22 de set de 2017

Uma análise de Renato Janine Ribeiro


Uma análise bem fria do que seria uma intervençao militar.

Vou fazer uma análise seca e fria sobre as declarações do general Mourão defendendo a intervenção militar. Só um disclaimer no começo: é absurdo chegarmos a um oficial general pregando a violação da Constituição e não sendo punido.

Agora, a análise.

O general está revoltado com a impunidade dos acusados de corrupção (corrupção, notem, e não subversão). Um ano e meio atrás, ele era contra Dilma, e por isso foi punido pelo comandante do Exército. Hoje, a impunidade que mais deve revoltá-lo é a da equipe próxima do presidente Temer, no PMDB. O comandante Villas Boas não o puniu desta vez.

O que ele exige e ameaça fazer é punir os políticos mencionados na mídia e não julgados/ou/condenados. Certamente sua lista incluir todos os ex-presidentes vivos, menos FHC, mas também o presidente atual e seus ministros.

Ou seja, ele ameaça claramente um golpe contra Temer. E o governo não o pune. Há sinal maior da fraqueza do governo?

Talvez ele tenha mesmo o apoio do Alto Comando, para Temer e Jungmann não reagirem a sua flagrante insubordinação. Mas o que fará o general, se as instâncias constitucionais (basicamente, o Judiciário) não punirem depressa?

Uma intervenção militar significaria o afastamento desses políticos, repito, acusados na mídia mas não condenados. Isso incluiria lideranças do PT, sim, mas hoje o foco está sobretudo no PMDB graúdo e em alguns nomes do PSDB, em especial o senador Aécio. O mínimo que um golpe faria seria prendê-los e cassá-los. Possivelmente, iria mais longe: puniria os deputados que votaram (ou votarão) contra a segunda denúncia de Janot contra Temer. Na prática, isso é fechar o Congresso.

O primeiro ponto é, portanto: o governo está fraquíssimo. Nem consegue punir quem quer, apenas! (contém ironia), prender o governo.

O segundo é: a ilusão da intervenção cirúrgica. Em 1964, muitos golpistas pensavam que bastaria afastar os subversivos (e corruptos, só que contra esses quase nada se fez) e teriam seu País de volta. Não funcionou. Dois meses depois do golpe e após a cassação da esquerda toda, cassaram Juscelino. Lacerda, o feliz beneficiário disso tudo, também acabou cassado. E a ditadura durou 21 anos.

Em 2016, voltou a ilusão da cirurgia. Era só tirar Dilma que teríamos, ainda mais com um dream team da economia, a retomada rápida do crescimento. Faz ano e meio, quase, que ela saiu e não se viu essa salvação.

O mesmo pode acontecer se vier a cirurgia anticorrupção. Muita gente vibrará com o afastamento, de uma penada, de centenas de políticos. Muitos seriam punidos sem provas. Mas a sensação popular será mais favorável do que indignada.

Só que... Em 1985, o regime de exceção caiu porque os militares não tinham mais nenhuma ideia de como lidar com a economia. Deixaram o abacaxi, que eles tinham nutrido, para os civis – que o acabaram descascando. Hoje, quando a economia é bem mais complexa, não comportando soluções fáceis, o que eles fariam?

É o terceiro ponto. Os militares dos anos 60 odiavam a esquerda, na qual viam o olho de Moscou. Bem, a União Soviética acabou. E o dream team do empresariado quer globalizar e privatizar. Militares são nacionalistas. Vão querer privatizar estatais a rodo, quando o déficit de um mês – julho de 2017 – é maior do que o governo quer ganhar vendendo a Eletrobras inteira?

Resumindo a ópera. Uma intervenção militar não salva o Brasil. Nossa situação é complicada demais para soluções simples funcionarem. Mas quis pelo menos analisar o cenário do que ela seria. E as declarações do general são um sintoma poderoso: depois que o Executivo se esvaziou, e aí o Legislativo, está chegando a vez do terceiro poder e também do MP. O que resta como ator institucional???

Renato Janine Ribeiro

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