29 de out de 2017

Não existe mais jornalismo político no Brasil


Não se pode falar em "jornalismo político" no Brasil. A palavra "jornalismo" foi esvaziada de sentido. O que seria ou deveria ser "jornalismo", qual seria a lista paradigmática de valores caros a essa prática consagrada pela civilização? Fatos, investigação, liberdade, descoberta, ineditismo, denúncia, interpelação, argumentação, debate, relato, diversidade, consistência narrativa e texto de qualidade.

Quando a gente lê a manchete de hoje da Folha de S. Paulo e, a rigor, elenca o regime de manchetes de todos os grandes jornais dos últimos anos, e gente percebe que não há nenhum valor arrolado na lista acima. Pior do que isso, são antivalores ou seu exato contrário: fantasias, 'declaracionismo' - sic, monofonia, obviedade, repetição, denuncismo vazio, ausência de interlocução, senso comum, narrativas frágeis e texto precário.

O jornalismo já não é jornalismo há muito tempo, o sentido foi corrompido, expropriado, sequestrado. O jornalista não tem condições de fazer o seu trabalho, não tem liberdade, sequer tem direitos (trabalha por tempo, é explorado e amordaçado). O que diz a manchete da Folha de hoje? "Sob Temer, cresce ganho de irmão de marqueteiro". É quase um pedido de desculpa. Mais do que isso, é um enunciado que cai no vazio, porque não há mais segmento de leitores que se importe com esse tipo de obviedade: é óbvio - e cansa a beleza repetir ad nauseam - o quanto este governo é ilegítimo, corrupto e assassino (e péssimo e intelectualmente grotesco). Sem ineditismo, a notícia não acontece. Onde estão os teóricos do jornalismo? Cadê o Alberto Dines? Cadê o Observatório da Imprensa - que, ademais, só vinha falando igualmente obviedades? Cadê os professores da ECA, do Labjor - Unicamp, da UnB?

Quando o jornalismo entra nessa espiral obsessiva de repetição vazia, sem interlocução com a sociedade, sob essa "máscara", essa proteção de uma denúncia supostamente imparcial mas que foi elaborada e pensada para dar em nada, entra-se em um circuito doentio de ausência de debate e de sentido. Essa é a função maior do jornalismo hoje: estancar o debate, neutralizá-lo. O jornalista vocacionado, que fez uma graduação ou que aprendeu a escrever e investigar na vida real, está diante de um impasse. Ele tem o poder de virar esse jogo. Ele tem que ter a coragem de defender sua prática, seu trabalho e seu sentido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.