6 de set de 2017

O mapa do 'tesouro perdido' de 51 milhões atribuído a Geddel

A maior apreensão de dinheiro vivo da história da PF baseou-se em desvios relatados por delator e em ligação telefônica

Funaro diz que pagou 20 milhões em espécie a Geddel, um possível indício da origem do "tesouro"
Foram 14 horas e sete máquinas para contar 51 milhões de reais em espécie, a maior apreensão em dinheiro vivo da história da Polícia Federal. O "tesouro perdido" encontrado em um imóvel atribuído a Geddel Vieira Lima vem sendo escavado desde o início das investigações contra o ex-ministro e braço direito de Michel Temer.

O esquema envolvendo desvios na Caixa Econômica Federal, possível origem de parte da bolada recorde, deve ser um dos temas principais da delação ainda não homologada de Lúcio Funaro, operador do PMDB ligado ao ex-deputado Eduardo Cunha.

O mapa do "Tesouro Perdido", nome dado pelos investigadores à ação, baseou-se em uma denúncia telefônica e em pesquisas de campo. De acordo com a busca e apreensão autorizada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, a polícia suspeitava que o ex-ministro Geddel, apontado por Joesley Batista como interlocutor de Temer após a prisão de Cunha, guardava "possíveis provas" de ilícitos em um imóvel na rua Barão de Loreto, em Salvador.

Segundo o despacho, o Núcleo de Inteligência da PF teria recebido a denúncia por telefone, em que foi relatada a utilização por Geddel de um apartamento no 2º andar do Edifício Residencial José da Silva Azi "para guardar caixas com documentos". Em conversa com moradores do local, os investigadores foram informados que um pessoa usou o imóvel para guardar "pertences do pai" do ex-ministro. O pai de Geddel morreu no início de 2016.

A origem do valor ainda precisa ser esclarecida, mas há relatos que podem ajudar a explicar parte desta quantia. Segundo as investigações da ação Cui Bono, que deu origem à ação Tesouro Perdido, Geddel teria recebido cerca de 20 milhões de reais em propina quando ocupava o cargo de vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, entre 2011 e 2013. Pelos pagamentos, o ex-ministro de Temer aprovava a liberação de recursos da caixa e do Fundo de Investimento do FGTS, controlado pelo banco.

No mandado judicial, datado de 30 de agosto, consta que "há fundadas razões de que no supracitado imóvel existam elementos probatórios da prática dos crimes relacionados na manipulação de créditos e recursos realizadas na Caixa Econômica Federal".

Em depoimento à PF em junho deste ano, Lúcio Funaro deu sua versão sobre o desvio de 20 milhões de reais no banco. O operador contou que duas vice-presidências da Caixa estavam sob influência de Geddel: a de Fundos do Governo e Loterias (Vifug) e a de Pessoa Jurídica. A primeira chegou a ser comandada por Fábio Cleto, que viabilizou, segundo Funaro, desvios no FI-FGTS que teriam beneficiado a chapa vencedora nas eleições de 2014, negócio supostamente orientado por Michel Temer.

Os 20 milhões pagos em espécie a Geddel no esquema, narrou o operador, foram resultado de liberações de créditos do banco para empresas do grupo J&F, de Joesley Batista. Segundo o depoimento de Funaro, foi ele próprio quem apresentou Geddel a Joesley.

Em novo depoimento, desta vez à Procuradoria da República em Brasília, Funaro relatou ter entregue "malas ou sacolas de dinheiro" a Geddel. Em duas viagens que fez à Bahia, uma para Trancoso e outra para Barra de São Miguel, o operador declara ter feito rápidas paradas em Salvador para entregar malas ou sacolas de dinheiro para o ex-ministro de Temer.

A informação veio a público após o Ministério Público utilizá-las para embasar um novo pedido de prisão contra Geddel. Uma possível relação entre esses pagamentos e as malas e caixas de dinheiro encontrados nesta terça-feira 5 ainda não foram esclarecidos.

Compra de Silêncio de Cunha e Funaro

A relação entre Geddel, Funaro e Joesley Baptista não se resume aos desvios na Caixa para beneficiar a J&F. O trio protagoniza também uma das principais acusações presentes na delação da JBS, agora sob risco de ser anulada.

Apontado por Joesley como interlocutor do empresário com Temer até ser afastado do governo, Geddel foi preso no âmbito da Operação Cui Buono no início de julho. O Ministério Público alegou na ocasião que o ex-ministro estaria tentando obstruir as investigações que apuram irregularidades na liberação de recursos da Caixa. O ex-ministro foi libertado em seguida e cumpre prisão domiciliar.

Segundo os procuradores responsáveis pela ação, o objetivo de Geddel seria evitar que Cunha e o próprio Lúcio Funaro firmassem acordo de colaboração com o MPF. Para isso, disseram os investigadores, o ex-ministro tem atuado no sentido de "assegurar que ambos recebam vantagens ilícitas, além de 'monitorar' o comportamento do doleiro (Funaro) para constrangê-lo a não fechar o acordo".

Os investigadores basearam-se em mensagens enviadas recentemente, entre maio e junho, por Geddel à esposa de Funaro. O doleiro teria entregado à polícia diversas reproduções de conversas com o ex-ministro, identificado pelo codinome de "carainho". Nos diálogos, diz o MPF, Geddel sonda a mulher de Funaro sobre a disposição do doleiro em assinar um acordo de colaboração.

Em sua delação, Joesley afirmou que vinha recebendo sinais claros "de que era importante manter financeiramente as famílias" de Cunha e Funaro. Os sinais teriam vindo "inicialmente através de Geddel", em referência ao ex-ministro chefe da Secretaria de Governo.

O Dono da JBS decidiu então procurar Temer diretamente a partir do momento em que Geddel passou a ser investigado por tentar influenciar o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero a liberar uma obra de seu interesse pessoal em Salvador. No encontro em 7 de março, Temer falou "tem que manter isso, viu" em resposta ao relato de Joesley sobre os pagamentos mensais à dupla.

De acordo com Joesley, Funaro recebia uma mesada de 400 mil reais por mês, enquanto Cunha foi beneficiado com 5 milhões de um saldo de propina a receber por atuar em favor da JBS em uma desoneração fiscal do setor de frango.

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