5 de set de 2017

O jornalismo geneticamente modificado

Na semana que findou a imprensa tradicional lotou de notícias positivas seus surrados jornalões e noticiários, com uma informação extraordinária: a informalidade estava combatendo o desemprego no país! Pela primeira vez na história da imprensa brasileira esta assume, com segurança, a responsabilidade e o risco de dar um atestado de imbecilidade a todos os seus leitores e declará-los mentalmente incapazes de olhar uma informação com um mínimo de lucidez. Felizmente – além das redes – uma pesquisa publicada no jornal “O Valor” (29.08), de forma solitária – mas digna – colocava as coisas nos eixos: “No segundo trimestre deste ano, o Brasil tinha 15,2 milhões de lares onde ninguém trabalhava, 2,8 milhões a mais do que no mesmo período de 2014 – um incremento de 22%. Isso significa que um, em cada cinco domicílios (21,8% do total), não tinha renda fruto do trabalho (formal ou informal)”.

Desde que o mundo é mundo, a informalidade é consequência do desemprego. A busca de espaços nas ruas, para vender produtos sem nota fiscal e a presença de crianças, nas sinaleiras – vendendo balas e pentes – sempre foi sinal de crise desesperadora e de ataque frontal ao comércio estabelecido, fonte de empregos e impostos. Só pessoas desesperadas e famílias sem rumo, buscam esta solução, para não caírem diretamente na marginalidade. Desde que o mundo é mundo, a imaginação manipulatória da imprensa tradicional não chegava a um lugar tão alto para atestar, igualmente, que galgamos depois de um avanço de 0,2% no PIB – recuperação de ínfima parte do absurdo recessivo a que estamos submetidos – “o primeiro degrau para sair do fundo do poço”. Nem a informalidade reduz o desemprego nem chegamos, ainda, ao fundo poço.

A professora e pesquisadora Concha Mateos, da Universidade Rey Juan Carlos, denomina este tipo de jornalismo de “jornalismo modificado geneticamente”. Ele – como uma sentença do Juiz Moro – seleciona premissas de maneira arbitrária, para chegar a um fim (conclusivo), previamente definido, pela ideologia dominante na pauta daquele órgão de imprensa. Assim, estes mesmos fatos apontados como positivos no contexto do Governo golpista – cujo golpe teve o apoio desta imprensa – em outro Governo não adepto das reformas “liberal-rentistas”, teriam um tratamento completamente diferente. O dado de que a informalidade aumentou seria tratado (corretamente), como consequência do aumento do desemprego, e o crescimento de 0,2% do PIB, seria apontado como um indicativo de que a recessão permanece e o crescimento pequeno é simples espasmo na economia.

O último reduto da utopia, dada a vitória do capital em todos os “fronts” (que chegou à subsunção do Estado pelo capital financeiro) é o “progressismo” da sociedade industrial. E ele está morrendo. Ele chegou ao período de crise em que a vitória “material” do capital irradiou-se como uma metástase “espiritual”, sobre todas as políticas social-democratas, para as quais a única estratégia viável – na marcha ao poder – é o reconhecimento de que é preciso “ceder em tudo, conciliar tudo com seu contrário” (Agamben): “a inteligência com a televisão e a publicidade, os trabalhadores com o capital, a liberdade de expressão com o Estado-espetáculo, o meio ambiente com o desenvolvimento industrial, a ciência com a opinião, a democracia com a máquina eleitoral, a má consciência e a abjuração com a memória e a fidelidade”. Esta morte do progressismo - que aqui se arrasta lentamente - certamente não vem de uma traição, mas decorre das consciências cansadas de lutas sem projetos definidos e da semelhança na aplicação dos mesmos, quando as diferentes facções chegam nos Governos.

Com o “progressismo” material e espiritualmente bloqueado, com os projetos de revolução sem um futuro minimamente palpável, o que resta – nestas circunstâncias – é a guerra interna no capital, pela conquista de mercados, matérias primas, mão de obra barata, água e fontes de energia, para que o processo de acumulação continue ao infinito. Como se sabe pela experiência histórica secular, na guerra, as primeiras vítimas são os pobres e os miseráveis, e os primeiros favorecidos são os fabricantes de armas e banqueiros que os financiam. Que eu esteja enganado é o meu desejo sincero, mas aqui no Brasil - ao que tudo indica -,já estamos trilhando o caminho de uma guerra civil não declarada. Contra os pobres e miseráveis, intoxicados pelo jornalismo “geneticamente modificado”.

Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.
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