15 de out de 2017

Carta ao General Mourão


Prezado General,

             Condenado pelo imperador a suicidar-se, Petronius escreveu-lhe um bilhete dizendo que dele havia perdoado tudo, até os crimes, menos o de ter sido obrigado a ouvir e fingir aplaudir seus poemas medíocres e maçantes. Digo algo similar sobre sua palestra no Instituto Rio Branco. Concordo com muitas coisas que disse, inclusive na sua ênfase na crítica a instituições republicanas moribundas, mas não me venha ditar regras em economia. Meu caro general, sendo economista político há mais de 40 anos, nunca me meti em estratégia militar. Respeitemo-nos, portanto.

              Vou começar por nossa discordância fundamental no campo econômico, para depois destacar alguns pontos em que, de certa forma, concordamos. Ao contrário do que o senhor pensa, o Estado não é uma dona de casa. O Estado, ao contrário da dona de casa, não só pode mas deve gastar mais do que arrecada, sobretudo em situações de depressão. A propósito: a dona de casa também faz isso quando compra a crédito. Portando, o senhor seguiu uma analogia vulgar disseminada pelos neoliberais que querem o equilíbrio de contas do Estado exclusivamente para pagar juros extorsivos, como é o nosso caso.

               Permita-me explicar melhor. A economia em depressão – a nossa, pelo terceiro ano seguido - se caracteriza pela queda do consumo, do investimento, do gasto público. Essa economia não pode retomar o crescimento do investimento se não houver aumento de consumo, pois nenhum idiota vai investir porque confia no Meirelles e sua sabedoria de caixa de banco. O consumo, por sua vez, não pode crescer pois salários e empregos estão também caindo. Da mesma forma que não podemos levantar nosso corpo puxando-o pelos cabelos, é necessário que alguma forma externa impulsione o consumo.

            É importante notar que o primeiro movimento  é na direção do aumento do consumo já que só existirá investimento se houver demanda. Ninguém é idiota de investir sem perspectiva de consumo. Por outro lado, a única entidade capaz de aumentar os gastos de consumo e de investimento sem se preocupar previamente com demanda é o Estado. A isso Keynes, que os neoliberais tanto  detestam por causa de sua preocupação obsessiva com o emprego, chamava de gasto autônomo. Para ser rigoroso, o aumento do superávit externo também ajuda a retomada, mas ele não chega a ser relevante na economia brasileira.

                Dito isso, general, gostaria que levasse em conta essas reflexões tendo em vista o imperativo para o Brasil de que um líder nascente como o senhor não se deixe levar pela propaganda neoliberal contracionista – esse neoliberalismo que está por trás das críticas procedentes que o senhor faz à financeirização da economia, embora sem racionalizá-las. O fato é que não haverá retomada da economia, hoje ou nunca, sem o aumento do gasto deficitário segundo a fórmula inventada por Keynes e por Schacht há mais de 80 anos.

              Notei em seus discurso que tem certa preferência por Palocci, atribuindo-lhe os êxitos do primeiro mandato de Lula. Eis aí, caro General, outro ponto em que estamos em frontal desacordo. Palocci, como todo ignorante em economia, comprou todas as teses do neoliberalismo e nos submeteu a elas. A sorte da economia em seu tempo foram as importações de commodities da China. Já o grande sucessor foi em 2010, quando, graças a uma política deficitária comandada pelo BNDES, a economia agüentou o tranco das conseqüências da crise internacional de 2008 e cresceu nada menos que 7,5%, sem Palocci!

               A propósito: não se preocupe com inflação num primeiro momento da virada do desenvolvimento. Nos estágios iniciais da retomada a demanda está baixa e não pressionará os preços. Só devemos nos preocupar com a inflação, e para evitá-la, aí sim, será preciso equilibrar os gastos públicos, quando a economia voltar a crescer em ritmo acelerado.

                Uma observação final. O senhor critica as mega-corporações internacionais como concentradoras de renda e inclui nelas nossas construtoras envolvidas na Lava Jato. Desculpe-me, general, mas nossas construtoras feridas de morte pelo juiz de Curitiba não foram meros instrumentos de financeirização, mas geraram centenas de milhares de empregos, criaram tecnologia, distribuíram renda. Na minha opinião, um dos maiores crimes cometidos contra  nossa economia foi não separar empresário corrupto de empresa, como aliás fazem todos os países desenvolvidos, notadamente os Estados Unidos.

               Na realidade, general, não fossem as nossas grandes construtores e seu poder de criação e de absorção de tecnologia, como ousaríamos fazer submarino nuclear, mísseis para o Exército com tecnologia independente, absorção de tecnologia dos caças suecos? O senhor acha possível fazer isso com pequenas e médias empresas? Não duvido que o juiz Moro ache, mas o senhor é um general de Exército que, em sua área, certamente conhece tecnologia como um dos instrumentos fundamentais da estratégia nacional, e a grande empresa como produtora por excelência de tecnologia.

José Carlos de Assis

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.