14 de set de 2017

Força da denúncia de Janot é delação de Funaro, não a de Joesley


Li as 245 páginas da denúncia apresentada por Rodrigo Janot contra Michel Temer, Eduardo Cunha, Henrique Alves, Geddel Vieira Lima, Rodrigo Rocha Loures, Eliseu Padilha e Moreira Franco e o que nela se percebe é que a delação de Lúcio Funaro deu a ela o que faltava em toda a história bandida que, já há tempos, sabe-se que marca o preço cobrado pelo PMDB para permitir que Lula e – durante algum tempo – Dilma Rousseff pudessem governar o país. Deu valores, datas, locais e recebedores de centenas de milhões de reais que eles cobraram por favorecimentos a  grandes grupos empresariais.

A denúncia se inicia com a velha cantilena dos “espaços” pedidos pelo PMDB a Lula, estendendo-se 18 páginas para reconhecer que, de outra forma não há como  um “governo conquistar ampla base política e de ter êxito na aprovação de suas medidas no parlamento. Alianças, negociações e divisão de poder são da essência da política e é dessa forma que usualmente se obtém maioria para governar.

Só depois é que a peça adquire musculatura, com a citação dos negócios feitos, os recebimentos efetuados, com datas, locais e identidade dos recebedores, além de documentos que mostram as transferências de valores para o exterior.

Para os acusados que ainda estão soltos (além de Temer, apenas Moreira Franco e Eliseu Padilha) é um festival de indícios, inclusive na profusão de contatos telefônicos e cibernéticos sobre os desvios que lhes  são imputados. Se fosse no governo do Sudão, a esta hora, Moreira e Padilha seriam ex-ministros.

Quanto a Temer, que só pode ser processado por crimes ocorridos no exercício da Presidência, aí é que entram as gravações/delações da JBS, para provar que a organização criminosa que ele chefiava continuou ativa depois de sua ascensão ao poder e que estimulava a distribuição de “cala-bocas” a Funaro e Cunha.

Em relação a ele, a novidade é desenhar, com nitidez, o “conjunto da obra” da quadrilha que comandava.

Em meio a esta sordidez descrita, sobra sordidez àquele que a descreve. Janot vale-se de um suposto acordo que, por interferência de Temer, a atual direção da Petrobras teria firmado com a termelétrica dos Batista para achar um “vínculo” com o “escândalo da Petrobras” que lhe permitisse buscar a prevenção de Sérgio Moro para processar os dois “ex-colaboradores” Joesley Batista e Ricardo Saud.

Um “troço” jurídico indescritível, que faria o juiz de Curitiba prevento para todo e qualquer ilícito que acontecesse na empresa, até o final dos tempos. Só mesmo se o Supremo Tribunal Federal estiver mais acoelhado diante de Moro do que já se sabe que está (daqui a pouco mostro um lance pitoresco que o ilustra) para aceitar a tese absurda.

É apenas o retrato da pequenez demagógica de Rodrigo Janot, que busca com isso garantir a interdição permamente de Batista e Saud, graças as “alongadas prisões de Curitiba”e, quem sabe, se proteger dos “rabos” que sua desastrada negociação com eles deixou.

Temer tem o escudo da maioria, ou pelo menos um terço, da Câmara. Mas o que resta do seu “núcleo duro”, Moreira e Padilha, ficam em situação insustentável.

Fernando Brito
No Tijolaço

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