18 de out de 2017

Pornografia, censura e política

Este “moralismo“ é pregado e praticado por setores da direita política radical, ligados às correntes neoliberais, às igrejas neopentecostais, ao estilo e filosofia de vida da classe média norte-americana e ao viés político fascista.
Foto: Guilherme Santos/Sul21
O ativismo moralizador que grassa em certos setores sociais tem aumentado e preocupado outros setores por estar incluído nesse ativismo exigências ligadas à censura sobre obras artísticas de legítimas e didáticas qualidades estéticas.

Este “moralismo“ é pregado e praticado por setores da direita política radical, ligados às correntes neoliberais, às igrejas neopentecostais, ao estilo e filosofia de vida da classe média norte-americana e ao viés político fascista. J.M. Coetzee assinala, (Contra la Censura- Ensayos sobre la pasión por silenciar) que ao pesquisar o mercado, se percebe uma gama de pornografia visual sádica que é particularmente vista e divulgada nos países ricos do ocidente cristão, onde um de seus Papas, o bilionário Hugh Hefner acaba de falecer. Coetzee observa que este sadismo sexual não é encontrado e executado com e nas mulheres dos países árabes onde esse tipo de divulgação é rigorosamente proibido.

O estranho disso tudo é que os grupos moralizadores citados combatem apenas o que julgam ser imoral em obras de arte de maior ou menor valor artístico. Ao passo que os movimentos de controle dos filmes, vídeos, revistas pornográficas, de ampla divulgação no Ocidente, têm sido encabeçado por mulheres, politicamente situadas fora desse espectro proto-moralista da direita política. Argumentam elas que os consumidores desses materiais – na maioria absoluta, homens – não somente os adquirem por gosto pela violência sexual, como também por neles apreenderem técnicas de sadismo físico e psicológico, praticado em mulheres. É notório o fato de que revistas pornográficas cujos atores são homens, não prosperaram por ter baixo consumo. Assim, na medida que essas publicações submetem mulheres a relações sexuais  degradantes, estas, como coletividade, sentem-se humilhadas e ultrajadas , ao serem tratadas como mercadorias e objetos de uso e de troca no mercado financeiro do capital. Por outro lado, é estimulante se observar que o núcleo das lutas femininas atuais também coloca em questão o imaginário masculino através dos tempos, o qual – como se discutiu num dos medievais Concílios de Macon – não considerava as mulheres como seres humanos.

Na verdade, a coisificação das mulheres como estratégia característica do poder masculino não só na pornografia como em geral nos processos sociais, não é tema que sensibiliza ou causa indignação e lutas, aos savonarolas incultos e incautos que atacam museus e exposições de arte as quais retratam as legítimas e autênticas expressões do momento histórico e social que se vive em nosso país.

Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
No Sul21

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