30 de out de 2017

'Adevolve!'

Um arqueólogo do futuro, abrindo uma dessas caixas em que se pôs documentos, jornais, objetos e curiosidades da nossa época, terá uma reação que nos elogia (“Bons tempos aqueles”) ou uma que nos condena (“Tempos bárbaros, aqueles”). Ele ou nos invejará ou nos desprezará.

Alguns itens da caixa por certo o deixarão perplexos. Jornal, por exemplo. O que é isso?, dirá ele. E dará boas risadas com os telefones celulares, resquícios de uma época em que as pessoas ainda não tinham transmissores e receptores implantados atrás do ouvido ao nascer.

E o Brasil? O que ele pensará do Brasil? Que interpretação do Brasil se deveria incluir na caixa para ele entender o que ocorria no País naquele longínquo começo do século 21? Minha contribuição começaria com um episódio real, que aconteceu comigo. Nada demais, uma pequena cena do cotidiano que só serviu como mote para uma crônica que escrevi, e que era assim...

Eu caminhava por uma calçada e veio uma bola na minha direção. A bola tinha escapado do controle de um garoto que, de longe, gritou: “Devolve!”.

Não era um pedido, era uma ordem. A mãe do garoto ouviu e perguntou se aquilo era jeito de falar com alguém. O garoto então se corrigiu. Gritou “Adevolve!” Por alguma razão, achou que colocando um “a” no início da palavra o pedido ficava mais educado. Na crônica eu dizia que, de certa maneira, a sociedade brasileira estava fazendo o contrário do garoto.

Todas as manifestações de inconformidade com a crise social brasileira tinham sido educados pedidos para que a minoria que nos domina adevolvesse o País à sua maioria excluída. E que não dava para imaginar como seria quando acabasse a boa educação, quando uma sociedade desesperada exigisse o fim da incompetência criminosa que lhe sonega saúde, segurança, educação e emprego há anos, para dar lucro a bancos e rentistas, garantia a especuladores e boa-vida a poucos. Quando “devolvam!” virasse um grito de guerra.

O Brasil sempre foi de uma minoria autoperpetuada no poder, mas nunca, no passado, a maioria teve como agora uma noção tão nítida do seu banimento interno, do seu exílio sem sair do lugar. O neoliberalismo triunfante, além da revolução semântica que transformou insensibilidade social em virtude empresarial, tinha trazido uma espécie de redenção histórica para o nosso patriciado, que, afinal, só abolira a escravatura para imitar os outros, sem muita convicção. Com cada avanço da nossa elite na direção do passado, aumenta a distância entre minoria e maioria. O que eu poderia dizer ao arqueólogo do futuro é que talvez estejamos vivendo no Brasil os últimos anos de paciência. Embora ninguém pareça ter o menor temor de que o que não adevolverem por bem terão que devolver por mal.

Luís Fernando Veríssimo

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