15 de out de 2017

O Brasil não será um Afeganistão Neopentecostal


Igrejas evangélicas neopentecostais tornaram-se potências econômicas. Vendem fé enganosa, produtos supostamente milagrosos, possuem inúmeros canais de rádio e televisão, financiam cinema e instituições de ensino. Pagam-se dízimos, trízimos, leva-se carros, imóveis e tudo o que se conseguir quando a massa hipnotizada está em transe durante momentos de vulnerabilidade. Algumas igrejas necessitam até de helicóptero para transportar dinheiro e já existe Drive Thru para comercializar bênçãos e encomendar rezas em cidades agitadas.

Há latifúndios religiosos que tomam enormes quarteirões, chácaras e até sítios, espalhando a marca publicitária pelo Brasil e pelo mundo. Mas também há nos bairros as pequenas igrejas, grandes negócios. Em algumas cidades, há avenidas com ambos os lados ocupados por elas, numa cena que lembra mercados orientais, com cada qual oferecendo seu produto com suas supostas vantagens. Esse é o melhor negócio a se fazer no Brasil por que a legislação isenta de impostos e de taxas seus CNPJs.

Com tanto poder econômico, elegeram bancadas nas câmaras, assembleias legislativas, no Congresso Nacional e até mesmo no judiciário. Há prefeitos, governadores, ministros e secretários nomeados, sendo o caso mais emblemático o da prefeitura do Rio. Muitos cargos no executivo são preenchidos por funcionários fantasmas que se usam da estrutura do Estado para expandir sua pregação religiosa. Suas ações políticas são mais do que conservadoras: encarnam um reacionarismo que mistura a moral do antigo testamento com neoliberalismo extremado através da assim chamada Teologia da Prosperidade.

Nas periferias, certas igrejas estão umbilicalmente associadas ao narcotráfico, que também tem sua bancada. Como se não bastasse, algumas já começam a criar milícias uniformizadas sem explicar à sociedade o que pretendem. O espaço público começa a ser ocupado com símbolos religiosos e frases da bíblia, da mesma forma que se praticam cultos onde se deveria tratar assuntos do interesse geral da população.

O desmonte da educação pela reforma do ensino médio, o sucateamento via congelamento de investimentos, as censuras ao conteúdo crítico pela “escola de partido único” e a decisão medieval do STF de autorizar a doutrinação religiosa no ensino público dificultam o florescimento do pensamento livre. Pessoas sem formação, com raro acesso a cultura e cercadas por televisão, são extremamente vulneráveis às promessas de fortuna, felicidade e vida eterna que essas igrejas prometem a troco de muito dinheiro.

Os cortes de bolsas do CNPq e da CAPES, o estrangulamento orçamentário das universidades federais e estaduais, a mercantilização do ensino superior e a consolidação do ensino a distância sem a menor qualidade visam tornar o Brasil um deserto para o desenvolvimento da ciência. Ao mesmo tempo, fecham o cerco contra cientistas que fazem pesquisas com células tronco, biólogos evolucionistas, geólogos que apresentam uma cronologia diferente da bíblia, historiadores e arqueólogos que desconstroem certas narrativas religiosas, mostrando que há além de tudo um anti-intelectualismo nascente.

Até as artes passam a ser objeto de censura hipócrita, as conquistas de liberdade sexual começam a regredir e até mesmo a nudez passa a ser repudiada por esse tipo de fanatismo. Os ataques desferidos a religiões afro-brasileiras, LGBTs, feministas, ideias de esquerda se avolumam. Tribos inteiras de índios são catequizadas e eles ficam proibido de cultuarem seus ancestrais e preservarem suas tradições.

Mas o obscurantismo não é invencível. É preciso agir de modo a garantir a laicidade de cada espaço público. Construir frentes e movimentos em defesa do Estado laico e da liberdade de pensamento. Cada pessoa ou instituição que for agredida, impedida de promover ideias ou de divulgar conhecimento deve ganhar voz e solidariedade. Professores devem desobedecer as determinações e denunciar as retaliações.

O fundamentalismo, o fanatismo e a doutrinação religiosa imposta precisam ser combatidos de todas as formas. Ele tomou conta da Europa por séculos, mas foi derrotado. Se um aposento está tomando pela escuridão, basta acender uma vela para que todos voltem a enxergar.

Thomas de Toledo é professor de Relações Internacionais da UNIP, historiador pela USP, mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e especialista em BRICS.

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