29 de set de 2017

O que você precisa saber antes de falar que a esquerda é totalitária 5/5


Bem diferente do que diz o discurso conservador, a consolidação da democracia no Ocidente como conhecemos hoje só foi possível devido às demandas da esquerda.

Considerações Finais

Como dito, ainda na introdução desse texto, não devemos pensar a democracia como um modelo pronto, a ser adotado de modo direto ou representativo. Mas como práticas que procuram trazer para a esfera prática aquilo que foi idealizado no plano das ideias. Apesar da participação direta do cidadão ser preferível à representação, uma democracia puramente direta é impossível na atualidade (até nos colégios de ensino médio, para ouvir os alunos, a diretora faz eleições de representantes de turma). A dimensão dos territórios nacionais, a população, a complexidade das questões políticas e a correria do dia a dia inviabilizam a participação direta. O que, obviamente, não impede que práticas de democracia direta sejam adotadas num sistema representativo (sobretudo no nível municipal). A meu ver, o grande desafio é fazer com que o sistema representativo realmente represente a sociedade.

Para explicar essa parte final, gostaria de fazer alguns comentários sobre o voto feminino. Com certeza as leitoras desse texto devem ter percebido que em nenhum momento as mulheres foram mencionadas. Durante o século XIX, nem mesmos os governos mais radicais não iam além do voto universal masculino. As mulheres eram sempre excluídas. Esse fato é interessante para percebermos os impasses da democracia atual.

Acreditava-se que, no momento em que o trabalhador tivesse direito ao voto, ele seria maioria no legislativo. A lógica era simples: o trabalhador votará num igual, como ele é maioria na sociedade, será maioria no parlamento. O mesmo valeria para as mulheres. Porém, a política é contraditória e nem sempre prevalece a lógica. A democracia, como governo dos pobres, não é algo tão preciso como imaginava Aristóteles. Ou, nas palavras do cientista político Luis Felipe Miguel: “o acesso à franquia eleitoral é uma condição necessária, mas nem de longe suficiente”. Por quê? Por que mulheres não elegem mulheres em quantidades próximas a representação desse gênero na sociedade?

Uma das repostas a essa pergunta pode ser buscada lembrando os ensinamentos de James Madison que, no século XVIII, já dizia que os elementos identitários são múltiplos. Uma mulher pode definir a si mesma, em primeiro lugar, como uma religiosa. E votar num candidato que represente essa característica. Mas isso não responder tudo, pois tal afirmação também valeria para os homens e estes não estão sub-representados.

Talvez um caminho para entender essa aparente contradição estaria no que Pierre Bourdieu chamou de efeito doxa. As representações sociais constrangem o comportamento humano e acabam por influenciar na conformação de uma realidade social. Em termos mais simples: mulheres aprendem desde cedo que o espaço da política não as pertencem. Vale destacar que os interesses também são construções sociais e a ausência do gênero feminino na política reforça essas representações. Assim, elas acabam por se afastar da esfera pública. O resultado é um congresso composto essencialmente por homens brancos e ricos.

As contradições do sistema democrático, portanto, devem ser entendidas de forma ampliada, pois elas se relacionam com a estrutura social desigual. As desigualdades – sejam elas materiais ou simbólicas – bloqueiam a democracia e, sem o aprofundamento democrático, tais mazelas dificilmente serão superadas, formando um paradoxo difícil de ser superado. Essa é, certamente, a grande barreira que precisa ser vencida no século XXI.

A democracia representativa, na feliz expressão de Luis Felipe Miguel, é um território em permanente disputa, um jogo de ausência e presença. Tornar as demandas populares mais presentes que ausentes no centro de decisões é uma tarefa sempre inacabada que deve nortear o pensamento político. O horizonte moral da política é a busca pela justiça e é impossível aproximar o poder e justiça sem a soberania popular.

Referências

• Aristóteles – Política

• Diderot e Dalamberto – Enciclopédia (volume 04)

• James Madison, Alexander Hamilton e John Jay – O Federalista

• Jean Jaques Rousseau – O Contrato Social

• Montesquieu – O Espírito das Leis

• Marcelo Novaes – O Grande Experimento

• Robert Dahl – A Constituição Americana é Democrática?

• Jonh Dunn – A História da Democracia

• Simone Fabre – O Que É Democracia?

• Leo Strauss e Joseph Cropsey – História da Filosofia Política

• Norberto Bobbio – Dicionário de Política

• Eric Hobsbawm – Era das Revoluções

• Eric Hobsbawm – Era dos Extremos

• Luis Felipe Miguel – Democracia e Representação

• John Merriman – A Comuna de Paris

• Sheila Fitzpatrick – A Revolução Russa

• Daniel Aarão Reis – Manifestos Vermelhos

Eduardo Migowski
No Voyager

Acompanhe os demais trechos do artigo:

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