7 de out de 2017

O povo do Nordeste e Lula são invisíveis para a mídia

Foto: Ricardo Stuckert
A frase “o importante não é o que eu publico, mas o que eu  não publico”, atribuída a Roberto Marinho “democratizou-se” e é agora o mandamento das editorias de todos os grandes jornais.

Luna de Oliveira Sassara, Natasha Bachini e João Feres Júnior, do Manchetômetro – grupo de análise de mídia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, – deram-se ao trabalho de acompanhar a cobertura da grande imprensa sobre os 17 dias da caravana de Lula por todos os estados do Nordeste do Brasil.

Ou melhor, deram-se ao trabalho de esquadrinhar os jornais e assistir todas as edições do Jornal Nacional, durante um mês,  porque cobertura jornalística não existiu.

No universo analisado pelo Manchetômetro, que inclui capas e páginas de opinião dos jornais Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo, além das edições completas do Jornal Nacional, o assunto foi mencionado apenas 11 vezes entre 7 de agosto e 7 de setembro. A seguir, apresentamos a distribuição dos textos por tipo, seguida de uma breve análise de enquadramento de cada um deles.

Como se pode ver, o tema não foi abordado nenhuma vez no Jornal Nacional, o noticiário televisivo de maior audiência no país, que pretende cobrir “as notícias mais importantes do Brasil e do mundo”.

Foram duas chamadas de capa, ambas, no Estadão:

“no dia 18 de agosto, a chamada informava ao leitor que “Caravana de Lula começa com tiros e confusão”; já no dia 26 de agosto, abaixo da manchete, lê-se que “Lula se diz ‘grato’ a aliados denunciados”. O texto que acompanhou a notícia, informava: “Em caravana pelo Nordeste, o ex-presidente Lula se disse grato a Renan Calheiros – que votou pelo impeachment de Dilma Rousseff – e a José Sarney. Ambos presidiram o Senado. ‘O Renan pode ter todos os defeitos, agora o Renan me ajudou a governar esse país’, disse Lula.” Não há dúvidas sobre o caráter negativo de ambas as notícias: na primeira, relata-se o evento de forma pejorativa, associando-o à violência, e na segunda indica-se que Lula teve um comportamento moralmente condenável durante a caravana”.

O assunto apareceu mais em colunas de opinião e em editoriais: quatro colunas na Folha, uma no Globo e quatro editoriais no Estadão trataram do tema.

Comecemos pela . No artigo “Digo, Lula”, publicado em 16 de agosto, Ruy Castro compara o ex-presidente a Haruo Nakajima, ator que interpretou Godzilla, e que continuou usando sua fantasia em eventos até o fim de sua vida. Segundo Castro, Lula também arrasta sua fantasia por “comícios para plateias de militantes profissionais”, mas esta estaria cada vez mais difícil de carregar.

No jornal O Globo, a única menção à Caravana se deu no artigo “O retrato de um desencanto”, assinado pelo cineasta Cacá Diegues no dia 27 de agosto. Nele, o colunista comenta seu desencanto com Lula (…)

No Estadão, os quatro editoriais que citaram a Caravana o fizeram de maneira deletéria, ofendendo Lula. No primeiro deles, intitulado “Caravana da mentira”, de 27 de agosto, o jornal paulista afirma que “o ex-sindicalista aproveita sua caravana pelo Nordeste para distorcer os fatos e difundir velhas asneiras”.

Os textos menores e internos (e/ou  nos portais dos jornais) foram igualmente raros: dois em O Globo, cinco no Estadão  e 21 na Folha, discretamente colocados e muitos deles de viés negativo. Aliás, este Tijolaço o tinha registado, em 3 de setembro, no post  “Quer ler sobre Lula no Nordeste? Compre jornal europeu“:

Nas raras reportagens que fez, (sexta e ontem), os textos sequer uma vez trazem a palavra povo, que na reportagem do The Guardian surge nove vezes a expressão people, povo ou pessoas.

No Jornal Nacional, não sei se é necessário dizer, simplesmente não houve notícia alguma, nem mesmo contrária.

Se não fossem os blog e as redes sociais, as milhares e milhares de pessoas que foram, tantas vezes debaixo de sol a pino, encontrar em Lula e sua caravana a esperança que têm e suas elites odeiam seriam totalmente invisíveis.

É realmente impressionante o “profissionalismo”, a “isenção” e a “imparcialidade” da mídia brasileira.

O candidato favorito às eleições presidenciais de 2018, com mais que o dobro das intenções de voto do segundo colocado e que triunfa em todas as simulações de segundo turno simplesmente não existe, quando não se trata de dar a Sérgio Moro e seus rapazes de Curitiba espaço para exercerem sua fúria condenatória.

A censura na nova ditadura brasileira, a midiático-judicial, vai se construindo tanto pelos seus gritos quanto pelos seus silêncios.

Não são jornalistas. São boiadeiros que tangem seu povo, como gado,  para o abatedouro.

Fernando Brito
No Tijolaço

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