5 de set de 2017

Lama nas delações: o fim que conspurca os meios


Se há algo que contamina todas as operações Lava Jato – de Curitiba a Brasília, passando pela filial carioca, nunca será tão bem expresso quanto na entrevista do submoro juiz Marcelo Bretas, gerente da Lava Jato no Rio:

 “O combate à corrupção faz os meus olhos brilharem”.

Próprio de sentimentos irracionais – paixão, cobiça, desejo – o brilho dá a volúpia e retira a serenidade do olhar e faz com que seu campo de visão se estreite ao ponto de quase ser só aquilo que busca, deixando o caminho próprios a tropeços e, como parece ser o caso agora, tombos estrepitosos.

Desde o início, a Lava Jato tornou-se, para o juiz Sérgio Moro e para os procuradores de Curitiba, uma poderosa ferramenta de prestígio, afirmação de poder e realização de objetivos ideológicos (francamente, seria impróprio chamá-los de filosóficos).

Veja friamente: quando é que um juiz e promotores de província (e seu séquito de meganhas) poderiam monopolizar diariamente as manchetes de toda a mídia nacional, ameaçarem um governo, impedir que se eleja um próximo, tudo isso mergulhando em flashes, troféus, capas de revista, palestras e até ganharem um filme, nauseantemente promovido com dinheiros misteriosos?

Já no (sem trocadilho) início deste processo, o Procurador Geral da  República, em lugar de exercer o papel de moderador da ação de seus subordinados, contendo-os no que é legítimo conter – a autopromoção e o abuso das suas funções – reagiu com um “eu também quero”.  Isso se materializou na cena ridícula de segurar, ainda em março de 2015, o  cartaz “Janot, você é a esperança do Brasil”, oferecido por um grupelho de moralistas ensandecidos.

Francamente, Bolsonaro e bolsominions não teriam protagonizado cena mais expressiva de messianismo e vaidade.

O “autogrampo” dos delatores Joesley Batista e Ricardo Saud registra apenas um dos muitos diálogos abjetos que se deram em todo este processo de delação. Os outros, apenas, não foram gravados.

Uma “delação simultânea” de 77 executivos da Odebrecht, afinal, é um ato de vontade individual dos delatores ou um imenso negócio corporativo que, todos sabem, envolveu prêmios milionários a seus participantes, garantias  de estabilidade na bem-pagas posições que ocupam?

E menos mal a “verdade” comprada a dinheiro e impunidade parcial ou total do que aquela adquirida pelo abjeto método do “acusa que te solto” francamente utilizado nas “alongadas prisões de Curitiba”, para servir-me da expressão usada no plenário do Supremo por Gilmar Mendes.

No estado de Direito fala-se muito no “devido processo legal”. O processo legal, quando conduzido com os olhos brilhantes, tomados do prazer punitivo e/ou da ambição e da ideologia  de seus condutores escorrega para o que é, ao olhar sereno, claramente indevido.

E se é indevido, não é um processo legal.

Os donos da pureza e da verdade no Brasil, tão senhores se creem, transformaram as instituições judiciais e parajudiciais (Polícia e Ministério Público) em simples ferramentas de seus projetos pessoais e político-ideológicos, onde os fins (é, os fins, os que fazem os olhos brilharem) justificam os meios.

E assim cegados, tornam-se eles próprios meros instrumentos e interesses econômicos e políticos  que, como farão agora a Janot, jogam logo fora o bagaço espremido das vaidades.

Fernando Brito
No Tijolaço

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