28 de out de 2017

Ennio Morricone, maestro soberano

As apresentações de Ennio Morricone têm cerca de duzentos músicos sobre o palco e já venderam
 mais de quinhentos mil ingressos desde 2014. Os shows exibem uma pequena fração da obra deste
que é reconhecido como um dos mais importantes compositores e músicos do mundo ainda
em atividade.
Na foto, Morricone em Frankfurt, 2015. (Por Sven-Sebastian Sajak, do Wikimedia Commons)
Nascido no dia 10 de novembro de 1928, Ennio Morricone vai completar oitenta e nove anos de idade sem pensar em aposentadoria. Em 2017, o maestro italiano realiza turnê que comemora sessenta anos de exitosa carreira musical. As apresentações de Ennio Morricone têm cerca de duzentos músicos sobre o palco e já venderam mais de quinhentos mil ingressos desde 2014. Os shows exibem uma pequena fração da obra deste que é reconhecido como um dos mais importantes compositores e músicos do mundo ainda em atividade.

A porção mais prestigiosa da obra de Ennio Morricone é constituída pela música que escreveu para mais de quatrocentos filmes, embora ele seja também um destacado compositor erudito e tenha feito arranjos e produção musical para artistas populares da Itália e de outros países, incluindo aí o nosso Chico Buarque, com quem colaborou no álbum Per un Pugno di Samba, de 1970. O LP de Chico inclui versões em italiano de “Roda Viva”, “Samba e Amor” e “Funeral de um Lavrador” e foi gravado na época em que o cantor e compositor brasileiro estava exilado na Itália.

Músico de formação clássica, capaz de tocar vários instrumentos, em especial o trompete, Ennio Morricone começou a escrever trilhas para teatro aos dezenove anos de idade. Em 1961, depois de trabalhar por um tempo com rádio e TV, Morricone compôs sua primeira trilha sonora para o cinema, mais precisamente para o filme Il Federale, do italiano Luciano Salce (hora da trivia: Salce iniciou sua carreira de cineasta no Brasil, mais precisamente no estúdio Vera Cruz, para o qual dirigiu Floradas na Serra, clássico romântico do cinema brasileiro lançado em 1954 e estrelado por Cacilda Becker e Jardel Filho).

O sucesso como autor de trilhas para cinema surgiu quando Morricone uniu-se a Sergio Leone para fazer a música da “Trilogia dos Dólares”, três títulos que redefiniram o modo de filmar faroestes, deram início ao ciclo dos spaghetti westerns e transformaram Clint Eastwood em um astro (como diretor de filmes, Eastwood foi muito influenciado por Leone). Compõem a “Trilogia dos Dólares” de Leone os filmes Por Um Punhado de Dólares (Per un pugno di dollari, 1964), Por Uns Dólares a Mais (Per qualche dollaro in più, 1965), película que destaca a atuação do “feio e malvado” Lee Van Cleef, e Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966). O estilo de Leone como diretor de cinema, que mistura o épico, o prosaico e o grotesco para criar um retrato inadulterado da violência do Velho Oeste norte-americano como metáfora da barbárie humana, informou a música que Ennio Morricone produziu para a mais célebre trilogia dos faroestes italianos. O mutualismo da relação entre diretor e compositor era um fato: Leone editou Três Homens em Conflito usando como referência a música feita para o filme por Morricone. As criações de Morricone para os faroestes de Leone utilizam instrumentos convencionais de orquestra, instrumentos elétricos, assovios, efeitos sonoros inusuais e intervenções dramáticas de vozes de solistas e de coros para amplificar o alcance narrativo dos filmes. O tratamento musical incomum e eclético que Ennio Morricone dedicou aos spaghetti westerns, eles mesmos produtos cinematográficos anômalos, foi também influenciado pelo fato de que o compositor não era norte-americano e, por isso, não estava preso às convenções dos faroestes feitos nos Estados Unidos até aquele momento.







A parceria de Morricone com Sergio Leone atingiu ponto culminante em Era Uma Vez no Oeste (C’era una volta il west, 1968). A beleza da melodia do tema principal que Morricone escreveu para este filme conquistou o mundo e é certamente o item mais conhecido do imenso acervo musical do compositor.



O maestro italiano tem domínio completo da linguagem orquestral e sensibilidade despida de preconceitos, que desconhece limites entre a “alta cultura” e o kitsch. A capacidade de criar temas que capturam imediatamente a atenção do ouvinte e que contribuem sobremaneira para o êxito narrativo dos filmes garantiu o sucesso cinematográfico de Morricone. A lista de cineastas com quem o compositor colaborou é um verdadeiro who’s who da história do cinema nas últimas cinco décadas. O maestro musicou filmes de Pasolini, Bertolucci, Marco Beloccio, Giuliano Montaldo (para este cineasta, urdiu a trilha de Sacco e Vanzetti, marco histórico do cinema político), e mais: Dario Argento, Mario Bava, Marco Ferreri, Lina Wertmuller, Franco Zeffirelli, Giuseppe Tornatore (para quem fez a linda música de Cinema Paradiso, de 1988), Don Siegel, Terrence Malick, Brian De Palma, Roman Polanski, Oliver Stone, Margarethe Von Trotta, Roland Joffè (para este diretor, escreveu uma de suas obras mais celebradas, a trilha do filme A Missão, de 1986) e Wolfgang Petersen, entre outros. A banda sonora mais recente de Ennio Morricone a merecer destaque foi a de Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, que venceu o Oscar da categoria em 2016, mas perdeu o Grammy do mesmo ano para a música bombástica de Star Wars — O Despertar da Força, de John Williams.









Mais impressionante que a lista de cineastas com que Morricone trabalhou e de filmes clássicos que musicou é o ritmo de trabalho do homem. No ano de 1965, Morricone escreveu e produziu trilhas para dezoito filmes. Em 1968, ele fez música para vinte e seis películas, inclusive para Teorema, de Pier Paolo Pasolini. Em 1969, Morricone diminuiu o ritmo de trabalho e compôs trilhas para dezesseis obras cinematográficas, entre elas a do clássico Queimada, de Gillo Pontecorvo, e de La Donna Invisibile, de Paolo Spinola (que no Brasil recebeu título apelativo: As Anormais).







1971 foi outro ano de trabalho frenético para Ennio Morricone, no qual o artista compôs temas para mais de vinte longas metragens. A produção caudalosa de Morricone nunca deixou de lado a qualidade musical. A já citada música de Sacco e Vanzetti, que tem participação de Joan Baez, e as bandas sonoras de Os Ladrões e de Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza são daquele ano e são todas obras-primas, que podem ser ouvidas independentemente dos filmes para os quais foram feitas. Outra trilha magnífica de Morricone lançada em 1971 é a do documentário Veruschka, sobre a supermodelo alemã de mesmo nome, na qual a música reflete a beleza e a sensualidade da mulher retratada pelo filme.







Ennio Morricone recebeu merecidamente muitas flores em vida, incluindo prêmios de alcance internacional como o Polar Prize (popularmente conhecido como “Nobel da música”) e o Oscar pelo conjunto da obra, concedido a ele em 2007. A música de Ennio Morricone é repleta de prazeres ocultos, de gravações pouco conhecidas que são tão bonitas quanto as que fizeram dele um nome consagrado. Para colecionar discos de Morricone é preciso tempo, paciência e muita grana, pois a quantidade de títulos que ele lançou é imensa e muitos deles são raros. Quem deseja aprofundar-se no imponente legado artístico deste titã pode procurar pela caixa de quinze CDs Complete Edition, editada em 2008 pelo selo GDM Music. A edição física da caixa é caríssima, mas vale cada centavo (infelizmente, só tenho este box set em mp3). Apesar do nome que ostenta e da quantidade de CDs que contém, a caixa Complete Edition não esgota a obra de Ennio Morricone, que é vasta como os espaços abertos dos faroestes que ele musicou.

O Spotify oferece ao usuário muitos títulos de Ennio Morricone, inclusive compilações exclusivas feitas por este serviço de streaming. A coletânea mais recente, Greatest Hits, foi  montada pelo Spotify em 2017 e contém trinta e cinco faixas muito bem selecionadas. Há muito o que ouvir de Morricone  também no YouTube, incluindo aí bandas sonoras raras. Quanto mais mergulho na obra de Ennio Morricone, mais espantado fico com a extraordinária imaginação musical deste homem único, que deve ser reconhecido como um dos mais importantes compositores do século vinte.



zeca azevedo é produtor cultural e colecionador de discos.
No Sul21

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.