3 de out de 2017

Ideli Salvatti: Em 1979, Cancellier esbofeteou o general Figueiredo; agora, com sua morte, juízes e mídia; veja vídeo sobre a Novembrada



Em 1979, em Florianópolis, a juventude esbofeteou o ditador da época, o general Figueiredo, no episódio conhecido como novembrada.

38 anos passados, em Florianópolis, o Reitor da UFSC, Cancellier, que viveu a novembrada, esbofeteia com sua morte os ditadores de agora: juízes e mídia.

Cancellier nunca mudou de lado, o lado da democracia, da verdade; professor de Direito, ministrou sua Aula Magna de Justiça.

Ideli Salvatti
Ex-senadora (PT-SC)


O dia em que o povo enfrentou o general


Na segunda-feira, Rosângela Koerich de Souza irá para seu escritório de advocacia, como faz todas as semanas. Mas não será um dia como outro qualquer para ela. Desde 1979, 30 de novembro tem um significado especial para a advogada trabalhista de 54 anos.

Na manhã daquela data, a então aluna de Direito da UFSC foi à Praça XV protestar contra a ditadura militar diante do presidente da República, o general João Figueiredo. A manifestação em Florianópolis culminou em uma revolta popular que ficou conhecida como Novembrada e resultou na prisão de sete universitários, entre eles a advogada.

Solta no dia 12 de dezembro, Rosângela foi a julgamento com os colegas em 17 de fevereiro de 1980.

O promotor pediu o enquadramento dela e de Lígia Giovanella na Lei de Segurança Nacional (LSN), acusadas de terem agredido verbalmente o presidente. Por três votos a dois, todos – as duas mais Marize Lippel, Geraldo Barbosa, Newton Vasconcelos Jr., Adolfo Luiz Dias e Amilton Alexandre, o Mosquito – foram absolvidos pela Justiça Militar em Curitiba.

No mesmo ano, Rosângela se filiou ao nascente PT, partido no qual hoje integra a executiva municipal. Com a perspectiva de quem viu a sigla nascer, ela avalia o conturbado momento pelo qual passa o governo federal.

– A gente (petistas) não precisava estar passando por essas denúncias de corrupção. Acho que na educação também poderíamos ter avançado mais – critica, reticente.

Naquela sexta-feira em que se tornou procurada pela polícia, Rosângela já circulava cedinho pelas ruas do Centro ajudando a distribuir os 2 mil panfletos que atacavam as mordomias governamentais e exigiam melhores condições de vida. Apesar de o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSC ter convocado a população para o ato, ninguém – nem os órgãos de segurança muito menos os próprios organizadores – imaginaria tamanha adesão. O pai, dono de granja em São José, só pedia que caso acontecesse alguma coisa, a filha não dissesse que era comunista. Justamente como ela se definia.

– Eu era muito rebelde. Havia um curso anual oferecido pelo Congresso para alunos de Direito selecionados. O diretor do curso de Direito da UFSC, professor Lisboa, me inscreveu para ver se eu me “enquadrava”. Fomos de avião, ficamos em hotel cinco estrelas. Não adiantou nada! – diverte-se Rosângela, ao lembrar do início na militância.

No livro Novembrada: Uma Revolta Popular, o jornalista Moacir Pereira lista algumas razões para que o pequeno grupo de insatisfeitos se transformasse em uma turba enfurecida:
“(…) o descontentamento popular com o reajuste de 58% nos preços da gasolina; a declaração do presidente João Figueiredo de que era preferível o cheiro do cavalo ao cheiro do povo; a extinção do MDB e Arena colando uma pá de cal no bipartidarismo por imposição do regime militar; o contraste e as dificuldades da população com o aumento do custo de vida; as despesas exageradas com a ostensiva recepção à comitiva presidencial; a manipulação política produzida pela massiva campanha”.
Gesto da discórdia

Às 10h, Figueiredo chegou ao palácio Cruz e Sousa com Bornhausen e comitiva. Os estudantes, concentrados em um dos cantos da praça, começaram a gritar “abaixo a fome”, “chega de sofrer, o povo quer comer”, “abaixo a exploração” e “abaixo Figueiredo, o povo não tem medo”.

Dos alto-falantes instalados nas janelas do palácio, saía o Samba da Conciliação, jingle encomendado por 100 mil cruzeiros (equivalente a R$ 13,5 mil) ao maior nome da música catarinense, Luiz Henrique Rosa. A letra dizia que “o coração brasileiro não se cansa de ter sempre uma esperança para a vida melhorar”.

– Luiz Henrique era nosso amigo, inclusive o pai dele era padrasto do Adolfo. Estranhamos ele ter feito essa música, mas entendemos como contradições de um artista – diz Rosângela.

Irritado com as vaias, o presidente apareceu na sacada e, com a mão direita, gesticulou de uma forma entendida pela multidão como um insulto. A reação foi imediata e soterrou o protesto estudantil: “cavalo”, “fascista”, “filho da p*”, “um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos que o Figueiredo vá pra p* que o pariu”. Indignado, o general desceu à praça e, escoltado por agentes de segurança, caminhou até o Ponto Chic, na esquina do calçadão da Felipe Schmidt com a Deodoro, onde tomou um café, ganhou o diploma de “Amigo do Senadinho” e voltou a ser ofendido.

O conflito se generalizou pelas ruas do Centro. Na praça, a massa ainda arrancou a placa em homenagem a Floriano Peixoto, doada por Figueiredo na semana anterior. A programação foi mantida e o presidente rumou para o almoxarifado da Celesc, em Palhoça, onde cerca de 3 mil pessoas o aguardavam para um churrasco com 3.200 quilos de carne. Em seguida, embarcou para Brasília. Para ele, a Novembrada estava terminada.

– À tarde, depois de nos reunirmos no DCE na rua Álvaro de Carvalho para avaliar a situação, fomos para o bar Roma (tradicional reduto da esquerda, na esquina da av. Hercílio Luz com a rua Fernando Machado) tomar cerveja. Aí chega o Nelson Wedekin (advogado, suplente de deputado estadual pelo MDB) dizendo que a polícia estava atrás da gente – conta Rosângela, que acabaria presa no domingo com Marize, Geraldo, Newton e Mosquito.

Formada em 1981, ela trabalhou como concursada no Tribunal de Justiça (TJ) até 1983, quando se mudou para Criciúma para atuar no sindicato dos mineiros e organizar a fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) local. Retornou a Florianópolis em 1990 para montar o Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Estadual de Santa Catarina (Sintespe). Atualmente, advoga para o sindicato dos servidores públicos de São José, sua cidade natal. É casada há 25 anos e não tem filhos.

– Sou militante até hoje. A luta pelo fim das injustiças continua.

Para Lígia Giovanella, o front de batalha é a saúde pública, área pela qual dedica a carreira. Aos 60 anos, ela é pesquisadora da Escola Nacional da área, instituição ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Ingressou no PT carioca, mas não tem mais vínculo com nenhum partido.

– Tivemos avanços muito importantes no combate à pobreza e à miséria no governo Lula. O Brasil passa por uma situação econômica que também tem razões externas, mas já passamos por situações piores – opina Lígia.

No Viomundo

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