28 de out de 2017

O Brasil se moderniza, reproduzindo o atraso


Não foi apenas Michel Temer quem sobreviveu, de novo, a graves acusações, desta vez a de constituir organização criminosa e a de obstruir a Justiça. Foi a velha política brasileira que se mostrou vivíssima, agora operando por Twitter e WhatsApp.

As formas clientelistas atravessaram a industrialização dos anos 1940-50, a ditadura militar e, como se viu, as quase três décadas de democracia sob a Constituição de 1988, para desembocar neste governo descolado da opinião pública.

A vitória de Temer por 251 a 233, arquivando a segunda denúncia do Ministério Público, confirma que metade da Câmara é infensa ao que pensa a maior parte dos jornais, as universidades e até mesmo o noticiário da TV. Para a banda clientelista, conta o benefício material que a caneta do Executivo é capaz de conceder por meio de emendas, cargos, obras e portarias, como a que facilita o trabalho escravo.

A queda de Dilma Rousseff ocorreu, em certa medida, porque a ex-presidente perdeu o controle sobre a parcela do Legislativo que Temer maneja tão bem. Em processo ainda não completamente esclarecido, o ex-deputado Eduardo Cunha, fenômeno à parte, passou a liderar o setor fisiológico da Câmara. A sucessora de Lula procurou obstar a irresistível ascensão do personagem, avaliando por baixo o peso gravitacional do clientelismo. Caiu.

Do ponto de vista aritmético, é simples. A oposição da época controlava cerca de um quinto da Casa (hoje é mais ou menos a mesma coisa). O que acontece se a tal porcentagem se somam os 50% do centrão fisiológico? Resposta: consegue-se o quorum necessário para tirar o ocupante do Planalto. Conclusão: a governabilidade depende de um grupo que não aparece nas páginas da grande imprensa, mas decide em horas chave, como aconteceu quarta passada.

E por que os representantes da velha política estão sempre lá, sai legislatura entra legislatura? Porque o mesmo eleitor que rejeita o governo Temer nas pesquisas de opinião em 2018 votará no deputado que sustentou o presidente. Seja por puro desconhecimento de a quem está sufragando a pedido do prefeito local (ver a coluna de 23/9 ), seja para recompensar o parlamentar por algum benefício obtido.

Diz-se que o governo Temer gastou até R$ 32 bilhões, entre junho e outubro, para obter apoio na Câmara. Quantas urgências não foram aliviadas pelo dinheiro que irrigou as bases municipais? Enquanto grande parte do país tiver as necessidades básicas desatendidas, haverá vasta clientela para todo tipo de ajuda emergencial.

O Brasil se moderniza, reproduzindo o atraso. As razões pelas quais Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco continuam a nos governar e assombrar jazem no fundo de nossa formação.

André Singer
No Esquerda Caviar

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