10 de set de 2017

Deslumbramento

O deslumbramento no rosto do primeiro agente da Polícia Federal a ver as malas e caixas de dinheiro naquele apartamento em Salvador tem precedentes no cinema e na literatura.

É igual ao de quem encontrou os baús cheios de moedas de ouro e joias na ilha secreta do pirata Barba Negra. Ou o de quem entrou na caverna de Ali Babá e viu o produto da rapinagem dos 40 ladrões. Ou o deslumbramento do Conde de Monte Cristo ao se deparar com a fortuna que lhe permitirá viver como um nobre em Paris enquanto arquiteta sua vingança.

Nos filmes policiais são frequentes as cenas em que abrem uma mala para revelar que ela está cheia de dinheiro, e um murmúrio de espanto e cobiça corre pela plateia.

Mas em Salvador não era uma mala cheia de dinheiro. Eram várias malas e várias caixas.

Como nos casos das fortunas descobertas em ilhas e cavernas secretas nas histórias e nos filmes, o que espanta na fortuna de Salvador é o volume. Você e eu nunca vimos tanto dinheiro junto.

O volume de dinheiro encontrado em Salvador nos permitiu ter uma amostra do que só conhecíamos de ouvir falar: as grandes somas movimentadas pela corrupção nacional, que existiam, nas nossas cabeças, apenas como números frios e impalpáveis.

Podíamos imaginar um monte de dinheiro acumulado por 40, ou 400, ladrões, mas nos resignávamos a jamais conhecê-lo, por assim dizer, pessoalmente. E no entanto, lá estavam 50 milhões dos bilhões da corrupção, embrulhados, à vista, fotografados, reais (e dólares) de verdade. Uma imagem para a História.

O dinheiro vem perdendo sua razão de ser em todo o mundo, substituído por impulsos eletrônicos e cartões de plástico. Mas a corrupção brasileira tem um apego nostálgico às notas.

Dizem que brasileiros com contas na Suíça são conhecidos porque são os únicos que, periodicamente, pedem para ver seu dinheiro e saber se ele está bem.

Aqui, ainda não se sabe para quem era aquela mala com 500 mil que não chegou ao seu destino, mas era, certamente, alguém que preferia notas por razões sentimentais.

Não se sabe de onde vinha e para onde ia a dinheirama de Salvador, mas ninguém pensou na possibilidade mais generosa, a de que Geddel simplesmente coleciona cédulas como hobby.

A explicação não é corrupção, não é nada do que estão pensando. É numismática.

Luís Fernando Veríssimo

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