2 de out de 2017

Eduardo Cunha poupa Temer em entrevista, mas entrelinhas complicam Planalto

Ideia do peemedebista é formar aliança para negociar delação

Movimento é explícito: governo não poderá abraçar argumentos

Michel Temer –ainda vice-presidente– em encontro com o então presidente da Câmara Eduardo Cunha
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil - 10.mar.2015
Entrelinhas de uma Operação Tabajara

Há muitas entrelinhas na entrevista dada à revista Época pelo ex-deputado Eduardo Cunha, considerado por muitos (incluo-me nessa tribo) como uma criatura limítrofe entre a perversidade e a psicopatia.
  • bolsa-dicionário: psicopatia – distúrbio mental grave em que o enfermo apresenta comportamentos antissociais e amorais sem demonstração de arrependimento ou remorso, incapacidade para amar e se relacionar com outras pessoas com laços afetivos profundos, egocentrismo extremo e incapacidade de aprender com a experiência.
Ardil planejado com o objetivo de voltar a negociar com a Procuradoria Geral da República uma delação premiada capaz de lhe permitir sair da cadeia, onde deve mofar ao menos uma década antes de progredir para o regime semiaberto, os lamentos do cárcere proferidos por Cunha terão efeito contrário ao almejado.

Necessário revelar, uma vez mais, qual era o roteiro original imaginado pelo facínora, graças a Deus preso, responsável por iniciar o mergulho do Brasil na aventura do impeachment sem configuração jurídica legal:
  • Dilma Rousseff, incapaz de compreender a complexidade do cenário político em que estava imersa, sucumbiria à união dos escalões mais conservadores do espectro partidário com os esdrúxulos movimentos de ultradireita, a recalcada classe média emergente nacional e os setores mais atrasados do empresariado local. Mercadoria entregue.
  • Michel Temer ascenderia à presidência liderando uma equipe de governo amorfa, conservadora, na qual se sobressairia a ala dos economistas da Fazenda e ajustes pontuais – tentados mesmo por Joaquim Levy e por Nelson Barbosa, últimos ministros de Dilma, e inviabilizados dentro do Congresso – mudaria os ares no país. O clima, contudo, não seria de todo favorável a Temer, que seguia enfrentando a ação no TSE destinada a cassá-lo junto com Dilma por dissolução da chapa de 2014. No roteiro original, Cunha, então presidente da Câmara, tornar-se-ia presidente da República porque o TSE apearia Temer. A partir dali o céu era o limite. Entrega pela metade: A mediocridade do ministério é patente, sempre foi, e a dependência total do governo aos bons ventos soprados pelo Ministério da Fazenda não é segredo para ninguém. Mas o TSE descumpriu o papel sonhado por Eduardo Cunha – já àquela altura do espetáculo sendo obrigado a assistir ao teatro de operações da política desde o xilindró.
  • Cunha foi aconselhado a renunciar à presidência da Câmara desde a primeira semana de “governo Temer”, quando o impeachment ainda tramitava no Senado. O objetivo era fazê-lo presidir a própria sucessão e deixá-lo conservar o mandato de deputado, admitindo punição mais branda do Conselho de Ética. Apegado ao sonho de ser presidente da República com a cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE, ele resistiu a ouvir os conselhos de seu entourage. Foi morto pela cobiça, virou carta fora do jogo.
Quem ouviu o chamado das hostes de indignados seletivos, fantasiadas com a camisa amarela e com seus líderes enrolados na bandeira brasileira e saiu às ruas para pedir o impeachment podia até ser inocente útil – mas endossou o “Plano Cunha”. Em sua entrevista, o prócer do golpe parlamentar de 2016 evoca para si a autoria da deposição da presidente petista e ensaia a formulação de um conceito: “em política ninguém tira presidente; você põe presidente. (…) Você tirou a Dilma para pôr o Michel. Se você não tivesse um presidente para pôr, a Dilma não tinha caído”.

Na esteira desse trecho, um oceano passa nas entrelinhas:
  1. Michel Temer estava ativo na articulação, segredo de polichinelo. Mas ele deixa claro que há muito o que contar aí – e a história precisa ouvir o tanto que se precisa contar.
  2. Pactuou-se, e não tacitamente, mas sim explicitamente, com o empresariado nacional a deposição de uma chefe de poder eleita com 54 milhões de votos e ao arrepio da legitimidade institucional. Fabricou-se um impeachment.
  3. O erro que pode ser fatal para o propósito de Cunha: é nesse trecho que ele desdenha Rodrigo Maia, atual presidente da Câmara, liderança em ascensão no cenário. Maia já é, no momento, um interlocutor muito mais qualificado que o próprio Temer junto a investidores, empresários, executivos e ao trade econômico. O presidente da Câmara forjou uma aliança de governança com o presidente do Senado e com pelo menos 4 ministros do Supremo Tribunal Federal – Cármem Lúcia, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Luiz Edson Facchin. Foi Maia quem desenhou o plano para resgate imediato do Rio de Janeiro, estado que naufragou em meio às roubalheiras e ao controle do tráfico que aparelhou a máquina pública. Em resumo, Rodrigo Maia já se converteu naquilo que Cunha definiu como condição para a derrubada de um governo – o brilho iminente de outro em seu nascedouro.
Ao poupar Temer dos ataques seletivos que promoveu em seu ardiloso e meticuloso destampatório de teses milimetricamente pesadas à Época, Cunha imagina obter o empenho do Palácio do Planalto para sacramentar a aliança (e a delação) com o Ministério Público sob o comando de Raquel Dodge. Tiro n’água: o movimento foi tão despudoradamente explícito que Dodge está praticamente impossibilitada de tocar essas tratativas, arriscando-se a parecer conivente com o psicopata e ex-deputado. E o Planalto não pode se mexer, pois se ecoar e celebrar as palavras do aliado, chancelará a impressão corrente em Brasília de que Cunha virou a cereja do bolo de uma monumental Operação Tabajara promovida pela defesa do homem que começa a enfrentar, esta semana, a segunda denúncia por corrupção na Câmara dos Deputados. Entrevista boa, essa das entrelinhas.

Luís Costa Pinto
No Poder360

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