1 de out de 2017

Barcelona e Messi viram as costas para o povo da Catalunha (+ vídeos)


Este domingo em que o Barcelona derrotou o Las Palmas por 3 a 0 num Camp Nou deserto passará para a história como o dia em que o clube que se autoproclama “mais que um clube” colocou o interesse esportivo acima do sentimento de seus milhões de torcedores. Mesmo com a Catalunha golpeada pela brutal repressão que deixou centenas de feridos entre as pessoas que tentavam exercer o direito democrático de votar no referendo que decidia se a região se tornaria independente da Espanha (e que foi considerado “ilegal” pelo governo em Madri), o time entrou em campo e jogou como se nada de grave estivesse acontecendo do lado de fora.

“Jogamos com portas fechadas como forma de protesto, para chamar a atenção do mundo para o que está acontecendo hoje na Catalunha”, disse o presidente Josep Bartomeu, que completou: “Não entrar em campo nos custaria seis pontos de penalização, os três da partida e mais três de punição.” O volante Sergio Busquets, catalão de nascimento como outros quatro jogadores do elenco (Sergi Roberto, Piqué, Jordi Alba e Aleix Vidal), também se apegou ao prejuízo esportivo que o time teria se não tivesse jogado para justificar a realização da partida. “Teríamos perdido seis pontos, é muita coisa.” Com sete vitórias em sete jogos, o Barça tem cinco pontos de vantagem sobre o vice-líder Sevilla e seis em relação ao Atlético de Madrid.

A decisão de jogar, e ainda por cima com o estádio vazio, foi muito criticada por dirigentes e sócios do clube, e também por oposicionistas a Bartomeu como o ex-presidente Joan Laporta. “Jogar com portões fechados é ser cúmplice dos que praticam a violência indiscriminada e impedem o exercício pacífico dos direitos democráticos”, escreveu numa rede social. Outro ex-dirigente, Xavier Sala i Martin, foi mais duro: “Bartu (referindo-se a Bartomeu): não queremos seis pontos que estão manchados pelo sangue de velhos e jovens que mostraram a coragem que você não tem!”

Quando começaram os conflitos na cidade, com a Guarda Civil e a Polícia Nacional agredindo pessoas que iam votar e fechando locais de votação, a Federação Catalã de Futebol determinou a suspensão de todas as partidas na região. O Barça, então, solicitou à Liga Profissional de Clubes o adiamento do confronto com o Las Palmas. Mas a LFP, presidida por Javier Tebas, um confesso defensor de ideias de ultradireita, rechaçou o pedido alegando que tinha a garantida das forças de segurança de que havia condições para a realização do jogo.

Aqui cabe uma explicação sobre a constante tensão no relacionamento entre as duas partes: Tebas vive dizendo que o Barcelona será excluído do Campeonato Espanhol se a Catalunha se declarar independente. Os dirigentes do clube argumentam que isso não faz sentido, e citam dois exemplos para embasar sua opinião: um time de Andorra disputa o Campeonato Espanhol da Primeira Divisão, a Liga ACB, e o Monaco, que está sediado num Principado independente, participa do Campeonato Francês e representa a França nas competições europeias.

A Junta Diretiva do Barcelona não engoliu a decisão, e o clube então resolveu unilateralmente que não haveria jogo – ainda mais que o Las Palmas, que fica sediado nas Ilhas Canárias, divulgou um comunicado apoiando a unidade da Espanha e anunciou que a bandeira do país seria bordada na camisa dos jogadores.

A coisa pegou quando o caso chegou ao vestiário. Alguns jogadores, com Piqué como líder, não queriam jogar. Outros eram favoráveis a disputar a partida, posição que acabou prevalecendo.

Foi então que Bartomeu anunciou que o jogo seria com portões fechados, o que foi visto por seus críticos como uma medida para impedir manifestações políticas dentro do estádio (torcidas organizadas exigiam a suspensão da partida e ameaçavam invadir pacificamente o campo para impedir que o jogo fosse realizado). Ato contínuo, o vice-presidente Carles Villarubí e o diretor Jordi Manés se demitiram por discordar da decisão de o time entrar em campo.

As lágrimas de Piqué. E Messi, um ET na Catalunha

O zagueiro Piqué não se escondeu nem antes do referendo no dia da votação. Defensor da independência da Catalunha, ele foi votar logo cedo, divulgou nas redes sociais a imagem do momento em que votava e criticou a violência usada para intimidar quem queria votar. “O que está acontecendo é uma vergonha, as imagens dizem tudo.”

Depois de jogo, ele não conseguiu segurar as lágrimas quando falava com os jornalistas. “Jogar hoje foi uma das experiências mais duras da minha vida. Se eu queria jogar? Minha opinião importa pouco, o Barcelona decidiu jogar e pronto. Posso entender perfeitamente que sócios do clube não aceitem que tenhamos jogado, mas não acho que o slogan ‘mais que um clube’ cairá por causa disso.”

Em seguida, falou sobre a violência policial e o que sentia. “A Espanha ficou muitos anos sem poder votar durante o Franquismo, e as pessoas precisam entender que quando se vota é possível votar ‘sim’, ‘não’ ou ‘em branco’. Tenho muito orgulho do povo da Catalunha, que se comportou sempre de maneira pacífica ao longo deste processo.”

Piqué não teve força para convencer a equipe a não jogar. Messi certamente teria, por ser o dono do time e uma estrela mundial. Mas o craque argentino, que vive em Barcelona desde que tinha 13 anos (fez 30 em junho), se omitiu e foi para o campo comemorar mais dois golzinhos.

Messi parece não conhecer a cidade onde já passou mais da metade da sua vida, tampouco entender o sentimento das pessoas que moram lá. Um outro exemplo recente: no dia 11 de setembro, o dia nacional da Catalunha, enquanto as ruas ferviam sob os pés de quase dois milhões de pessoas que marchavam em defesa da independência, ele subia no Instagram fotos da festinha de aniversário de seu filho.

Símbolos do clube que jogaram com ele, como Puyol e Xavi, estiveram alinhados com Piqué e criticaram o ataque violento ao direito de votar perpetrado nas ruas de Barcelona. Xavi, inclusive, fez fotos das agressões e gravou um vídeo para divulgar sua opinião. “É inadmissível que, nos dias de hoje, num país democrático as pessoas não possam exercer o direito de votar”, disse.

Assim como neste domingo o Barcelona não honrou seu slogan “mais que um clube”, Messi perdeu a chance de fazer um golaço muito mais importante do que os dois que celebrou em um estádio às moscas.

No Chuteira FC











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