16 de set de 2017

Juiz de piso censura peça de teatro


Depois de passar pela capital e várias cidades do interior paulista, a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, de Jo Clifford, deveria ser exibida nesta sexta-feira (15/09), no Sesc Jundiaí (SP).

(Veja mais aqui)

Porém, o espetáculo foi cancelado um pouco antes de começar por liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, atendendo a um pedido que já vinha sendo articulado há alguns dias por fundamentalistas religiosos.

Em sua página no Facebook, a companhia de teatro publicou este comunicado:
Com pesar e indignação comunicamos o cancelamento do nosso espetáculo, que aconteceria hoje no Sesc Jundiaí. O cancelamento aconteceu devido à liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, atendendo a um pedido que vem sendo articulado há alguns dias por congregações religiosas, políticos e pelo TFP (Tradição, Família e Propriedade).

Citando a autora da peça, Jo Clifford, isto prova a importância do trabalho e como ele se faz necessário hoje no Brasil: o país que mais assassina travestis e transexuais no mundo.

A tristeza é grande, mas o desejo de continuar também. Agradecemos o apoio do Sesc, que acolhe nosso trabalho desde a sua estréia, e daremos mais informações em breve.

“Abençoada sejas se abusam de você ou te perseguem. Isso significa que você está trazendo a mudança. E abençoados sejam aqueles que te perseguem também. O ódio é o único talento que têm, e não vale nada”.

E continuaremos na estrada temos apresentações já agendadas no @sescsantoamaro @sescsantoandre @sescjundiai @sescriopreto
O pedido de antecipação de tutela foi ajuizada por Virgínia Bossonaro Rampin Paiva contra o Sesc Jundiaí, pedindo a suspensão da peça, com este argumento:
“a referida exibição vai de encontro à dignidade cristã, posto apresentar Jesus Cristo como um transgênero, expondo ao ridículo os símbolos como a cruz e a religiosidade que ela representa”.
Em sua decisão liminar (abaixo, a última página), o juiz afirma:
…não se pode produzir uma peça teatral de um nível tão agressivo, ainda que a entrada seja franqueada ao público.
(…) não pode ser tolerado é o desrespeito a uma crença, a uma religião, enfim, a uma figura venerada no mundo inteiro.
malgrado a inexistência da censura prévia, não se pode admitir a exibição de uma peça com um baixíssimo nível intelectual que chega até mesmo a invadir a existência do senso comum, que deve sempre permear por toda a sociedade.

(…)

Do exposto, considerando-se que as circunstâncias jurídicas alegadas em a inicial corroboram o fato de ser a peça em epigrafe atentatória à dignidade da fé cristã, na qual JESUS CRISTO não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim O FILHO DE DEUS, ACOLHO as razões explanadas pela parte autora e assim o faço com o fito de proibir a ré de apresentar a peça “O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU”, prevista para o dia de hoje (15 de setembro de 2017).

Data vênia, discordo de sua excelência, o juiz Luiz Antonio de Campos Júnior.

A sua decisão revela fundamentalismo religioso, preconceito e cegueira. É a treva total.

Além de censurar a peça, sim, falta-lhe ainda o verdadeiro espírito cristão.

[URGENTE] Após tentarem, sem sucesso, a censura da peça “A princesa e a costureira” durante a Semana da Diversidade Sexual de Jundiaí (interior de SP), alegando doutrinação gay para crianças, fundamentalistas religiosos prosseguem com mais pressão por interferência na política e pedem a censura da peça “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”.

Na peça Jesus é representado por uma atriz trans, o que gerou revolta de intolerantes. Mas dessa vez um juiz apresentou uma liminar proibindo a execução da peça.

É inadmissível que igrejas se manifestem dessa forma sobre arte.

Se alguém tentasse interromper esses cultos, o que aconteceria?

Se alguém tentasse pendurar obras de cunho provocativo dentro de igrejas, como se sentiriam?
As justificativas para a proibição da peça são absurdas e contrariam completamente o princípio da laicidade do estado.
Está sendo mais comum que igrejas interfiram dessa forma sobre o poder público, de modo a criar um tipo de poder paralelo, não apenas regulando expressões artísticas, mas também agredindo pontos importantes da promoção de cidadania e respeito dentro de planos de ensino e buscando privilégios administrativos e blindagem pública a críticas.
Mas o que faltou ao senhor juiz, o pastor Henrique Vieira tem de sobra.



A peça segue na estrada.

E se Jesus vivesse nos tempos de hoje e fosse travesti? 

O espetáculo é uma mistura de monólogo e contação de histórias em um ritual que traz Jesus ao tempo presente, na pele de uma travesti.

Histórias bíblicas conhecidas são recontadas em uma perspectiva contemporânea, propondo uma reflexão sobre a opressão e intolerância sofridas por transgêneros e minorias em geral.

A peça provoca reflexão ao expor estes problemas sociais ao mesmo tempo em que emite uma mensagem de amor, perdão e aceitação. A identidade travesti é elemento chave do espetáculo, que busca a transformação do olhar diante de identidades marcadas pelo estigma e pela marginalização.

FICHA TÉCNICA: 

Texto: Jo Clifford
Tradução/adaptação: Natalia Mallo
Direção: Natalia Mallo
Assistência de direção: Gabi Gonçalves
Trilha sonora*: Natalia Mallo
Iluminação: Anna Turra, Juju Augusta
Construção do altar: Jimmy Wong
Treinamento corporal: Fabricio Licursi e Gisele Calazans
Treinamento vocal: Patricia Antoniazi
Produção: Núcleo Corpo Rastreado
Apoio: TRANSFORM British Council.
*Trilha sonora inclui trechos de “A pele mais fina” (Liniker/As Bahias e a cozinha mineira), “Um Beijo” (MC XUXU) e “New world coming” (Nina Simone).



Desde a nossa estréia, há um ano, passamos por diversas situações de violência: ameaças de censura, ameaça física, insultos e difamação na internet, etc. Mas esta é a primeira vez que o espetáculo é impedido de acontecer.

O conteúdo da liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, da 1º Vara cível de Jundiaí, que resultou no cancelamento, é um tratado de fundamentalismo e preconceito.

“… muito embora o Brasil seja um Estado Laico, não é menos verdadeiro o fato de se obstar que figuras religiosas e até mesmo sagradas sejam expostas ao ridículo, além de ser uma peça de indiscutível mau gosto e desrespeitosa ao extremo, inclusive. De fato, não se olvide da crença religiosa em nosso Estado, que tem JESUS CRISTO como o filho de DEUS, e em se permitindo uma peça em que este HOMEM SAGRADO seja encenado como um travesti, a toda evidência, caracteriza-se ofensa a um sem número de pessoas”

Todas as situações de violência que passamos tiveram algo em comum: contestam a presença de uma travesti em cena interpretando Jesus.

Afirmar que a travestilidade da atriz representa em si uma afronta à fé cristã ou concluir, antes de assistir o trabalho, que é um insulto à imagem de Jesus é, do nosso ponto de vista, negar a diversidade da experiência humana, criando categorias onde algumas experiências são válidas e outras não, algumas vidas tem valor e outras não. São os discursos e práticas que tornam o Brasil um país extremamente desigual, e um território inóspito para quem vive fora da normatividade branca, cisgênera e heterossexual.

Desde sua estréia no Brasil a peça tem tido uma resposta do público muito positiva, lotando teatros e criando espaços de diálogo, resistência e encontro. Temos passado por diversos espaços culturais e festivais (Filo, Porto Alegre em Cena, Cena Contemporânea, Fiac). Instituições importantes da cultura como SESC, Itaú Cultural, Instituto Tomie Ohtake e outras também abraçaram o trabalho demonstrando disponibilidade em dar visibilidade aos temas que ele aborda. Também recebemos o apoio da Igreja Anglicana do Brasil.

Mas mais importante do que tudo isso, é o fato da peça ter se tornado dispositivo de debate sobre temas sociais urgentes, graças à sua capacidade de questionar mecanismos de opressão estruturais e institucionalizados.

Desde o início temos promovido instâncias de diálogo, educação e debate e buscado levar o trabalho não só a festivais e teatros centrais mas a locais descentralizados, carentes de programação cultural e que abrigam comunidades vulneráveis. Estivemos em prisões, abrigos, centros de acolhida, sedes de coletivos e ativismo, e estivemos na rua.

Conhecemos de perto a realidade de travestis e transexuais, e de outros grupos minorizados, e justamente por isso, fazemos constantemente um chamado à reflexão sobre a desigualdade gritante e naturalizada em que vivemos.

O Brasil é o país mais transfóbico do mundo. Diariamente travestis são espancadas e assassinadas sem que a mídia, a opinião pública ou o sistema de justiça reconheçam a gravidade e o inaceitável do fato. Estas pessoas vivem e morrem na invisibilidade.

Convido você, que está lendo isto, a escrever no google “travesti assassinada em ……….” (preencher com qualquer cidade do Brasil). O resultado vai ser sempre devastador, brutal e alarmante.

Houve uma grande mobilização e articulação para que o espetáculo pudesse ser cancelado, uma verdadeira estratégia reunindo diversos interesses e interessados e incluindo planejamento, timing e construção de narrativas. Censurar um espetáculo, em nome dos bons costumes, da fé e da família brasileira parece ser, para alguns fariseus, mais importante e prioritário do que olhar para a sociedade e tentar fazer alguma contribuição concreta para mudar o quadro de violência em que estamos todas e todos soterrados.

O espetáculo, escrito por Jo Clifford, busca resgatar a essência do que seria a mensagem de Jesus: afirmação da vida, tolerância, perdão, amor ao próximo.

Para tanto, Jesus encarna em uma travesti, na identidade mais estigmatizada e marginalizada da nossa sociedade. A mensagem é de amor. Mas é também queer e provocadora. Não é comportada nem se deixa assimilar. É de carne e fala de um corpo político, alterado, constantemente violentado e oprimido.

Mas também cheio de vida, alegria e potência. A Rainha Jesus contesta a tutela sobre os corpos, o patriarcado e o capitalismo. E abençoa a todos e todas por igual.

Renata Carvalho, ativista, atriz e travesti, convida para os próximos espetáculos.

No Viomundo

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