura do Brasil na Copa de 2014. Ele teria recebido mais de 20 milhões de francos suíços entre 1992 e 2000. Mas as autoridades detectaram que Teixeira continuou a receber depósitos mesmo após aquele ano.

Sem negar ter cometido os ilícitos mirados pelas Justiças dos dois países, o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira sabe que está sendo protegido aqui no Brasil: "Tudo que me acusam no exterior não é crime no Brasil. Não estou dizendo se fiz ou não", afirmou, em entrevista concedida há três meses à Folha de S. Paulo.

Mas as apurações do FBI que resultaram, em 2015, na prisão de nove cartolas e dirigentes do futebol, entre eles a de José Maria Marin, preso em Zurique e extraditado aos Estados Unidos, foram ampliadas em 2015 e começaram a analisar, também, a forma como a Fifa escolheu, no ano de 2010, a Rússia e o Catar para sediar as Copas de 2018 e 2022, respectivamente.

Naquele ano, Teixeira foi quem votou pelo Catar ser a sede do evento de futebol em 2022. O resultado das apurações, não somente do FBI norte-americano, mas sobretudo da Justiça francesa, foi que Teixeira teria participado de um esquema de compra de votos para o Catar sediar a Copa.

Uma das provas foi uma conta bancária de Teixeira em Mônaco, encontrada recentemente e que veio à tona somente agora, com US$ 22 milhões, o correspondente a 71,1 milhões de reais. A conta estava no banco Pasche, uma filial do banco francês Crédit Mutuel, que é suspeito de participar do esquema de lavagem de dinheiro e foi alvo de investigação judicial no principado. 

O principal eixo foi a suspeita de que um amistoso realizado entre o Brasil e Argentina, em Doha, em 2010, ocorreu para mascarar a compra de votos a favor do Catar, envolvendo o empresário Ghanem ben Saad Al-Saad, ex-presidente do fundo Qataria Diar. Estas suspeitas antecediam, inclusive, as apurações do Ministério Público da Suiça.

O empresário, conhecido inversionista e próximo do emir do Catar, Tamim ben Hamad al-Thani, foi fundador e diretor-presidente da empresa Ghanin Bin Saad Al Saad & Sons Group (GSSG), que financiou o jogo entre o Brasil e a Argentina em novemnro de 2010, que ocorreu duas semanas antes da votação da Fifa que escolheu o Catar como sede da Copa em 2022.

Um dirigente argentino e Teixeira teriam recebido parte dos US$ 8,6 milhões pagos pelo empresário catari ao amistoso. O caso ainda envolve mais US$ 182 milhoes desviados da companhia de serviços coletivos Veolia, que foi adquirida pelo fundo Qatari Diar na gestão de Al-Saad. Os investigadores tentam identificar onde foi parar esta quantia e a relação do dinheiro com os dirigentes do Brasil e Argentina.

Por que Teixeira ainda não foi preso

O que paralisava as prisões de Ricardo Teixeira eram duas decisões de tribunais datadas de setembro e outubro de 2015, que impossibilitavam a cooperação internacional no caso da Fifa. Provas contra cartolas, dirigentes e empresas envolvidas no escândalo estavam guardadas a sete chaves aqui, impedidas de ser enviadas ao FBI.

Ao contrário do que ocorreu nos casos relacionados a empreiteiras brasileiras e a própria estatal Petrobras, os investigadores dos Estados Unidos não puderam receber provas retidas contra dirigentes do futebol brasileiro. Ainda em setembro de 2015, a 1ª Turma do Tribunal Regional Federal da 2ª Região quebrou a cooperação firmada entre o Brasil e a Promotoria Federal de Nova York, ao acatar um Habeas Corpus da empresa de marketing esportia Klefer Produções e Promoções Ltda, acusada de pagar propinas a dirigentes da CBF no Brasileirão.

Os mesmos pedidos chegaram a instâncias inferiores no Brasil, que não tiveram outra opção que não a de tomar a mesma decisão do TRF-2, instância superior. Pressionados pelas autoridades internacionais, a  Procuradoria-Geral da República recorreu das decisões, ainda sem resposta, no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Outra estratégia da PGR foi solicitar, em julho deste ano, o envio do processo espanhol contra Ricardo Teixeira ao Brasil. Com o acesso aos detalhes e provas das investigações, o MPF brasileiro poderia abrir outra investigação e dar sequência aos possíveis pedidos de punições. A ação seria transferida, antes, pela Secretaria de Cooperação Internacional da PGR ao Ministério Público Federal competente, no caso, o Rio de Janeiro, que analisaria as provas e poderia, então, pedir a abertura da investigação contra o ex-dirigente.

No caso francês, os procuradores parisienses pediram a colaboração do Ministério Público Federal brasileiro, que já envia informações sobre o escândalo da compra de votos para a escolha da sede da Olimpíadas de 2016. Na mesma apuração, colabora o FBI e o Ministério Público da Suiça, que realizou operações em empresas ligadas ao financiamento do amistoso entre o Brasil e a Argentina e em pelo menos três contas bancárias de Teixeira.

Patricia Faermann
No GGN

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