8 de out de 2017

A morte do reitor

A morte do reitor revela o que é a imprensa no Brasil: o porrete das autoridades irresponsáveis

Eles no papel deles
O pai da moderna ciência social, Max Weber, escreveu, nos primórdios da complexa civilização urbana (entre 1900 e 1920), que o mundo é como uma arena em que os deuses lutam, o tempo todo.

Ora um vence, ora outro.

Quem decide a contenda é a sociedade, optando por um ou outro deus e sua respectiva esfera de valor.

Nesse sentido, não tem o certo e o errado.

Cada um tem, em si, uma lógica que precisa ser compreendida.

Essa é a desgraça que o Brasil enfrenta hoje: a falta de integridade.

Digo isso a respeito do jornalismo, a minha esfera de valor.

A ombudsman da Folha critica a cobertura do jornal a respeito da investigação na Universidade Federal de Santa Catarina, que produziu uma tragédia: o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

Elio Gaspari vai pelo mesmo assunto e Marcos Losekann, repórter da Globo, tenta um caminho parecido no Conjur, sem ser específico.

A verdade é que a vontade de punir é o que move uma delegada de polícia louca para aparecer ou um procurador que se acha dotado de uma missão superior.

Acusar, buscar a punição, escrachar, tudo isso é o trabalho deles.

É a natureza do que fazem. Nesse sentido, são íntegros.

Falta integridade a juízes, Sergio Moro à frente, que desprezam o compromisso profissional com a magistratura para se comportar como parte.

Falta, sobretudo, integridade à imprensa, que perdeu muito de seu sentido de narradora independente da história para se tornar serviçal de autoridades doentes para ficar sob holofotes, na condição de estrelas.

Quem leu a história do The New York Times, o Reino e o Poder, de Gay Talese, sabe que os jornais mantinham, no centro de Manhattan, apartamentos alugados em frente ao quartel-general do Departamento de Polícia.

Uma das atividades dos jornalistas era ficar olhando pela janela para ver se havia alguma atividade digna de ser noticiada.

E por que faziam isso?

Era a época em que os jornais trabalham com setoristas, mas também era uma forma de não depender das versões oficiais da polícia e para verificar quem entrava e saía da central e, em seguida, ouvir os personagens.

Alugar o apartamento, permanecer fora das dependências policiais, era um ato que significava independência.

Hoje não é assim.

Os profissionais permanecem em grupos de WhatsApp à espera de que o assessor de imprensa divulgue algo liberado pela autoridade.

Os mais experientes têm contato direto com a autoridade e vivem de vazamentos. No Brasil, hoje, não existe nenhuma independência jornalística.

É subserviência na veia.

A esse respeito, interessante destacar uma passagem narrada por Fernando Henrique Cardoso em suas memórias da presidência — Fernando Henrique que é um marco na transformação da imprensa. Escreveu ele:

“Estive com Roberto Irineu Marinho, que fez um stop aqui na volta dos Estados Unidos para me explicar que eles não têm nada contra mim ou contra o governo, que estão de acordo, (o que houve) foi um erro da Globo, isso tudo em função da reclamação que o Sérgio Motta fez a ele. Eu disse que entendia que não tinham nada contra, mas que haviam ido além dos limites, tinham inventado (a história de Jequié). Ele se desculpou e disse que eles não são como a Abril, onde o Civita diz que não manda, que quem manda é a redação. No caso da Globo, disse que eles mandam, e que essa não era a orientação, que foi um acidente de percurso.”

Uma sinceridade que merece elogio e que revela muito do é a imprensa.

Fernando Henrique estava irritado porque o Jornal Nacional havia destacado uma manifestação em Jequié (não houve invenção).

Sérgio Motta, ministro das comunicações, senhor das concessões de TV e das privatizações da telefonia, das quais a Globo participou, reclamou, e Roberto Irineu foi até lá para defender seus interesses.

Eis aí a chave para entender a indigência jornalística, que Losekann, na sua inocência, vaidade ou malícia, não observa no artigo do Conjur: notícia deixou de ser a matéria-prima das grandes organizações de mídia.

É meio, não é fim.

Como ter a notícia como fim se, numa narração independente da história, teria que ser contado, necessariamente, o envolvimento da família Marinho com a sonegação de impostos e o envolvimento nos escândalos de lavagem internacional de dinheiro, o Panamá Papers?

Corrupção que é notícia só a dos outros, e isso é dado em altas doses, em cores sensacionalistas.

Os delegados e procuradores entenderam a regra e fazem o jogo.

Em vez de provas, frases marcantes contra inimigos comuns (da imprensa e da investigação), como a jovem procuradora que mandou para a cadeia o homem que liderou o movimento para trazer ao Brasil as Olimpíadas, com a quais a Globo ganhou muito dinheiro.

— Enquanto os medalhistas olímpicos buscam a sua tão sonhada medalha de ouro, dirigentes do Comitê Olímpico guardavam o seu ouro na Suíça — disse Fabiana Schneider.

Alvo certeiro. Globo na veia. Horário nobre. E as provas?

Antônio Palocci, em sua carta e no seu depoimento, conhece o meio.

Garante manchetes com expressões como “PT é uma seita”, “Lula e Emílio fizeram pacto de sangue”. Horário nobre garantido. Mas… cadê as provas?

Cada um está no seu papel.

Palocci quer se livrar da cadeia, a procuradora quer colocar seus alvos na cadeia e ser reconhecida por isso, tornar-se uma celebridade.

Mas onde está a imprensa para fazer a narrativa independente, que sobreviva aos interesses parciais? Onde está a imprensa que deveria cobrar das autoridades ou fontes provas das graves acusações que fazem?

Voltando ao The New York Times, no seu tempo glorioso. O publisher Adolf Ochs realizou um concurso para escolher um novo slogan para o jornal. Ele queria trocar a frase “Todas as notícias dignas de publicar” por outra.

A frase vencedora foi  “Todas as notícias do mundo, mas não uma escola de escândalos”.

O jornal pagou 100 dólares ao autor, mas Ochs continuou com o slogan original.

A imprensa não precisa mais do que notícias dignas para tocar seu negócio.

Mas, quando a notícia deixou de ser o negócio, o melhor a fazer é abrir uma “escola de escândalos”.

Joaquim de Carvalho



A morte de um e a responsabilidade de todos: o caso do reitor Cancellier


Estamos diante de um fato de enorme grandeza, seja pela sua dimensão de tragédia pessoal, seja pelas reverberações institucionais envolvendo diversos órgãos, aparatos e normatividades estatais e seus operadores, seja pelo impacto na opinião pública, seja pelos seus desdobramentos políticos nesta conjuntura crítica do país, seja finalmente pela sua inserção na atmosfera sufocante, prenhe de disparates, aleivosias, radicalismos e diversas manifestações de irracionalidades raivosas e toscas que se abatem sobre tudo e sobre todos.

É pois uma tarefa para espíritos desarmados, pouco encontráveis nestes dias, e para mentes com certo preparo intelectual e honestidade de caráter buscar – neste cipoal de interesses cruzados, opiniões aleatórias, percepções distorcidas e justiceiros de araque, repor os termos deste infausto acontecimento nos trilhos de sóbria investigação criminal e jornalística, enquadrando-o num quadro de referência maior, no qual se rastreiem eventuais malfeitos atribuídos aos indiciados da UFSC, entre eles o Reitor, assegurando que procedimentos para tanto se deem não apenas pela adequada aderência à legislação e normas pertinentes, mas que se respeite no curso destes processos uma norma pétrea civilizatória: a dignidade humana dos envolvidos.

Tal invocação à dignidade pessoal e aos adequados procedimentos, lamentável e tragicamente, de nada servem agora para o Reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

Neste quadro mais abrangente de implicações, são muitas as instâncias, atos, decisões e personagens que precisam ser questionados. A começar pela desenvoltura de órgãos policiais e judiciários que, em vez de garantir direitos e fazer valer a lei justa, afrontaram aqueles e deformaram esta, em muitos de seus procedimentos e decisões.

O conluio espúrio destes aparelhos de estado com uma mídia venal, tendenciosa e irresponsável inclui-se nesta orgia de manipulações e incitamentos que levaram as massas disponíveis, em sua ignorância política-histórica ou disposições francamente fascistizantes, às ruas e aos meios digitais eletrônicos onde puderam dar vazão à sentimentos primitivos ou a exposição de ideias e posições políticas que não cabem num Estado republicano moderno, num regime democrático ou numa sociedade razoavelmente civilizada.

Aqui cabe também, e com a devida ênfase, menção ao golpe de Estado, disfarçado em suas distorcidas máscaras de aparente legalidade, que quebrou o pacto democrático que institui a soberania popular ao promover a farsa de um impeachment, forjado por derrotados nas urnas de 2014, por oportunistas da hora e por uma assembleia de picaretas que conspurca a representação eleitoral da cidadania. A partir daí abriu-se a Caixa de Pandora, liberando todas afrontas, distorções e oportunismos que impregnam o ambiente político, desestabilizando instituições, aviltando as práticas governamentais e empestando a atmosfera onde se movem confusamente cidadãos desesperançados.

Não basta, pois, repor as coisas em seus devidos termos para apenas dar curso formal às investigações deflagradas pela Polícia Federal e sancionada por juízes(as) e procuradores. A questão hoje extrapolou de seu enquadramento policial e jurídico original, nos convocando, a cidadania toda, para, voltando à Pandora, resgatar a única coisa que restou no fundo de sua caixa: a esperança.

Esta esperança não está, no entanto, ali no fundo da caixa disponível e ao alcance da mão. Ela só poderá ser recuperada pelo ativo e destemido uso coletivo de mãos agregadas, reunidas em torno de um propósito unificante, qual seja a reinstituição de um pacto político que recoloque a soberania popular no comando dos destinos do país.

Este é o pressuposto para assegurarmos práticas de gestão eficazes e transparentes, controles e mecanismos de fiscalização que impeçam desvios de condutas ou de valores monetários, e que havendo necessidade de inquéritos e investigações de agentes públicos, que estes se façam sob a égide da lei e não de seu abuso.

Uma luta política nesta direção pode ser uma das formas de honrar a memória do Reitor Cancellier, e de outros tantos, que se não mergulharam no trágico abismo do oblivion, também tem sido afrontados em seus direitos e dignidade.

Basta!

Basta de arbítrio impune, mas também basta de torpor pessoal e impotência política.

Resistência e luta.

Remy J. Fontana, professor aposentado do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC
No DCM

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