30 de out de 2017

Prefeito e garimpeiros comemorando ataque ao Instituto Chico Mendes é o retrato do Brasil de hoje: terra sem lei


Os ataques dos garimpeiros ao Instituto Chico Mendes e Ibama, em Humaitá, no Amazonas, é um exemplo do país em que nos tornamos depois do golpe de 2016: uma terra sem lei.

É impossível não ligar os incêndios na região ao que tem acontecido em Brasília: apesar de fartas provas de corrupção, o senador Aécio Neves, que é presidente do PSDB, trabalha normalmente e Michel Temer e sua gangue são vistos em negociatas à luz do dia.

Foi esse ambiente de impunidade que provavelmente levou o prefeito de Humaitá, Herivaneo Seixas (PROS),  a reunir os garimpeiros depois dos ataques, para comemorar, como conta o jornalista Altino Machado, um dos melhores do Brasil, que faz em seu facebook a melhor cobertura dos fatos e temas relacionados à região Norte do Brasil:

O prefeito Herivaneo Seixas (PROS) é suspeito de ter liderado a violenta reação de garimpeiros e populares que incendiaram carros e prédios do Ibama, ICMBio, Incra e que também tentaram destruir uma base da Marinha no município de Humaitá (AM). O prefeito teria distribuído refrigerantes e bebidas alcoólicas aos manifestantes antes e depois da revolta contra a operação Ouro Fino, desencadeada para combater a extração ilegal de ouro no Rio Madeira, e que resultou na apreensão e destruição de 37 balsas de garimpeiros. Herivaneo Seixas aparece neste vídeo comemorando as ações criminosas com populares. Cópia do vídeo está em poder da Polícia Federal, Exército e Força Nacional.

Foi Altino quem disparou o alarme do que estava acontecendo em Humaitá, com a publicação do primeiro vídeo sobre o incêndio. Agora, sua página tem divulgado outras informações, como o relato de um servidor do Instituto Chico Mendes que escapou dos ataques. Eles estavam em um barco que foi incendiado.

“Quando explodiu a revolta, nós ficamos um pouco reféns. Acabou que deu tudo certo. A gente acabou escoltado de Humaitá pelo pessoal da Marinha, do Exército, da Força Nacional. Fomos resgatados do barco, chegamos lá em Humaitá, dormimos do 54 bis e agora acabamos de chegar em Porto Velho, trouxemos roupas, tudo”, diz o servidor.

Os garimpeiros estão revoltados com a ação dos fiscais do Instituto Chico Mendes, do Ministério do Meio ambiente, e do Ibama, que combate a extração ilegal de ouro, que contamina os rios com mercúrio.

Esse tipo de ação já aconteceu outras vezes, mas a reação pública e violenta é um dado novo. As imagens mostram troca de tiro e o estouro de rojões na direção dos policiais e da Força Nacional.

Pelas imagens, é possível ver quem está colocando fogo em veículos do instituto e quem está atacando os prédios públicos — eles próprios gravaram.

Mas, apesar dessa abundância de provas e do flagrante, ninguém foi preso — pelo contrário, como mostra o vídeo, os garimpeiros foram comemorar, com a bebida oferecida pelo prefeito.

Diante de tudo isso, o registro que vem da memória é o áudio da conversa do senador Romero Jucá, defensor dos garimpeiros, pai do decreto que acabou com uma reserva mineral da Amazônia, com o ex-senador Sérgio Machado, antes do impeachment de Dilma Rousseff:

Jucá – Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.

Machado Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel (Temer).

Jucá – Só o Renan (Calheiros) que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

Machado – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

Jucá – Com o Supremo, com tudo.

Machado – Com tudo, aí parava tudo.

Jucá – É. Delimitava onde está, pronto.

Machado gravou a conversa para mostrar a extensão da quadrilha que a Lava Jato apontava e, com isso, diminuir sua pena, já que ele era um dos mais ativos quadrilheiros.

Como queria Jucá, foi delimitado.

Tirou-se Dilma com um golpe na Constituição — pedaladas fiscais? —, delimitou onde estava, e o Brasil se transformou numa terra em que ladrões governam, juízes agem sem limite, procuradores fazem a sua própria regra, numa república particular, todos ganham acima do teto.

A pergunta que os garimpeiros ilegais devem se fazer: por que só nós vamos ficar fora desse grande acordo nacional?

O jornalista Altino Machado avisa:
O país está chocado com a ofensiva criminosa dos garimpeiros que incendiaram prédios e carros do ICMBio, Incra e Ibama em Humaitá (AM). Mas situação pior será quando explodir o caos que envolve toda a região de Lábrea (AM), na confluência do Amazonas, Rondônia e Acre, dominada por grileiros, pistoleiros, traficantes, madeireiros, garimpeiros e foragidos da Justiça. Estou falando de bomba-relógio em terra sem lei.

Não é essa terra que está sem lei, Altino. É o Brasil.

* * *

Para ver o vídeo da comemoração, acesse a página de Altino Machado no Facebook.


Barco onde os servidores se refugiaram quando os ataques começaram; na manhã de ontem, foi queimado

Joaquim de Carvalho
No DCM

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.