22 de out de 2017

Suposição de que Dodge veio para salvar Temer ganha nova estatura

A estreia da procuradora-geral da República em expor sua orientação pessoal, e não mais como rescaldos do antecessor Rodrigo Janot, não resultou favorável a ela nem a nós. A menos que Raquel Dodge apresente comprovação, ao menos indícios aceitáveis, da novidade que disse, a suposição de que vem para salvar Michel Temer ganha nova estatura. Não pode mais ser vista como precipitada ou interessada.

A meio dos motivos contrários à liberação de Geddel Vieira Lima, preso em Brasília, Dodge aponta-o como líder da organização criminosa hoje central no noticiário. A forma verbal "parece" atuar como chefe não altera o ineditismo da qualificação. Nem diminui os efeitos benéficos dessa novidade para Temer: dado como chefe, Geddel livra superiores hierárquicos de tal acusação e, de quebra, teria embaraços para um acordo de delação premiada temida por Temer – como Bernardo Mello Franco registrou com outra formulação, na Folha de sexta (20).

Geddel nunca foi considerado "o chefe". Mesmo a ideia de organização, a que procuradores recorrem com facilidade porque os ajuda na explicação do crime, além de aumentar as penas, não é correta nesse caso. Cada um dos incriminados integrantes do PMDB, seus doleiros e intermediários é um livre-atirador que, para certos golpes, uniu-se a outros, mas seu objetivo de ganho era individual. Além da ambição desse ganho nada os aproximou. O perigoso Geddel é um desses há 30 anos. Compuseram uma organização, nem propriamente uma quadrilha. Sociedade, isso sim, ocasional mas frequente.

Com estilo diferente, só Michel Temer. Usar intermediários é o seu modo típico. José Yunes, Eduardo Cunha, Lúcio Funaro, Geddel Vieira Lima, Rocha Loures, Moreira Franco, Eliseu Padilha e outros, já identificados ou ainda nas sombras, estão citados nas investigações como pessoas acionadas por Temer para chegar a terceiros, com missão definida.

Os três primeiros da lista distinguem-se pelo requinte de manter seus escritórios ao redor das instalações do advogado Temer. Duros, afinal de contas, eram os tempos de uma caverna para quarenta. Com o avanço da civilização paulistana, cada um dos quatro tem a sua, mas próximas todas para diminuir o risco – na explicação de Funaro – de levar malas com dinheiro grosso entre os destinatários.

Há, de fato, e gravados, exemplos de ordens comprometedoras, dadas à maneira de chefe. Não de Geddel ou de outro dos intermediários. São assim: "Tem que manter isso, viu?". Ao que o ouvinte responde, obediente: "Todo mês, todo mês". Em outro momento, quando o ouvinte lamenta a perda da intermediação de Geddel e se refere à alternativa Rocha Loures, ouve a determinação: "Fale com ele". É preciso saber se o deputado representa mesmo a Presidência, se pode falar tudo com ele, e é tranquilizado: "Pode falar tudo. Fale com ele".

O grupo dos intermediários não se ligou por sua conta, no entanto tem/tinha um elo comum chamado Michel Temer. Não há por que tirar-lhe essa honra, à falta das outras.

Empreendedor no mesmo ramo, Aécio Neves adotou o método das intermediações. Mas, bom moço, deu um sentido familiar à atividade. Sua irmã abria caminho às extorsões acobertadas como venda de imóvel, muito acima do valor; ou para pagar um advogado que a riqueza da família poderia quitar como nós outros pagamos o cafezinho. O apanhador, "o mala" na nomenclatura especializada, era um primo. Um tio e um político têm papel ainda mal definido, porque investigar a concorrência de Aécio a Eduardo Cunha e Cabral não tem suscitado entusiasmo em procuradores.

Temer diz que é vítima de uma conspiração. Eduardo Cunha se acha injustiçado. Aécio quer "uma saída honrosa".

Janio de Freitas
No fAlha

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