31 de out de 2017

Em entrevista, Lula defende democratização da comunicação

Ex-presidente considera regulamentação da mídia tema fundamental para uma sociedade democrática


Nos últimos anos tem ficado cada vez mais evidente a importância da regulamentação dos meios de comunicação para a democracia de um país. Esse foi um dos assuntos abordados pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, em entrevista coletiva a meios alternativos e populares no caminho de Cordisburgo à Belo Horizonte, em 30 de outubro, durante sua caravana por Minas Gerais. “Quero garantir e fortalecer o direito de resposta, porque não é possível que as pessoas mintam descaradamente e contem inverdades que destroem a vida das pessoas”, afirmou.

Também ressaltou o papel da internet na sociedade e abordou assuntos como a relação entre pobreza e economia e o desmonte das conquistas sociais realizado pelo atual governo.

Regulamentação da mídia

“Em 2009, fiz uma grande conferência de comunicação. Nós obtivemos um resultado muito satisfatório e preparamos uma proposta de regulação. Entendíamos que não era correto apresentar uma proposta dessa ao Congresso no final de um governo, então deixamos para a companheira Dilma apresentar no começo do primeiro mandato dela. Não sei quais foram as razões, mas ela não apresentou. Certamente, porque alguém chegou no ouvido dela e disse ‘não, Dilma, o problema não é regular, mas conversar, falta diálogo’. Ela acreditou e continua apanhando. Hoje, eu acho que ela tem o mesmo arrependimento que eu tenho de não ter feito uma discussão para regular”.


Democratização da comunicação

“O que eu quero é democratizar. Quero garantir e fortalecer o direito de resposta, porque não é possível que as pessoas mintam descaradamente e contem inverdades que destroem a vida das pessoas. Certa vez disseram que um ministro de Minas e Energia do meu governo tinha pegado um envelope com 100 mil dólares. Eu o tirei do governo por conta da denúncia, e até hoje nunca foi chamado para depor”.

Financiamento midiático

“Nós demos um passo importante, sobretudo com a chegada do companheiro Franklin Martins na Secom (Secretaria de Comunicação), em criar a mídia técnica. Mas agora é preciso dar um pulo. O Estado precisa, também no meio da comunicação, garantir que recursos cheguem àqueles que não estão no Ibope. A internet precisa ter uma atenção maior do Estado brasileiro em se tratando de meio de comunicação. Não dá para menosprezar a internet porque eles (a grande imprensa) começam a criar os grandes meios de comunicação na internet. E, daqui a pouco, passam a ter dinheiro na televisão, no rádio e também na internet”.

Cobertura da mídia tradicional

“Já aprendi a me conformar com o comportamento da imprensa. Sinceramente, faço minhas caravanas sem me preocupar com a chamada ‘grande imprensa brasileira’. Não me incomodo e não estou preocupado com o que ela fala. Para mim, ela não existe. Eu não lembro de um período que a imprensa teve condescendência comigo”.


Crítica à televisão brasileira

“A televisão brasileira não traz nenhum minuto da atividade cultural de outros estados. Só São Paulo e Rio são mostrados no país inteiro. Então os meninos e meninas de Roraima, do Amapá e de Manaus têm que conviver, seja sábado ou domingo, com Luciano Huck e com Faustão. Não tem nada deles na televisão. Ou seja, a diversidade brasileira não aparece nos meios de comunicação do Brasil – e isso é gravíssimo”.

Desmonte das conquistas sociais

“Nós temos uma coisa grave no mundo porque o que está acontecendo no Brasil, pelo ponto de vista do desmonte de direitos dos trabalhadores, é algo mundial, sobretudo depois da crise de 2008. A gente constata que o sistema financeiro quebrado volta agora fortalecido. A informação é que gastaram mais de 14 trilhões de dólares para salvar essa crise e o problema ainda não está resolvido. E não tem banqueiro preso por conta da crise de 2008. E o sistema financeiro voltou mais forte e ganancioso. Então, no mundo todo, as conquistas sociais do pós-guerra começam a aparecer no discurso da direita como se fossem um prejuízo para o desenvolvimento de cada país. Quando, na minha opinião, a gente mede o desenvolvimento do país não é pela concentração de riqueza, é pela distribuição dela”.


Pobreza e economia

“O pobre não é o problema. Quando você coloca ele dentro da economia, este país dá um salto de qualidade – e é isso que eu acredito. Quando era presidente, costumava dizer para os meus meninos da economia cada vez que faziam apologia à macroeconomia: ela só dá certo porque há microeconomia funcionando lá embaixo, que faz o pobre trabalhar, comprar e consumir mais. Aí é um conjunto de políticas públicas. A pessoa não tem noção do significado do aumento do salário mínimo e do que vale uma aposentadoria numa cidade pequena no interior”.

Titularização de terras

“Nós agora temos que dizer em alto e bom som: se voltarmos ao governo, vamos fazer de forma muito agressiva uma política de titularização das terras, sobretudo nas grandes periferias do país. O cidadão que mora num barraquinho, quando recebe o título de sua propriedade, a primeira coisa que faz é comprar tijolo para fazer a casa dele. Isso é riqueza. É um patrimônio dele que está aumentando”.

Reforma trabalhista
“Nós vamos ter que fazer muito. Não é voltar a provar o que a gente perdeu agora, mas temos que aproveitar esse desmonte da legislação trabalhista para apresentar o que o movimento sindical quer. Não é ficar fazendo campanha contra, porque já perdeu. Então a CUT (Central Única dos Trabalhadores), que é a central mais importante que existe no Brasil, tem que apresentar uma proposta à sociedade brasileira”.


Combate às drogas

“A verdade é que a polícia, a repressão e a prisão não são soluções para enfrentar o problema das drogas. Eu quero chamar para uma conversa todas as instituições que têm políticas de bons resultados no enfrentamento da dependência química. Quero fazer um congresso com essa gente para definir como envolver a sociedade civil na construção de uma política pública capaz de dar ao dependente a garantia de que ele vai ser bem cuidado, e que pode deixar de ser um dependente químico”.

Referendo revogatório

“Estou falando de referendo revogatório porque se nós não tivermos autorização da sociedade, fica muito difícil mudar. É preciso ter um referendo que dê forças para mandar uma proposta para Congresso Nacional para mudar as coisas, inclusive, revogar decisões de privatização de empresas”.

Eleições da Venezuela

“Toda vez que alguém se manifestava contra a Venezuela, eu dizia que o problema de lá era excesso de democracia. E ainda hoje eu fico irritado quando vejo o presidente dos EUA dar palpite sobre a Venezuela. Ele que cuide dos EUA e deixe a Venezuela cuidar da Venezuela. Por isso que fiquei feliz com essa vitória do Maduro, porque eu acho que foi uma coisa importante. O governo Brasileiro atual não tem moral para falar sobre a Venezuela”.


Caravanas pelo Brasil

“Quando disputei as eleições em 1989, descobri que nenhum candidato para presidente conhece o Brasil. O cara conhece por literatura, por notícia de jornal ou numa campanha. A gente termina não tendo noção dos problemas, da cultura, das desigualdades e de como vivem as pessoas em cada região. Então, a partir de 1992, eu resolvi tomar a atitude de viajar o Brasil para conhecer um pouco de suas entranhas, sua alma, a mega diversidade cultural que nós temos”.

Retrocesso social

“Eu queria ver se os programas sociais estão parando, e tive a decepção de que muita coisa está paralisando e diminuindo. Então, o país volta a consagrar o empobrecimento. As pessoas tinham subido um degrauzinho, e quem está no poder acha que têm que descer um degrau. Toda vez que o Estado faz cortes, recaem em cima do povo pobre, porque recai em cima de quem precisa do Estado. Isso é o que eu mais fiquei preocupado nessa viagem”.

Patrícia Adriely
No Jornalistas Livres
Fotos Mídia Ninja

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