25 de out de 2017

O tempo, o tempo urge. O tempo ruge.

Grupos bolcheviques cercando o Palácio e aguardando ordens do Soviete, 25 de outubro.
Por volta das nove horas da noite do dia 25 de outubro de 1917, no antigo calendário juliano, Lev Bronstein (Trotsky), convencido pelos apelos de Vladimir Ulianov (Lênin), decide não esperar qualquer deliberação do Conselho dos Soviets (que iria se reunir em alguns dias) e inicia a tomada do Palácio de Inverno. A última das fortalezas que ainda continha simbolicamente o poder do regime provisório de Kerensky. Desde o final da manhã, a cidade de São Petersburgo (capital do império russo) já via os bolcheviques tomarem os prédios públicos, correios, comunicações, e tudo de forma bastante rápida, sem qualquer combate. O apoio dos trabalhadores e de corpos militares, especialmente os marinheiros, foi essencial para que o intento de derrubar o ilegítimo governo de Kerensky fosse bem sucedido.

Posteriormente, se mostrou acertada a decisão de Trotsky e os pedidos de Lênin. Kerensky havia conseguido, da “pré-constituinte” montada, uma ordem de prisão contra Trotsky e a desmobilização total dos bolcheviques, com ataques à legitimidade dos soviets. Apoiado por Cossacos, por parte da antiga nobreza czarista, pela burguesia e com o silêncio complacente de Mencheviques e de grupos Social Revolucionários de direita, Kerensky tentaria, no dia seguinte, acabar “de uma vez por todas” com a sedição bolchevique. O Congresso dos Soviets, que teoricamente seria o órgão apropriado para deliberar sobre uma ação armada, havia sido postergado por duas vezes, através de manobras políticas de Mencheviques e grupos favoráveis ao governo provisório.

Chegada dos Marinheiros Revolucionários a São Petesburgo, 25 de outubro
Foto Ria Novosti
Os bolcheviques, ainda que com consideráveis meios militares e apoio proletário, se valem da retórica trotskysta para desmobilizar contingentes militares resistentes e mesmo grupos urbanos que não estavam certos de que a postura bolchevique fosse legítima ou correta. A palavra, a oratória se aliava à percepção comum para formar o consenso moral que impelia as ações que viriam a transformar o século XX. Se é verdade que o governo de Kerensky tentou um golpe, se aliou aos antigos senhores opressores e quer manter a Rússia na guerra, deve ser correto que aqueles que sempre se opuseram a ele tenham, enfim, alguma legitimidade. A ação bolchevique foi no último minuto, suficiente para evitar um levante contrarrevolucionário, que implicava em reais chances de afastar o partido do cenário da Revolução.

Até 2005 a Rússia comemorou este dia simbólico, sempre no 07 de novembro. Até em 1941, com a cidade sitiada por forças nazistas, Stalin ordenou uma parada de 15 minutos com celebrações ao momento fundante da identidade soviética. Foram 88 anos de comemorações, com a data sobrevivendo até mesmo ao fim da própria URSS. Mas, como os Estados sabem como usar a História com fins políticos, em novembro de 2004, foi aprovado pelo parlamento Russo o fim do feriado nacional do dia 07 e a criação do “Dia da Unidade”, no dia 04 de novembro, supostamente comemorando eventos históricos ocorridos em 1612 quando uma coligação de nobres e a igreja ortodoxa teriam sitiado Moscou para retomar a cidade das mãos de invasores poloneses (liderados pelo príncipe Vladislav). De fato, esta data é o momento fundante da dinastia dos Romanov.
O processo de desmonte da memória da Revolução Russa pretendeu passar uma borracha em toda a experiência da URSS, tornando um feriado nacional – em pleno século XXI – o momento fundante da dinastia dos Romanov. Um dos problemas atuais da Rússia é exatamente refundar sua identidade nacional. O processo de “esquecimento” das experiências de esquerda está em curso em todo o mundo e não apenas no Brasil.
E vale mesmo forçar a homenagem a um regime que foi considerado pelos próprios russos, no início do século XX, insustentável. A vontade de apagar todos os feitos do chamado “socialismo real” e a criação da narrativa de que nada prestava criou um enorme espaço vazio nas identidades da população russa atual.

Grupos Cossacos, leais a Kerensky, com artilharia pesada à frente do palácio 25 de outubro.
O que são eles? Soviéticos? Czaristas? A quais histórias e narrativas russas eles devem se filiar? Quais devem ser exaltadas? Quais símbolos e quais memórias? Vladimir Putin reforça as memórias da primeira e da segunda guerra, tentando, de alguma forma, evitar a rememoração soviética. Sobra uma fragmentação identitária que busca na figura do governante atual um referente com o qual possa dialogar. E Putin amealha poder dentro da Rússia.

Paul Ricoeur, em seu “A memória, a História e o esquecimento”, mostra os usos políticos dos processos históricos para forjar consensos nacionais, identidades e mesmo suportar grupos e ideias contemporâneas. Se lembrar é um ato político, o “esquecer” também o é. O jogo com as memórias coletivas, com os espaços de fortalecimento de um nacionalismo são sempre fruto de pressões políticas contemporâneas.

Celebremos, pois, o dia de 25-26 de outubro duas vezes. Nós, aqui, faremos hoje e no dia 07 de novembro. E que possamos recuperar a narrativa da Revolução Russa com todo o respeito àqueles que, em dias nublados, souberam acreditar no sol.


Grupos leais a Kerensky dentro do Palácio aguardando durante o dia 25 de outubro.


Invasão ao Palácio pelos bolcheviques.


Fotos tiradas do Palácio após a invasão bolchevique.


População em frente ao Palácio na Manhã do dia 26 de outubro.


Discurso de Lênin para as massas, após a tomada do Palácio, no dia 26
Foto por Keystone/Getty Images)

Fernando Horta
No Sul21

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