25 de set de 2017

Lenda


No novo surto que contaminou alguns setores progressistas, o de uma intervenção militar que acabaria com o golpe comandado pelos conservadores, repete-se uma pós-verdade para a fantasia ficar de pé: a equação seria fechada graças à influência do ex-deputado e ex-ministro Aldo Rebelo nas Forças Armadas.

Goste-se ou não de Aldo, especialmente de suas novas opções, e eu tenho por ele amizade e respeito, a ascendência dele sobre os militares é a mesma que a de Tite sobre a escalação da seleção argentina.

Nenhum civil tem ou teve historicamente qualquer peso sobre os rumos das Forças Armadas, aliás, a mais fechada e auto-centrada de todas as corporações do Estado.

Os exemplos dos que se gabaram dessa influência são muitos e patéticos, à direita e à esquerda.

Jango deixava vazar que o esquema do general Assis Brasil, chefe de seu gabinete militar, deteria qualquer tentativa de golpe e que Amauri Kruel, chefe do 2º Exército (hoje Comando Sudeste) era seu amigo pessoal. O tal "esquema" era uma invenção no papel e o segundo participou da derrubada do presidente sem dor na consciência.

Carlos Lacerda conspirou e desenhou o golpe de 1964. Quando os militares tomaram o poder, foi cobrar sua parte, reivindicando eleições presidenciais em 1965. Terminou preso.

A bem da verdade, do lado de cá do rio, somente uma pessoa teve real influência entre as Forças Armadas: Luiz Carlos Prestes. Mas o detalhe é que ele tinha sido militar, um dos pais do tenentismo, líder de sua geração de caserna e autor de mitológicas façanhas em combate.

Esqueçamos, portanto, de soluções mágicas baseadas na capacidade de sedução de algum quadro progressista sobre os quartéis.

O quadro real é que a hegemonia militar continua a ser ditada pela aliança instável entre entreguistas e nacionalistas conservadores. O fato novo é que a fração fascista desse segundo setor está ganhando terreno contra os moderados.

Se houver intervenção militar, é porque as Forças Armadas decidiram novamente assumir o papel ativo de partido armado do capital, contra a esquerda e os interesses da classe trabalhadora.

E se a fábrica de boatos acertar alguma, sobre a tal fórmula Maia-Aldo que substituiria Temer, é porque o ex-comunista teria aceitado desempenhar uma função muito, muito feia, já do outro lado do rio.

Breno Altman

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