7 de out de 2017

Entrevista de Dilma à Sputnik


Entre os dias 2 e 6 de outubro, ex-chefe de Estado brasileiro, a petista Dilma Rousseff, tem estado com uma visita nas cidades russas de Moscou e São Petersburgo. A Sputnik Brasil teve uma oportunidade única de entrevistar a senhora ex-presidente para falar dos assuntos internos e internacionais.

Como serão as futuras presidenciais no Brasil? Porque não se constrói uma grande coalizão de esquerda no país verde e amarelo? Em uma entrevista exclusiva à Sputnik Brasil em Moscou, a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, revelou as respostas a essas e muitas outras perguntas pendentes.

Para a democracia brasileira 'é crucial que Lula volte'

Proponho que comecemos com os eventos mais recentes. Como a senhora poderia caracterizar a agenda da sua visita à Rússia? De quem foi a ideia da viagem e quais foram as organizações russas que ajudaram a senhora com a organização da visita?

Dilma Rousseff: Olha, a ideia dessa minha viagem à Rússia tem a ver com uma organização que é compartilhada com algumas universidades, mais precisamente 3 universidades, e o CLACSO que é o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. Essas universidades enviaram um convite e no marco da relação delas com o CLACSO eu vim aqui, falar basicamente nas áreas que são áreas que se dedicam ao estudo da América Latina. […] Então, isso, eu diria para você, é um marco geral. Um marco específico é o meu interesse como ex-presidente, embora legitimamente eleita, e o meu mandato ainda não terminou, é para esclarecer a situação do Brasil para o mundo. […] Tem um objetivo fundamental de conscientizar quais são as características do golpe, como é que ele se desenvolve e […] o que está em vias de acontecer no Brasil no próximo ano, que é um ano fundamentalmente… que marca um encontro do Brasil consigo mesmo, porque é um ano democrático, é um ano das eleições presidenciais.

Ex-presidente brasileira, Dilma Rousseff, durante entrevista com Sputnik Brasil em Moscou, 6 de outubro de 2017
© Sputnik/ Aleksei Kudenko

Ex-presidente brasileira, Dilma Rousseff, durante entrevista com Sputnik Brasil em Moscou, 6 de outubro de 2017

Em conversa com a Sputnik, Dilma destacou que já fez várias viagens desse tipo, inclusive para Espanha, Portugal, toda a costa oeste dos EUA, isto é, a costa do Pacifico. À Rússia ela veio de Helsinque, seguindo para a Universidade de São Petersburgo e Universidade de Moscou, Academia de Ciências da Rússia e o Instituto de Estudos Latino-Americanos.

Sim, falando das presidenciais. Falta quase um ano exato para as eleições presidenciais no Brasil de 2018. Nesse respeito, qual é a previsão da senhora — com candidatura de Lula e sem participação dele?

A minha previsão é que… Eu sofri um golpe parlamentar midiático. Este golpe parlamentar se deu porque por quatro vezes consecutivas nós derrotamos o projeto neoliberal, tanto do ponto de vista econômico-social, quanto do ponto de vista geopolítico. Esse projeto tem como caraterística implantar no Brasil um regime que já tentaram antes, que consiste em redução do Estado brasileiro. […] Bom, tudo que está acontecendo no Brasil hoje tem a ver com o golpe que foi dado, que se completou em agosto de 2016, mas que foi planejado e executado a partir de 3 meses depois que eu ganhei as eleições por 54 milhões e meio de votos. Criaram todas as condições, acirrando a crise econômica, porque jogaram sobre a crise econômica, aquela crise que atingiu todos os países emergentes, inclusive a Rússia, a China.

Continuando o tema, a ex-presidente afirmou que os apoiantes do "projeto neoliberal" que não conseguiram implantar suas ideias através de uma eleição geral, ou seja, um pleito, aproveitaram um momento certo de crise e uma espécie de vácuo econômico para "criar uma crise política e com isso suspender o regime democrático".

Dilma insistiu em sublinhar que o PT, pelo contrário, derrotou o projeto agora implantado de forma forçada por 4 vezes consecutivas, fazendo avançar seu programa de desenvolvimento econômico, com grande redução de desigualdade e com afirmação da soberania brasileira.

"Tendo em vista que queriam enquadrar o Brasil, porque não conseguiam através das eleições, […] inventam um motivo. Qual é o motivo que inventam? Inventam que há questões orçamentárias, porque não podem me acusar de corrupção. Acusam das questões orçamentárias que todos os governos praticaram. Daí, este processo ocorre.

Eles me tiram do governo. Quando me tiram do governo, eles aproveitam para implantar no Brasil num período curto de tempo, que é pós-agosto de 2016, o quê? O que não tinham conseguido ganhar por eleição", defendeu a ex-presidente.

Críticas ao governo atual

Além disso, ela assinalou que as ações do atual governo não fazem nada senão "ferir a democracia", introduzindo emendas constitucionais que implicam "absoluta neoliberalização do orçamento" como congelamento de todos os gastos sociais por 20 anos.

"A democracia se baseia no seguinte: cada presidente tem direito de ter seu programa social e econômico. Se você define um programa social por 20 anos, você fere o direito constitucional de cada um dos eleitores que escolheu o presidente que lhes interessa. […] Então eles continuaram nesse processo. No mesmo tempo, eles desmontaram todas as políticas sociais que nós fizemos neste período", manifestou Dilma, advertindo, porém, que o ano de 2018 será algo que poderá fazer a justiça voltar ao palco interno do país.

Aliás, enfatizou, dado o crescente grau de impopularidade do atual presidente, as pessoas já começaram se dando conta de que "houve golpe" e esse, respectivamente, "trouxe uma perda de direitos econômicos e sociais".

"Querem vender o Brasil a preço barato, inclusive o patrimônio brasileiro. Abrem terras para estrangeiros, querem privatizar empresas de energia elétrica que controlam todas as grandes hidroelétricas, estão vendendo partes do pré-sal. […] Até um grupo de senadores já enviou cartas às embaixadas de todos os países, avisando o seguinte: não comprem, não comprem o que o Brasil está vendendo, porque nós vamos rever. Então, vai haver uma insegurança jurídica se você se forçar a compra. Esta é a continuidade do golpe", criticou.

Mas como 'se novelizou' a queda do PT?

Falando da possível participação de Lula nas eleições de 2018, a Dilma assegurou: os seus adversários políticos tinham previsto tal cenário e agiram de forma para impedir completamente a potencial participação petista na governança.

"Só me tirar não bastava. Me tira, tá. Nós damos uma volta e voltamos. Então tinha que liquidar a maior liderança política. Começou, então, o processo de perseguição ao Lula", afirmou.

Falando da situação política criada no establishment político brasileiro nos últimos anos, a ex-líder brasileira demonstrou um conhecimento bem profundo de ciências sociais, citando uma série de noções para ilustrar o acontecido.

"E institui-se o que se chama estado de exceção. Quem teorizou sobre o estado de exceção […] foi um italiano Giorgio Agamben, que mostra que o estado de exceção convive com o estado democrático. […] O que eu interpreto é que medidas de exceção, a maior delas é um impeachment, começa a corroer por dentro a democracia. E aí, eles completam esse processo com algo que outro intelectual, desta vez americano, Comaroff, concebeu em termos teóricos como algo que chamou de "lawfare". De lei, "law", e "fare", de guerra. A guerra da lei. Esta guerra da lei consiste em você utilizar como instrumento de combate político não a praxe, a prática democrática", explicou a petista.

De acordo com Dilma, no "lawfare" (em analogia com a palavra inglesa "warfare", ou seja "guerra" ou "equipamento militar"), a lei é usada para matar o adversário politicamente, civilmente, moralmente, acusando-o de praticar algum crime.

"Se mais tarde se prova que este adversário foi inocente, não tem importância. Ele já foi tirado do campo de batalha político", adiantou.

E, de fato, os conceitos cunhados pelos intelectuais ocidentais deram certo. Tanto o Lula, como Dilma e todo o PT em geral, sofreram um "profundo desgaste".

"Caiu a popularidade do partido, caiu a popularidade do Lula, nós tivemos uma situação que, combinada com o impeachment, é uma situação grave", confessou, frisando, sobretudo, o papel da mídia no processo, dado que esta, na opinião da ex-presidente, é "oligopolista" e se caracteriza por uma "concentração absurda", na qual um órgão de comunicação tem "só uma orientação, uma opinião" e é "antidemocrática".

E vai haver regresso?

De acordo com Dilma, a vida do modelo atual implantado, em sua opinião, de maneira ilegítima, não vai durar.

"Eles querem voltar ao momento anterior, onde o dinheiro do Estado brasileiro era dominantemente usado para os setores mais ricos. Isso a população percebe imediatamente, porque com o passar dos meses cada vez mais se aprofunda a perda de direitos. Então a população passa a perceber a ponto do atual presidente só ter 3 por cento de aprovação. De cada 100 pessoas, só 3 o apoiam", defendeu.

Quanto à possível candidatura de Lula e sua atual aprovação, Dilma se mostrou mais que otimista. Mais que isso, a ex-presidente defendeu: para a democracia brasileira "é crucial que Lula volte para recompor não só as condições econômico-sociais, mas as condições políticas".

"E, ao mesmo tempo, essa primeira parte que eu falei leva a que o presidente Lula tenha 35 por cento, mínimos, 36… Que é mais da metade de qualquer outro candidato nessa etapa. Mas, ao mesmo tempo, a rejeição que tinha sido construída contra ele cai. Por que ela cai? Por que as pessoas começam a perceber que é a perseguição política", continuou.

Além disso, Dilma Rousseff defendeu que a tática escolhida pelo governo atual e pelos principais "construtores" da sua destituição acabou por afetar eles mesmos.

"Mas como na democracia todos são iguais perante a lei, tem essa igualdade formal perante a lei, começa a dispersar os ataques e atinge o atual presidente, atinge todo o governo dele. Atinge também aqueles que lideraram o impeachment: o ex-presidente da Câmara [Eduardo Cunha], que vai preso lá em Curitiba e, hoje, todos os que lideraram o impeachment, todos. Ou estão presos, ou estão com um processo muito forte. Por conta disso, se abre uma caixa de Pandora e os monstros devoram quem abriu", concluiu.

Dilma Rousseff revela à Sputnik por que esquerda no Brasil não forma coalizão unida


Então, continuando o tema da política interna brasileira, queríamos saber: por que não vemos no Brasil uma grande coalizão de esquerda, como forma de resistência ao atual modelo implantado pelo governo que a senhora presidenta contesta?

Primeiro eu te respondo assim: eu só conheço dois lugares no mundo onde tem uma ampla coalizão de esquerda. Um é Portugal, e o segundo é Uruguai. Não conheço uma coalizão de esquerda na França, não conheço na Itália, não conheço na Alemanha, muito menos nos EUA, e quase em nenhum país da América Latina. E este é o problema sério da esquerda brasileira. Agora, eu queria te destacar uma coisa: pode não ter no primeiro turno, mas tem no segundo. Não se cria frentes porque eu resolvo criar uma frente. Todos os países que criaram frentes em que a esquerda teve uma participação relevante criaram porque as condições históricas permitiram que esses partidos, os diferentes partidos existentes, tivessem consciência da importância de lutar unidos.

Falando das razões para tal tendência dentro do país verde e amarelo, a petista defendeu: mesmo sem lideranças, o PT "se transformou em um grande partido de massa" e "desde a sua fundação veio crescendo".

Contudo, não poderia deixar à parte as recentes perturbações sofridas pelo respectivo partido, que, porém, na opinião da ex-presidente, foram criadas de modo planejado e politicamente motivado pelos "construtores" do impeachment. Entretanto, disse a política, essa estratégia parece estar a falhar.

"Veja você que no auge da crise, quando eles estavam me tirando do poder e perseguindo o PT e o Lula, nós ainda fomos o partido com maior apoio popular. E ao contrário do que eles esperavam, porque eles esperavam não só me tirar, e destruir o PT, o Lula e todo o mundo, o PT passou a crescer para 19% dos votos. Quanto têm os demais partidos? Cinco. Quantos mais temos partidos de esquerda? Um", afirmou ela em uma conversa exclusiva com a Sputnik Brasil.

Todavia, Dilma manifestou que seu partido é alguém que não atuou apenas sozinho, mas "sempre fez uma grande frente de esquerda", especialmente nos segundos turnos das eleições presidenciais, quando o apoio dos aliados é crucial.

"Eu congreguei alguns partidos de esquerda, Partido Comunista do Brasil, que sempre fez aliança conosco. Sempre participamos da eleição em conjunto. O Partido Socialista Brasileiro, o Partido Democrático Trabalhista. Esses três partidos estiveram sempre unidos ao PT desde a redemocratização. […] Mas é muito possível que, em primeiro turno das eleições, cada um apresente um candidato ou alguns apresentem candidatos. Isto não significa que no segundo turno não se juntem. Porque no Brasil sempre tem dois, sempre nas eleições presidenciais, até agora. Só uma vez não teve dois turnos [nesse aspeto, a ex-presidente errou: houve só um turno nas presidenciais de 1994 e 1998]. E o segundo turno é importante, é importante porque, de fato, a coalizão do governo se forma a partir daí", explicou a petista.

Analisando ainda as razões do enfraquecimento dos movimentos de esquerda em todo o mundo, Dilma sublinhou as dificuldades "de raíz" originadas pelas "rupturas entre os partidos comunistas, entre os partidos socialdemocratas e partidos socialistas".

"Agora, eu acho que as rupturas começam a ocorrer menos por isso e mais pelo fato que certo segmento dos partidos socialistas ou socialdemocratas são cooptados pelo neoliberalismo e passam a ter posições neoliberais muito fortes, apesar do nome ter este componente. Então, eu acho que mudam os motivos", resumiu.

Dilma acusa Bolsonaro de apoiar 'tortura e ditadura' no Brasil


Um dos episódios mais citados quando a gente fala da biografia da ex-presidente brasileira, Dilma Rousseff, é seu histórico de luta contra a ditadura militar. Em uma entrevista exclusiva, a Sputnik Brasil falou com a política sobre a abertura dos respectivos arquivos e "reminiscências" de ideias totalitárias nas Forças Armadas brasileiras.

Muitas vozes, até então caladas, na sociedade brasileira e na caserna vêm mencionando a necessidade de intervenção militar no Brasil. Dada a sua história de resistência à ditadura, como a senhora vê isso? Por que não houve um esforço durante o seu governo para a abertura dos arquivos da ditadura, a fim de que se buscasse um processo de revisão do período?

Bom, eu vou te explicar a primeira parte. A minha experiência é como Presidente da República. Eu acredito, de forma bastante sincera e profunda, que as Forças Armadas brasileiras têm hoje uma noção clara da importância da democracia e dos perigos que provocam nas Forças as intervenções militares. As Forças Armadas do Brasil, eles têm compromisso democrático. O atual comandante do Exército eu nomeei. O atual comandante da Aeronáutica eu nomeei. O atual comandante da Marinha eu nomeei. São pessoas que têm compromisso democrático.

Entretanto, a ex-presidente brasileira reconheceu que o problema das crescentes ideias radicais entre os círculos militares verdadeiramente existe.

"O que é que está acontecendo no Brasil? É que algumas vozes militares começam a falar e isto — por alguns motivos. Primeiro, porque o escândalo é muito grande, então houve uma manifestação nesse sentido. Outros — porque ainda dentro do exército tem, não é grande, mas tem, reminiscentes e reminiscências da ditadura", confessou.

Contudo, embora tais ideias, de fato, sejam expressas de vez em quando, Dilma defendeu que não vê uma hipótese, de fato, de "um movimento de intervenção militar neste momento no Brasil" e considera tais alegações como algo "precipitado e é incorreto".

Além disso, defendeu que no cenário político brasileiro há figuras que contribuem para alastramento de tais ideias.

"Por que é que no Brasil isso ainda foi cogitado? Não só pelos militares. O próprio candidato que está em seguida ao Lula [Jair Bolsonaro], ele é uma pessoa que votou pela tortura e pela ditadura no dia 17 de abril, no Congresso Nacional, votando a favor do meu impeachment. Não foi a favor do impeachment, mas foi a favor da tortura e da ditadura", expressou a petista.

Democratização dificultada dos anos 80

Segundo enfatizou Dilma em uma conversa com a Sputnik Brasil, o futuro dos arquivos da ditadura militar foi definido ainda na época de transição democrática, que foi, aliás, bastante conturbada.

"Aí, o processo de transição é um processo negociado. Fazem uma eleição indireta no Congresso. Nessa eleição indireta, cria-se um governo, o presidente morre, há um substituto que é um substituto do governo anterior, que apoiou a ditadura. Um cara que apoia a ditadura e que faz a transição. E a transição foi feita. Quando fazem uma transição, negociam uma principal questão: chama-se anistia recíproca. […] Anistia recíproca é "eu não processo as organizações de esquerda, e vocês não processem os torturadores". Acordo absurdo […], porque as organizações de esquerda cometeram atos de violência. Mas eram atos de violência sem a força do Estado. Uma coisa é terrorismo do Estado, outra coisa são atos violentos por indivíduos que no Brasil não foram muito expressivos", defendeu.

Analisando aquele período da história brasileira, a Dilma observou que no processo houve marcantes diferenças em relação aos outros países latino-americanos afetados por tendências políticas iguais.

"Então, fizeram um acordo. Isto é, no final dos anos 80. Aí, com isso a população não viu serem julgados os torturadores. A população não viu serem julgados aqueles que cometeram crimes, assim como ocorreu na Argentina, que eles condenaram e botaram na cadeia, ou no Chile, […] ou no Uruguai. O que a população viu foi esse acordo", confessou a petista.

Segredos negros do passado brasileiro

De acordo com a ex-presidente brasileira, foi exatamente a esse "pacto" que se deve a ausência de arquivos para abrir na época em que o PT chegou ao poder.

"Bom, aí a vida passa. Quando nós chegamos, o que você acha que tinha para abrir? Eles saem no final de 1980, vamos falar em 1988, é antes, mas damos de barato que é 1988. Que é que tem para abrir em 2013, o que é que você acha? Que alguém deixou para ser descoberto, por 13 anos, você acredita? […] Então, nós fizemos de tudo, inclusive prometemos absoluta discrição para quem entregasse esses arquivos", revelou.

Destacou, porém, o grande papel da Comissão Nacional da Verdade, instituída pela própria ex-presidente, que foi crucial nessas tentativas de fazer virem à tona os novos detalhes das páginas negras da história brasileira.

"A Comissão Nacional da Verdade, ela pediu os arquivos para as Forças Armadas. Que arquivo é que as Forças Armadas naquela altura do campeonato tinham? Nenhum. O que é que você acha que a pessoa faz logo que o regime muda de ditadura para democracia? De duas uma: ou queima arquivo, ou esconde em casa. O resto, nós tínhamos de fazer isso, pegamos alguns arquivos que sobraram. Mas os arquivos fundamentais tinham de ser pegos antes, logo após a abertura, mas os governos não queriam mexer com isso. É simples assim", partilhou a ex-presidente à Sputnik.

Nas relações de Temer com EUA, há 'continência de se mostrar submisso'


Para qualquer cidadão brasileiro, bem como para um observador externo, fica evidente que com a chegada do novo governo, na sequência do impeachment da petista Dilma Rousseff no ano passado, a estratégia brasileira no palco internacional passou por várias mudanças. A Sputnik Brasil falou com a presidente afastada para descobrir sua opinião sobre o tema.

Bom, e passando pela agenda internacional um pouco. Há duas semanas, Michel Temer participou de um "jantar" organizado pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para os líderes de vários países da América Latina; o encontro foi dedicado à situação na Venezuela. A aliança com Washington no que toca a assuntos do continente sul-americano pode ser considerada segura? Como a senhora pode explicar o interesse elevado de Washington em relação à Venezuela?

Olha, Washington tem tido esse interesse elevado em relação à Venezuela há muito tempo, porque na América Latina, nessa região do mundo, se você considerar a produção global de petróleo, a Venezuela tem uma das maiores reservas do petróleo do mundo. Venezuela é um país bastante rico: tem terras férteis, a Venezuela é um país muito significativo na ordem da geopolítica internacional. O que é que acontece com o governo Temer? Quando eu disse que o golpe é para enquadrar a gente geopoliticamente, porque eu disse isso? Porque desde o governo Lula, passando pelo meu governo, nós tivemos uma atitude clara.

Especificando os principais pontos dessa "atitude", Dilma destacou que o governo petista sempre deu "importância aos nossos vizinhos latino-americanos" e criou "espaços de articulação multilateral", tais como a UNASUL e a CELAC, além do Mercosul que já existia. Em seguida, a ex-chefe de Estado brasileiro enfatizou os principais "fracassos" estratégicos da política externa do seu ex-companheiro na chapa.

"O governo Temer (além da gente ser pró-América Latina, nós somos a favor da África) assume e fecha as embaixadas na África ou diz que vai fechar as embaixadas na África. Por quê a África? Porque somos o maior país negro fora da África e, se você considerar as populações dos países africanos, somos a segunda maior do mundo depois da Nigéria. Então, o Brasil tem uma relação com a África que é de raiz, ou seja, integra sua nação. Então, a África era muito importante", criticou.

Multilateralismo como prioridade está sendo questionado?

Entretanto, a petista deu um destaque especial às organizações internacionais que surgiram no período de governança do seu partido, elogiando, particularmente, o grupo dos países BRICS.

"Aí, vêm os países emergentes, notadamente os BRICS. Nós ajudamos tais países como a Rússia, a China e a Índia a construir os BRICS, posteriormente entra a África do Sul. Por que é que os BRICS são importantes? Porque os BRICS são afirmação do multilateralismo. Não vivemos em um mundo em que um país dá as cartas para que outros seguem que nem cordeiros. No caso, nós não estamos mais na época da Guerra Fria, em que os EUA consideravam a América Latina seu quintal. Nós não somos o quintal de ninguém. Nós somos uma nação que reconhece entre o concerto das nações seus iguais", defendeu Dilma, falando com a Sputnik Brasil.

Evidentemente, a senhora ex-presidente expressou uma certa preocupação com que as conquistas do seu governo, inclusive as no palco internacional, sejam prejudicadas pelo "projeto neoliberal", que veio ao poder na sequência do seu afastamento.

"Eu acho que uma das maiores realizações do século XXI é a criação dos BRICS. Se hoje o governo brasileiro não tem coluna vertical, não tem consistência e se submete a governo Trump, é porque quer, porque nós construímos uma política externa independente altiva e ativa. Altiva é o seguinte: você tem que respeitar os outros países, porque você quer ser respeitado", explicou.

Venezuela ‘na mira' da onda neoliberalista latino-americana?

Falando nomeadamente da postura do gabinete de Temer em relação à crise na Venezuela e às declarações bem ousadas do líder estadunidense em respeito a esse assunto, a Dilma não poupou palavras.

"O governo Temer, em relação à Venezuela, tem uma atitude absolutamente equivocada, porque não é só essa ação de lado Trump, parece que há continência aí… de se mostrar submisso. É sobretudo o fato que ele aceitou uma ação conjunta com os EUA de tropas na Amazônia, coisa que nunca foi aceita no Brasil, nem na época de ditadura. Qual é essa visão? Essa visão é uma visão antidemocrática, de cerco à Venezuela, visão que já se provou completamente equivocada nas avaliações que os EUA fizeram das oposições, por exemplo, na Síria, achando que eram oposições democráticas, e eram oposições que tinham organizações terroristas dentro", especificou a ex-presidente.

Mas. para a senhora, há uma ligação direta entre seu impeachment e aumento da pressão contra a Venezuela?

Não, […] há um ambiente, não é uma ação direta assim. O que foi para cá, é um ambiente que se cria na América Latina de avanço das forças de direita. No caso da Venezuela é gravíssimo. Por quê gravíssimo? Porque vai dar a guerra civil. Vai dar a disruptura. E ao dar guerra civil, eles estão levando a guerra para um continente que tem mais de 140 anos sem guerra, é isso que estão fazendo. E é irresponsável da parte do presidente atual ilegítimo Temer, que ocupa o Palácio, não ter protestado e não ter dito que ele é contra intervenção militar. Eu não estou falando isso por paranoia, porque Trump foi ao público que cabia intervenção na Venezuela, assim como disse que ia revogar todo o acordo com Cuba.

Qual é a razão principal deste avanço de direita do qual a senhora está falando?

Porque a América Latina, ela nadou contra a corrente. […] A América Latina reduziu a desigualdade no tempo em que a desigualdade crescia em todo o mundo. Você olha que a financeirização nos EUA e na Europa leva a duas coisas complicadas. Leva a um aumento da desigualdade, uma estagnação de salários, uma redução dos investimentos em ciência e tecnologia, isso mais nos EUA que na Europa. Como consequência disso, o que é que acontece com as pessoas quando veem que durante muito tempo suas demandas não são atendidas? Elas ficam descrentes dos governos, elas ficam descrentes da participação política.

Como exemplo de tal tendência, a política citou um dos maiores eventos da política europeia dessa década, ou seja, a saída britânica da União Europeia. Na opinião de Dilma, é uma evidência clara da desconfiança e indignação expressa pela população do Reino Unido em relação às estruturas europeias em meio ao crescimento de desigualdade na respectiva região do mundo.

"No caso, o salário do americano médio branco estagnou: eles ganham o mesmo hoje que ganhavam 60 anos atrás. Num país cuja ideologia da ascensão social é um cimento que unifica a nação. E, ao mesmo tempo, você vê a mesma coisa no Brexit. Por que é que vota na saída da União Europeia? Porque a culpa da desigualdade eles colocam na União Europeia, como Trump coloca a culpa da desigualdade nos mexicanos e nos acordos comerciais, como se não fossem os grandes bancos, as grandes empresas financeirizadas que são responsáveis por isso", manifestou.

Segundo a ex-presidente brasileira, tais fenômenos como estagnação de salários, trabalho precário, a precarização do trabalho é "uma coisa gravíssima que ocorre na Alemanha, que ocorre na França, com legislações específicas para isso". Ou seja, na Europa há cada vez mais descontentamento. Porém, esse fenômeno, de acordo com a política, não teve a ver com a América Latina por muito tempo.

"Então, uma das razões é que a América Latina não tinha isso. Era, vamos dizer, estava fora de compasso. Estava tocando uma música que não era a música da orquestra", adiantou.

Dilma voltou a sublinhar que as forças neoliberais que a sucederam, não tendo podido a derrotar em eleições gerais, construíram um "golpe" para "enquadrar" o país no respectivo paradigma político, o Brasil social, econômica e geopoliticamente.

"E se para isso é necessário ferir a democracia, prejudicar o povo brasileiro e criar um retrocesso — não tem problema, eles encaram. Por isso é que 2018 para nós, o Brasil, é um momento de resistência e luta. Nós temos que derrotar esse programa neoliberal, a melhor pessoa para fazer isso é um líder brasileiro comprovado e testado, porque o Lula não precisa de falar: 'Vou fazer.' Ele fez. Ele saiu do governo com 90% de aprovação, então, por isso é que eles tem um medo pânico do Lula, é isso que eles têm", afirmou a ex-presidente com ar otimista.

Ekaterina Nenakhova, Konstantin Kuznetsov

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