25 de set de 2017

Todos os rapazes do presidente

Ainda soltos
A última flechada de Rodrigo Janot não comoveu ninguém. Depois da ameaça de borrasca, o teor da segunda e última denúncia do procurador da República contra Temer passou em brancas nuvens. O noticiário privilegiou questões miúdas, pondo de lado o fulcro da peça. O debate público acabou dominado por suspeitas sobre a atuação da equipe de Janot. Os papéis se inverteram e o acusador foi empurrado para o banco dos réus. 

A certeza da absolvição do presidente, de que o conteúdo das denúncias pouco conta para definir o voto dos parlamentares, contribuiu para a recepção fria. Some-se a interpretação dominante de que faltou a Janot juntar elementos novos e decisivos, que requentou a denúncia e e que perdeu gás seu carro-chefe, as delações da JBS, já suspeitas de obtidas ao largo da legalidade. 

Olhando com mais cuidado, contudo, vê-se que Janot veio carregado de novidades pinçadas da delação de Lúcio Funaro. Não por acaso, no final da semana, o Planalto soltou nota de ataque ao caráter do doleiro. Rememoraram-se alguns dos pontos altos de sua biografia, caso da ameaça de morte a um idoso e a da intenção de incendiar casa de adversário, com seus filhos dentro.

Para se safar, o Planalto uma vez mais deixa de lado a substância, preferindo desancar o acusador. Nem assim, contudo, consegue ocultar a proximidade entre Funaro e Cunha e do ex-presidente da Câmara com o atual condutor da República. Não será mero acidente profissional que o advogado e conselheiro do presidente já tenha defendido Funaro, hoje tido por indefensável.

Ninguém contesta que Temer e Cunha tenham operado juntos na política e em outros campos. A incerteza que persiste diz respeito à cadeia de comando e se a ascensão de Cunha teria gerado mal-estar na relação, uma "ciumeira", como definiu Funaro.

A nova denúncia de Janot permite reconstituir a história desta relação. O ponto de partida é a delação de Márcio Faria, executivo da Odebrecht, que narra reunião em 2010 para acerto de propinas. Faria conta que então perguntou a Temer se previa dificuldades com Dilma, já que a candidata a presidente era sabidamente "complicada". Apontando para Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha, Temer respondeu: "Não, se acontecer qualquer coisa aí, esses dois, esses rapazes aqui... Não, pode deixar que ela vem e fica aqui [sinalizando para o colo]; esses jovens, esses rapazes, resolvem pra mim lá, não estou preocupado".

Em 2010, quando se armava a coligação eleitoral entre PT e PMDB, Alves e Cunha eram os "rapazes" a quem Temer poderia confiar tarefas difíceis, seus lugares-tenentes. A reunião solicitada por Márcio Faria ao presidente do partido era para assegurar que Alves e Cunha estavam autorizados a falar em nome do PMDB.

O depoimento de Faria, como outros tantos, esclarece que quem paga propinas precisa de garantias. O repasse de dinheiro requer o aval de líderes para ser contabilizado como contribuição ao partido, instituição que garante a continuidade e a segurança da operação. Márcio Faria precisava saber que Alves e Cunha não eram franco-atiradores, que entregariam o que prometiam. Como presidente do PMDB, cabia a Temer chancelar a negociação.

Mas quem acabou no colo dos dois "rapazes" não foi Dilma. Com o tempo, as posições se inverteram no interior do PMDB. Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves ascenderam no partido e ganharam autonomia para representá-lo. Protegidos seus obtiveram postos antes ocupados por indicados de Temer, como Moreira Franco (Caixa Econômica) e Wagner Rossi (Ministro da Agricultura). Ainda que não tenha demonstrado força para manter seus correligionários, para Temer, a perda não foi absoluta, pois Cunha demonstrou capacidade inigualável de drenar recursos para o partido, beneficiando diretamente candidatos apoiados pelo então vice-presidente, como Chalita à prefeitura e Skaf ao governo de São Paulo. Os ganhos superaram as perdas. Houve acomodação sem desconforto.

O caso paradigmático é do FI-FGTS, definido pelos operadores como um mini-BNDES. Moreira Franco, segue a denúncia, teria ali identificado uma "oportunidade para fazer dinheiro". A descoberta e o padrinho forte não lhe garantiram o cargo. Não foi páreo para Fabio Cleto, que ganhou o posto graças ao apoio da dupla Alves-Cunha, para a qual passou a operar.

O esquema montado na Caixa deslanchou com a adesão de novo aliado, nomeado para posto-chave no banco. Tratava-se de Geddel Vieira Lima, ex-desafeto de Cunha.

O mini-BNDES alimentou a J&F, garantindo que a empresa obtivesse empréstimos generosos, cruciais para seu crescimento. Vinculou-se aí o sucesso da empresa à proteção e ajuda com que contava no banco. Assim, formou-se uma sociedade entre a J&F e a cúpula do PMDB.

Funaro observou que as relações entre Cunha e Temer nem sempre foram amistosas. Os dois se reaproximaram à época do impeachment, premidos pelas ameaças contra os esquemas de que dependiam. Desde então "confabulavam diariamente, tramando a aprovação do processo e, consequentemente, a nomeação de Temer como presidente".

A J&F, como se sabe pelas declarações de Joesley Batista, não permaneceu alheia às confabulações, engajou-se ativamente na trama. A conversa no estacionamento do Jaburu decorreu das adaptações feitas para tentar salvar o esquema. Foi o que colocou a J&F e os "rapazes" no mesmo barco. E a maior parte deles na prisão.

Fernando Limongi, Professor do DCP/USP e pesquisador do Cebrap

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