17 de set de 2017

O suicídio político de Ciro Gomes

Um dos episódios importantes da semana política foi a movimentação de Ciro Gomes em direção ao eleitorado de centro-direita. Não que em algum momento sua retórica mais à esquerda tenha convencido os que acompanham sua trajetória errática. Mas, esperava-se que perto de completar 60 anos, ele fosse capaz de deixar para trás sua vocação para manobras políticas desastradas.

Antes de dar crédito às delações de um vil traidor como Palocci, Ciro batia duro no golpe, embora não poupasse Lula e o PT de críticas. Mas todas feitas com moderação, na expectativa de que, com o eventual impedimento de Lula, ele pudesse herdar pelo menos parte dos milhões de votos do ex-presidente.

No entanto, o problema para Ciro seguir adiante nessa tática sempre fora o próprio Ciro. Sujeito inteligente, dono de uma fala fluente e contundente, ele até que encanta algumas plateias. Mas por pouco tempo. Muitos logo percebem que sua roupagem de político antineoliberal e com incursões verborrágicas à esquerda do espectro político é para inglês ver. Na essência, mantém apenas contradições com establishment.

Sua trajetória político-partidária fala por si : eleito deputado estadual no Ceará, em 1982, pelo PDS – partido que sucedeu à Arena no suporte à ditadura -, Ciro migraria para o PMDB um ano depois. Daí em diante não parou mais : PSDB, PPS, PROS e PDT. Ele e seu irmão Cid alardeiam como grande feito político de suas carreiras a derrota que impuseram aos “coronéis” que deram as cartas no Ceará ao longo de décadas.

Os críticos dos irmãos Gomes, todavia, dizem que a dupla herdou desse embate alguns traços característicos de seus adversários, tais como a arrogância e a soberba, resvalando para a grosseria. A performance de Ciro na campanha presidencial de 2002 reforça essa análise. O então candidato do PPS, para quem não lembra, despencou nas pesquisas depois de uma sucessão de declarações mal educadas e machistas.

Voltando a 2017, o que teria levado Ciro, em plena campanha antecipada para a presidência da República, à execução de uma manobra política digna de torná-lo favorito ao troféu “asno do ano?” Na minha opinião, Ciro se rendeu às suas reais convicções políticas e ideológicas. Só uma espécie de cobrança feita por sua consciência pode explicar o súbito abandono de qualquer possibilidade de disputar o espólio lulista.

Não falo de entendimento com o PT para o primeiro turno, pois em largas parcelas do partido, Ciro é visto com desconfiança e, sobretudo, como defensor de outro tipo de projeto político, fora do campo da esquerda. Mas, se não fosse o antipetismo que nunca confessou, Ciro poderia pelo menos ter evitado a destruição de todas as pontes com o PT.

Ciro é nordestino e certamente contava com boa votação na região do país na qual Lula é quase um Deus. A apoteose e a consagração de Lula em sua caravana recente pelo Nordeste passaram batidas por Ciro, que preferiu tentar ocupar o espaço de centro-direita disputado por Dória e Alckmin. Deve alimentar a expectativa de que seu diferencial será o fato de ter sido contra o golpe. Como se o eleitor desse segmento valorizasse compromissos democráticos. Ciro que se prepare para uma derrota acachapante ano que vem.

Bepe Damasco

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