29 de out de 2017

A China

Férias ideais são as que nos permitem esquecer o mundo e nos concentrarmos no cumprimento da mais pura alienação, às margens da catatonia.

Consegui esquecer o Brasil e tirar férias das suas amarguras, mas esquecer o mundo foi impossível.

Há uma clara tendência para a direita no mundo todo, o fascismo ergue de novo a sua cabeça raspada e basta você passar por um estande de jornal, mesmo fazendo o possível para não ler as manchetes, para se dar conta de um mundo em agonia.

E como se não bastasse a ameaça da direita rediviva, há a ameaça do outro extremo, do estranho comunismo de mercado da China.

Quem não está admirado com o milagre da China está apavorado.

Não dá para pensar na China sem se entusiasmar ou se assustar. É impossível pensar na China e continuar despreocupado, mesmo em férias.

Dentro de muito pouco tempo, vai acontecer o seguinte: a China vai tornar o resto do mundo supérfluo. Não vai ser preciso existir mais ninguém, de tanto que vai existir a China.

O nosso destino é, enquanto a China cresce, irmos ficando cada vez mais desnecessários. Em, o quê? Vinte anos?

A China terá o maior parque industrial, com a mão de obra mais abundante e, portanto, mais barata, da Terra, e produzirá de tudo para o maior mercado consumidor da Terra, que será qual?

O dos chineses, mesmo ganhando pouco.

A China concentrará toda a atividade econômica do planeta entre as suas fronteiras. A China se bastará.

Antes de se tornar definitivamente autocapaz, a China terá que garantir as fontes da sua energia. O seu inevitável choque com aquele outro sorvedouro de combustível fóssil, os Estados Unidos, pelas últimas reservas de petróleo do mundo pode literalmente nos arrasar.

Sugestão para a reflexão antes de dormir esta noite, se você conseguir dormir: o petróleo escasseando, dois monstros sedentos cuja sobrevivência depende do petróleo se enfrentando — e nós no meio. Ganhará o confronto final, nuclear ou não, quem tiver mais gente. A China tem muito mais gente do que os Estados Unidos.

Enquanto isto, a Índia... Mas chega. Reanime-se. A vida ainda é vivível, há borboletas, pudins de laranja, música boa e mulheres bonitas.

Eu, na verdade, não tenho com o que me preocupar mesmo. Estou a caminho da fase pré-fóssil e não estarei aqui quando tudo isto acontecer. Mas só queria avisar.

Luís Fernando Veríssimo

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