6 de set de 2017

Geddel é um homem honrado


O discurso de Marco Antônio sobre Brutus se aplica como uma luva ao ex-ministro que guardava R$ 51 milhões em malas

Corria o ano de 2011 e eu, então diretor da sucursal de Brasília, assinava a coluna “Brasil Confidencial” da revista "IstoÉ". Contava sempre com a colaboração dos colegas de redação no fechamento, para completar o número de notas. Numa dessas, Claudio Dantas me passou uma informação preciosa. Segundo ele, o deputado Geddel Vieira Lima foi derrotado na disputa pelo cargo de síndico no prédio em que passava os verões na praia de Arembepe. Perguntei se a fonte era quente e o repórter me garantiu que sim. Meses depois, o departamento jurídico da Editora Três me comunicou que Geddel entrou com queixa-crime contra a revista por difamação, alegando que a nota da coluna era mentirosa. Pedi ao Claudio que voltasse a consultar sua fonte e ele me garantiu que nada havia a corrigir. Dei o retorno para os advogados da empresa e nunca mais tive notícia sobre a tal ação. Não sei se houve um acordo ou se Geddel desistiu.

Agora, ao ver as já famosas malas de dinheiro com R$ 51 milhões, fico pensando na coluna “Brasil Confidencial”. Se foi tão zeloso com sua honra, a ponto de processar a "IstoÉ" por causa de uma notinha, imagino agora qual será a reação de Geddel Vieira Lima ao ser pego com mão na botija pela Polícia Federal. Dirá que só usava o apartamento do amigo para guardar bens de seu pai e que não sabe a origem dos milhões de reais? Vai se mostrar perplexo e indignado com a fortuna cuidadosamente acondicionada em notas de R$ 100 e R$ 50? Até ontem os advogados de Geddel nada disseram. Devem estar arrancando os cabelos para encontrar uma versão que não vá provocar uma gargalhada geral. De minha parte, para não sofrer o risco de ser novamente processado pelo ex-ministro, prefiro usar a frase de Marco Antônio sobre Brutus nos funerais de Júlio César, na célebre peça de Shakespeare. Cúmplice dos assassinos de César, Brutus era um homem honrado. Geddel Vieira Lima também é um homem honrado.

É sempre muito perigoso falar mal de políticos, mais ainda nos dias de hoje. Por mais que aprontem e cometam graves desvios, eles não aceitam críticas. E fazem de tudo para intimidar os jornalistas. Para não ficar apenas em Geddel, dou aqui outro exemplo. Em artigo no “Jornal do Brasil” , em 2001, sugeri que o Secretário da Fazenda, Tito Ryff, deixasse o governo Anthony Garotinho, que era alvo de várias denúncias. Lembrei que Tito era filho de Raul Ryff, que foi secretário de imprensa do governo João Goulart, e de Beatriz Bandeira Ryff, que dividiu cela com Olga Benário em 1936 e é citada no livro “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos. E recomendei que, em nome de seus pais, Tito pedisse demissão. Garotinho sentiu-se ofendido e me processou. Ganhou. Na sentença, o juiz não só deu direito de resposta ao governador do Rio como me proibiu de mencionar Garotinho em qualquer outro artigo, sob pena de arcar com uma multa de R$ 500 mil a cada infração. Só me restou obedecer a decisão judicial.

Se chegaram até aqui, caros leitores, que fique a lição. A exemplo de Brutus, nossos políticos são todos homens honrados.

Octávio Costa
No Ultrajano


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.