14 de out de 2017

Divulgados novos trechos da delação de Funaro à PGR






Funaro detona Temer e Cunha. E agora?

Em mais uma sinistro vazamento, a Folha teve acesso exclusivo ao vídeo com a “delação” de Lúcio Funaro, o homem da grana do PMDB. Pelo divulgado na sexta-feira (13), o depoimento é explosivo e deve gerar mais desgaste para o já odiado Michel Temer. O delator bota o dedo na ferida, ao tratar de um tema que apavora a quadrilha que assaltou o poder: a atuação lobista no Porto de Santos, antigo “reduto” do usurpador. Segundo o jornal, “o operador Lúcio Funaro disse em sua delação premiada que soube que o presidente Michel Temer pediu ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para defender interesses de empresas portuárias durante a tramitação da MP (Medida Provisória) dos Portos, em 2013”.

No depoimento à Procuradoria-Geral da República (PGR) em 23 de agosto, que foi registrado em vídeo, “o delator mencionou supostas relações com três empresas que operam no porto de Santos, no litoral paulista: a Rodrimar, o grupo Libra e a Santos Brasil, além da Eldorado Celulose, que pertencia ao grupo J&F, controlador da JBS, e tinha interesse em atuar em uma área própria em Santos. ‘Essa MP foi feita para reforma do setor portuário e ela ia trazer um grande prejuízo para o grupo Libra, que é um grupo aliado de Cunha e, por consequência, de Michel Temer, porque é um dos grandes doadores das campanhas de Michel Temer’, disse Funaro no depoimento”.

Lúcio Funaro deu ainda mais detalhes sobre a ação lobista: “Pela definição dessa MP, o grupo Libra não ia poder renovar mais as suas concessões portuárias. Por quê? Porque tinha vários débitos fiscais inscritos em dívida ativa. O que o Eduardo Cunha fez? Pôs dentro dessa MP uma cláusula que empresas que possuíam dívida ativa inscrita poderiam renovar seus contratos no setor portuário desde que ajuizassem arbitragem para discutir o débito tributário... Tanto a Eldorado como a Rodrimar tinham interesses, e o Eduardo narrou que, na época, o Michel pediu a ele 'Oh, tem que fazer isso, tem que fazer isso, cuidar disso' para que o negócio não saísse do controle”.

Ao ser questionado pela PGR se a aprovação da medida provisória resultou em vantagens para a quadrilha de Michel Temer, o delator respondeu: “Por doação política, tenho certeza. Oficial. Por comissão, que seria uma propina disfarçada de doação oficial, e outros tipos de recebimento, não tenho conhecimento”. Sem papas na língua e procurando reduzir sua pena, Lúcio Funaro ainda deixou explícito dos “interesses” do ex-presidente do PMDB. “Todo mundo sabe em São Paulo, quem convive no mundo político, que o porto de Santos é área de influência de Michel Temer".

Várias das empresas que operam no maior porto do país são suspeitas de irregularidades. “A Rodrimar é alvo de um inquérito aberto recentemente no Supremo Tribunal Federal para investigar suposto favorecimento à empresa na edição do decreto dos portos, assinado por Temer em maio deste ano. O grupo Libra, que opera contêineres no porto, foi especialmente beneficiado pela MP de 2013 que incluiu na legislação a possibilidade de arbitragem de dívidas que empresas portuárias tinham com a União. A arbitragem possibilitou que a Libra estendesse seu prazo de atuação no porto de Santos. Como revelou a Folha, o escritório escolhido pela administração do porto para fazer a arbitragem era de um advogado próximo de políticos do PMDB”.

“Banco de corrupção de políticos”

A delação não atinge apenas Michel Temer, o chefe da máfia. Ela respinga em vários outros integrantes do “quadrilhão”. Lúcio Funaro fala da existência de “diversos” operadores do usurpador – entre eles, Eduardo Cunha, o advogado José Yunes, amigo e ex-assessor especial do Judas, e o ex-ministro Wagner Rossi. Ao mencionar os três nomes, o delator garante que eles eram intermediários de Michel Temer. “Em relação ao Cunha, tenho 110% de certeza; do Wagner Rossi eu também tenho certeza”. Ele também aponta como “operadores” o coronel João Baptista Lima Filho, aposentado da Polícia Militar paulista, e o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, que ficou conhecido como “deputado da mala”.

Lúcio Funaro explica que Michel Temer usava operadores distintos para atuações em esferas diferentes. “Ele não concentrava nada com uma pessoa só... Ele não deixava nada operacionalizado a uma pessoa só. Você vê, por exemplo, que para receber dinheiro ele tinha o José Yunes, e esse eu tenho certeza, depois vim a saber do coronel Lima... O Yunes, além de administrar, investia a propina porque ele era dono de empreiteira, de uma incorporadora em São Paulo”. Ao descrever como funcionava o repasse de propinas na Caixa Econômica Federal, ele também cita o ex-ministro Geddel Vieira, que ficava com 60% a 65% do valor de cada operação. “O resto [40% a 35%] eu e o Cunha meiávamos no meio [sic]”, relatou no maior cinismo

Na sua avaliação, porém, o maior responsável pelas mutretas da quadrilha era o ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, o homem que deu a largada ao processo criminoso do impeachment de Dilma Rousseff. “Eduardo funcionava como se fosse um banco de corrupção de políticos, ou seja, todo mundo que precisava de recursos pedia para ele, e ele cedia. Em troca mandava no mandato do cara... Não precisava nem ir atrás de ninguém, fazia fila de gente atrás dele”. Diante de tanta sujeira, o que ocorrerá agora? Será que os deputados que “faziam fila” no banco de corrupção vão analisar com isenção a segunda denúncia da PGR contra o usurpador Michel Temer? Alguma dúvida sobre o desfecho desta história?

Altamiro Borges

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