4 de set de 2017

O tridente

Como resistir, se a primeira coisa que ela disse para ele foi: ‘Posso arruinar a sua vida?’

Deu o que falar, um homem maduro (ou “podre”, como diria a mulher, quando pediu o divórcio) como ele namorando uma menininha. Mas como resistir, se a primeira coisa que a menininha disse para ele foi:

– Posso arruinar a sua vida?

Não “quer me namorar?”, ou “topas?” ou “tem horas aí, tio?”, mas:

– Posso arruinar a sua vida?

Ele teve que pensar muito numa resposta, quase um minuto. No fim disse:

– Arruinar, como?

E ela:

– A escolha é sua. Paramos por aqui, ou continuamos. Você diz “não” e eu vou embora, ou você diz “sim” e eu arruíno a sua vida.

Ela tinha o quê? Dezessete anos. Talvez menos. 

– Arruína, como?

– Ruína completa. Escândalo. Você sai de casa. Nós vamos morar juntos. Em um mês ou dois, eu provavelmente deixo você. Você vai atrás de mim, dá vexame. Talvez até me mate. Ou eu mato você. Mas pense no que seria esse mês, ou dois...

Ele pensou em dizer “isso é uma brincadeira?” Pensou em dizer “não faça isso com um velho”. Pensou em dizer “por que eu?”. Só não pensou em dizer “não”, para ela não ir embora. Os olhos dela eram de um castanho esverdeado. Ela insistiu:

– E então?

– Começando quando?

– Quando você quiser. Por mim, já começou.

Começou no carro dele, àquela tarde mesmo. Foi quando ele notou a pequena tatuagem que ela tinha na parte interna da coxa. Um tridente. Perguntou o que era aquilo. Ela disse:

– Nós todas temos uma igual.

– “Nós” quem?

Ela apenas sorriu.

– Vocês são o quê? Um clube? Uma irmandade? Uma seita? 

Ela só sorrindo.

– As menininhas que arruínam vidas, é isso?

Ela deu uma risada. Depois prendeu a cabeça dele entre suas coxas tostadas. 

Foram vistos. Naquela noite, a mulher dele já sabia. No dia seguinte, todo o mundo sabia. Foi um escândalo. A mulher pediu divórcio, em seguida. Ele não se enxergava, não? A menina podia ser sua filha! 

Ele foi morar com a menina. Largou o trabalho, largou tudo. Quando não estava com a menina no apartamento que lhe comprara estava por perto, controlando a vida dela, louco de medo de ser traído, desconfiando até de entregador de pizza.

No fim, ela declarou que iria deixá-lo. Quando viu, ele estava no chão, agarrado aos pés dela, implorando para que ela não fosse embora. Ela foi. Pisou na cabeça dele antes de sair.

Hoje, ele é uma ruína. Bebe, tem problemas circulatórios, mas, como largou o emprego, não tem dinheiro para se tratar. Uma ruína. Tinha durado pouco mais de um mês. Mas que mês e pouco, pensa ele, às vezes, e sorri com a lembrança. Que mês e pouco. E até hoje ele não sabe o que significa aquele tridente que ela tinha tatuado na parte interna da coxa. Que todas elas têm.

Luís Fernando Veríssimo

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