16 de out de 2017

Os impotentes saem dos bueiros


O que faz com que a direita pareça engraçada e folclórica quando não ameaça chegar ao poder é o fato de vir do âmbito da semiescolarização. Não raro, conservadores vêm desse campo. Um indivíduo assim pode criar algo que ele pensa ter estatuto de teoria, mas que nada é senão uma série de enunciados que desrespeitam o bom senso.

Entra aí o restolho de uma astrologia e sai a astronomia, entra a alquimia barbárica e sai a química, entra a teoria da conspiração em que o mundo está sob manipulação de “incas venusianos” (vilões do Nacional Kid), ou seja, “comunistas” e “pedófilos”, e cai por terra a filosofia política. Esse tipo de liderança de direita, mutatis mutandis, repete Hitler.

Hitler escreveu o “Mein Kampf”, livro chato e de tremenda confusão mental. Ele pintava segundo as técnicas de um realismo medíocre e odiava a arte que não entendia. Era inadaptado à modernidade. Como a turba que arrebanhou, foi um “loser” diante da sociedade liberal.

O neofascismo de hoje guarda muito disso tudo. Os líderes ultranacionalistas do mundo todo são anti-intelectualistas: contra a imprensa liberal, os museus e teatros e, enfim, a universidade.

Tudo que é feito nesses ambientes lhes é estranho, e eles querem que tais coisas desapareçam, pois todas as vezes que quiseram estar nesses lugares foram ridicularizados e se sentiram impotentes.

Mas, se é a inveja como fruto da impotência que move tais pessoas, como explicá-la?

A interpretação clássica da inveja social moderna é de Tocqueville, em “A democracia na América” (1835). Ele diz que sociedades mais igualitárias criam a possibilidade de cada um olhar ao lado, considerar-se igual aos que em aristocracias não seriam iguais e, então, poder universalizar o modo de percepção comparativo.

Analisando os dias atuais, Gilles Lipovetsky, em “A felicidade paradoxal” (2006), diz que vivemos sob o hiperconsumo e o hiperindividualismo, em que vinga a sociedade que deixou de lado a inveja vinda da aquisição de bens.

As pessoas consomem bens para uso individual, quase que solitariamente, e buscam um tipo de satisfação de uso de produtos que tem a ver com corpo, conforto solitário, “single style”.

A inveja deslocou-se de bens materiais para posições de visibilidade social, um certo tipo de fama e “famosidade”, própria de um hiperindividualismo recoberto por mídias que anunciam a felicidade centrada na vida particular.

Para entendermos a nova fonte de impotência, ressentimento e inveja, devemos recorrer à noção de “sociedade da visibilidade máxima”. O filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, em “A sociedade da transparência”, lembra o excesso de positividade da vida atual, a ênfase na perspectiva de Rousseau de secundarizar uma “sociedade de máscaras”.

Assim, no âmbito da mercadorização atual, nosso destino elege a vitrine como a arquitetura de todos os lugares. Se assim é, o ressentimento e a inveja, no que restam, são produzidos à medida que se faz necessário ser mostrado mais amado e “querido” que outros.

A inveja, então, é alimentada pela impotência e ódio contra quem pode se apresentar como visível, querido à medida que aprovado pela grande TV e pela Universidade, pela comunidade intelectual.

O guru raivoso lança seus exércitos de Brancaleone contra tais instituições. Ele tem como lema o “fracassados do mundo, uni-vos” e quer que o espectro do neofascismo paire sobre a Terra. Ele lidera impotentes invejosos exatamente na medida em que é o maior entre eles.

Paulo Ghiraldelli, é filósofo e autor, entre outros, de “Para ler Peter Sloterdijk” (Via Vérita)
No fAlha

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