27 de set de 2017

PSOL: quem é o “rival” de Chico Alencar na disputa pela candidatura à presidência

O professor catarinense Nildo Ouriques se lança como pré-candidato e afirma ser o nome mais adequado no partido para fazer o enfrentamento da crise econômica


Você nunca ouviu falar em Nildo Ouriques? Pois vai começar a ouvir o nome dele por aí. O professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina quer ser candidato à presidência por seu partido, o PSOL, mesmo sem ter se lançado a nenhum cargo eletivo antes. E, para isso, está disposto a disputar prévias com seu amigo Chico Alencar, convidado pela direção do partido a assumir a candidatura à presidência em 2018.

O processo de escolha do candidato pelo PSOL é o seguinte: primeiro os delegados são eleitos pela base; na convenção do partido, na primeira semana de dezembro, são os delegados que indicam o candidato. Chico, na verdade, ainda não decidiu se sairá candidato à presidência. É possível que prefira se lançar ao Senado pelo Rio de Janeiro, após quatro mandatos como deputado federal. Se decidir pela presidência, terá que se enfrentar com Nildo.

Mas por que o professor catarinense de 58 anos acha que poderá ser melhor candidato que Chico Alencar, com muito mais experiência na política? “O Chico é um homem íntegro, um parlamentar destacado, de uma cortesia sem limites, mas nós temos diagnósticos distintos da crise. Ele é um homem do bom combate, mas acredito que meu perfil é mais adequado para fazer o enfrentamento à crise, que não é uma crise qualquer, é inédita no Brasil. E precisa de uma resposta radical que eu tenho condições de dar”, afirma. “Mas vamos ouvir o PSOL e suas bases dentro e fora do.partido.”
O rentismo das grandes corporações foi criticado recentemente pela ONU como uma das causas da desigualdade, e é um sintoma disso que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, não produza nada
Segundo Ouriques, a crise atual não é uma recessão “nem uma crisezinha keynesiana do tipo cíclica”, que desvaloriza o capital, baixa o preço da força de trabalho e abre condições para os capitalistas investirem. “Não, este tempo acabou. Estamos no olho do furacão do capitalismo rentístico. A burguesia de todos os países periféricos não precisa mais produzir aqui, compra direto da China e dos Estados Unidos. O comerciante brasileiro ganha no rentismo. O lucro operacional é inferior hoje ao lucro financeiro. Não tem mais capital produtivo bonzinho e capital financeiro malvadão, o bandido do bairro. Misturou tudo.”

O rentismo das grandes corporações foi criticado recentemente pela ONU como uma das causas do crescimento da desigualdade no mundo, e é um sintoma disso, afirma o psolista, que o presidente da brasileira Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, não produza nada. “A indústria da família dele acabou no plano Real”, zomba Nildo. “O orgulho do industrial brasileiro se foi. Em 1994, a indústria de transformação representava 26% do PIB, agora representa apenas 8%. A ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas) pagou no ano passado, só em royalties, 5 bilhões de dólares, quatro vezes o orçamento do ministério da Ciência e Tecnologia. A burguesia brasileira é uma ovelha sendo carneada: não grita, não chora, não se defende. Não tem consciência de classe”, provoca.

É justamente o profundo conhecimento de economia que daria a ele vantagem sobre Alencar, que é historiador. Mas qual a saída para a crise?, pergunto. “Fazer a auditoria da dívida, que a Dilma vetou. Acabar com a Lei de Responsabilidade Fiscal, uma jabuticaba, só existe no Brasil. Botar rico para pagar imposto, que não paga. Fazer a reforma agrária”, promete.

O “rival” de Chico Alencar tem, em comum com o deputado, várias críticas ao PT, partido ao qual foi filiado até 2005, e até ao Bolsa Família. “O Lula fez aceitação moral da pobreza. Até o governo Washington Luís, a questão social era uma questão policial. Lula destinou 0,47% do PIB para o Bolsa Família, que beneficia de 32 a 34 milhões de pessoas. Por isso as classes dominantes não se insurgiram contra o projeto, porque é barato”, diz. “Eu chamo este sistema de sistema PTucano: o petismo faz os programas econômicos dos tucanos e os tucanos fazem os programas sociais do petismo.” Recém-filiado ao PSOL, diz não pertencer a nenhuma corrente dentro do partido, mas participa das reuniões do bloco de Esquerda, mesma corrente de Luciana Genro.
A burguesia brasileira é uma ovelha sendo carneada: não grita, não chora, não se defende. Não tem consciência de classe
Nildo Ouriques gosta de acompanhar o “camarada” Bernie Sanders, pré-candidato à presidência dos Estados Unidos autoproclamado “socialista” que não vingou em 2016. Presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC, Nildo viveu em Caracas e tem admiração por Hugo Chávez, “um leitor voraz”. “A sociedade civil da Venezuela é a mais politizada da América Latina e a origem disso é a revolução democrática”, elogia. Também é “fã” de Simon Bolívar. “Quem quer falar contra a corrupção tem que admirar Bolívar, que morreu pobre. E acho que devia se falar mais de Manuela Sáenz, a mulher dele. Era uma mulher admirável, não entendo como falam tanto de Simone de Beauvoir e não falam de Manuela.”

Em seu site, o professor publicou uma carta aberta à militância onde apresenta seu nome à disputa pela presidência representando o PSOL, assinada por, entre outros, Plínio De Arruda Sampaio Jr. e Leonel Brizola Neto. “Como professor e militante tenho corrido o país e participado de muitos eventos. Há imensa energia social na sociedade brasileira e grande também é a simpatia que alimentam em relação ao PSOL. Há, também, angústia e perplexidade pela ausência de nossa candidatura presidencial e também de programa definido para a disputa. Não podemos esperar mais”, diz o texto.

Faço uma última provocação neste primeiro encontro com Nildo Ouriques.

– O PSOL é sempre criticado, no campo da esquerda, por ser um partido de intelectuais, professores universitários, distante do povo. Este é exatamente o seu perfil. Como vai fazer para falar a língua do povo na campanha à presidência?

– Primeiro falando a verdade. Segundo, colocando o dedo na ferida, dizendo quais são os problemas reais do Brasil, coisa que os políticos tradicionais não fazem.

Cynara Menezes
No Socialista Morena

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