O patrão ficou louco! São mais de 50 ofertas até o estoque acabar ou até as eleições. Parece anúncio de loja de eletrodomésticos, mas estamos falando da venda de empresas e projetos estatais.

A liquidação do Estado promovida por Michel Temer e pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, está sendo vista com reticências até mesmo por quem acredita que privatizações são positivas. O tamanho do pacote e a corrida de Temer para vendê-lo na China dividiram os analistas de mercado. Metade pensa que a pressa em realizar os leilões antes das eleições pode fazer o retorno das vendas ser menor do que poderia. Outra metade apenas considera tudo uma espécie de propaganda enganosa que não se concretizará, feita para parecer que o governo está vivo e ativo.

(Xiamen - China, 05/09/2017) Diálogo dos Chefes de Estado e de Governo do BRICS e das economias emergentes e países em desenvolvimento.Foto: Rogério Melo/PR
O presidente Michel Temer participa de reunião dos Brics, na China.
Foto: Rogério Melo/Presidência da República
Até a jornalista Miriam Leitão, que costuma pesar nas críticas a empresas estatais, concordou que o tom utilizado pelo governo “mais se parece com uma liquidação geral” e que a pressa em vender ativos é um erro. Em agosto, o governo colocou na vitrine 57 estatais, anúncio seguido da pressão do ministro da Fazenda por celeridade no processo e, na esteira, Temer já partiu em direção à China para convencer os investidores de que este seria um bom negócio.

Para os investidores que se interessarem pelo banquete, o G1 já anunciou o menu do dia com a lista de tudo que virá a leilão. Não entra nesta conta, ainda, a Eletrobras, cuja privatização foi anunciada no mesmo mês. Se forem somadas à conta os 34 projetos de infraestrutura oferecidos à iniciativa privada em 2016, o total é de mais de cem projetos e empresas desestatizados em um ano.

Mas, afinal, qual era a finalidade da venda?

Logo que anunciou o pacote, Henrique Meirelles explicou que as privatizações ajudariam no cumprimento da meta fiscal do país. “Vamos aguardar exatamente quais serão os valores que ocorrerão a tempo de fato de impactar a meta”, chegou a dizer o ministro da Fazenda. O limite do rombo fiscal, já revisado para cima, está em R$ 159 bilhões. Ainda assim, está difícil de ser respeitado.

Foi o que explicou Meirelles:
“O equilíbrio fiscal está sendo obtido, agora com ajuda e participação importante das privatizações.”
A fala não foi bem recebida, porque até mesmo quem apoia as privatizações entende que o dinheiro que elas retornam ao Estado não deve ser usado apenas para cobrir uma dívida que, dali a um ano, voltará a se formar. “Estão vendendo o almoço para pagar o jantar”, chegou a criticar a economista Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins.

Adepta do pensamento liberal, de Bolle acredita que há um momento correto para se vender uma estatal, de forma a alcançar o maior retorno possível. E este não é o momento, em sua opinião. A crise brasileira é conhecida em todo o mundo e as estatais podem acabar saindo por um preço muito abaixo do que custariam em outros momentos.

Após três dias de crítica, Meirelles voltou atrás em sua fala:
“Esse conjunto [de privatizações] não tem por finalidade antecipar receita, mas assegurar melhor serviço à população.”
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Michel Temer e Henrique Meirelles apertam as mãos em evento do BNDES.
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil