8 de set de 2017

Palocci


Palocci: fim melancólico

O papel a que se presta o ex-ministro da Fazenda, que há muito vinha progressivamente se transformando em um quadro a serviço do capital, faz lembrar os "arrependidos" dos anos 70.

Refiro-me aos presos políticos que, torturados, aceitaram colaborar com a ditadura e foram à televisão acusar suas próprias organizações dos crimes mais bárbaros, imputados pelo regime militar, proclamando-se arrependidos de seus vínculos com o "terrorismo".

Quem assim age, renuncia à própria dignidade e se atira na sarjeta da história.

Esse foi o caminho de Palocci. Subserviente ao juiz Moro e ao MPF, com a coluna vertebral quebrada após um ano de cadeia e derrotado pela perspectiva de permanecer muito tempo encarcerado, ofereceu-se como instrumento da campanha contra o ex-presidente Lula e o PT.

Tal como os renegados da resistência, sucumbe à função de porta-voz de mentiras e invenções que interessam às forças mais reacionárias, rastejando por um acordo de delação premiada.

Os "arrependidos" do passado ao menos podiam alegar, para explicar seus atos, as brutais sevícias que sofreram.

Palocci nem isso.

A traição é sempre um fim melancólico.




Palocci e suas responsabilidades

Eleitor de Lula e aliado de um projeto político que, com erros e limites que todos conhecemos, contribuiu para mudar o país como nenhum outro governo em nossa historia recente, só posso condenar o esforço de Antônio Palocci para amenizar sua pena através de uma delação premiada.

Sem ignorar o inaceitável sofrimento de quem se encontra preso há onze meses sem sentença passada em julgado, enfrentando toda carga de pressão e injustiça que essa situação representa, é bom recordar que não estamos falando de um entregador de pizza aprisionado numa delegacia mal iluminada, mas de um dos principais responsáveis pelo período de 13 anos que o PT governou o país.

Palocci foi duas vezes ministro em postos decisivos. Sentou-se com banqueiros e empresários, lideranças sindicais e donos de jornal. Explicou e negociou medidas - corretas ou não, justificáveis ou não - de interesse de um projeto político do qual se tornou um dos principais porta-vozes e formuladores. Passou a cumprir este papel a partir da Carta ao Povo Brasileiro, referência da campanha de 2002 e do horizonte geral dos governos Lula e Dilma.

Até pela condição política particular obrigatório recordar o que acontece dentro e fora da carceragem de Curitiba. Desde a semana passada, vive-se o fortalecimento de uma possível candidatura Lula em 2018 através da vitoriosa caravana por nove estados do Nordeste, já programada para se espalhar por outros pontos do país. Em queda nas pesquisas de opinião, repudiada por uma parcela importante da elite econômica que governa o país há 500 anos, a Lava Jato vive o pior momento depois que se descobriu que Joesley Batista foi capaz de produzir uma delação sob medida para preservar sua fortuna e impunidade. Na mesma semana, as malas de R$ 51 milhões de Geddel Vieira Lima, num apartamento desocupado em Salvador, escancaram o caráter seletivo das investigações sobre corrupção.

Numa conjuntura na qual, mais do que nunca, é preciso ampliar a resistência que pode preservar conquistas e direitos acumulados ao longo da história, a delação de Palocci ocorre numa encruzilhada da história brasileira.

Nos próximos meses, o TRF-4, em Porto Alegre, irá tomar uma decisão crucial sobre o direito de Lula disputar a presidência em 2018 - a denúncia do imóvel do Guarujá, a principal esperança do adversários para que seja afastado de uma disputa crucial para os rumos do país. A base jurídica para uma segunda condenação, indispensável para que Lula seja enquadrado na Ficha Limpa, é pífia: o que só reforça a importância de ações de natureza política.

Palocci está sendo chamado a dar um golpe decisivo na credibilidade de Lula. Pode alimentar uma dúvida sobre o caráter do presidente capaz de paralisar uma reação inconformada, em caso de sentença desfavorável, por parte do cidadão comum.

Também pode influenciar o Judiciário, criando uma sensação de legitimidade em torno de um tribunal chamado a tomar uma decisão que contraria os autos e tem recebido criticas duras, dentro e fora do país.

Já condenado a 12 anos, sob ameaça de enfrentar outras condenações em futuro breve, é compreensível que Palocci - como qualquer outro réu da Lava Jato - faça o possível para amenizar a injustiça de uma perseguição baseada, acima de tudo em razões políticas. Pelo papel que assumiu e representou, Palocci construiu um destino e não tem como escapar dele. É tarde demais para uma mudança de identidade por outra razão além da própria conveniência, a tal ponto que ameaça vestir o capuz de carrasco de quem sempre foi seu maior protetor.

Para uma pessoa preocupada - talvez exageradamente - com o próprio conforto e a aceitação alheia nenhum destino pode ser pior do que o seu. Estamos vivendo hoje um tempo em que decisões do cotidiano se transformam em História. Quando as tragédias do dia tiverem passado, alguns de nós, inocentes e culpados, vencedores e vencidos, estarão mortos e outros, terão cabelos brancos e memórias vivas para extrair lições da vida. Será possível sentar nos bares, evocar passagens e momentos difíceis, dar risada. Mesmo nessa hora, Antônio Palocci será um nome sem direito a sair na rua, uma lembrança que envergonha aqueles que o conheceram e até foram capazes de defender o que fez e disse.

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