25 de set de 2017

Desagregação e Fascismo

O ministro Moreira Franco em anúncio do projeto “Rio de Janeiro a Janeiro”
Hoje, ter informação não é mais sinônimo de deter o poder. Informação entra pelos poros, pelas narinas, pela explosão de multitelas, multiplataformas, em sua íris ou pelo ouvido. A partir dali, são insondáveis os caminhos percorridos até o processamento final. Mas uma certeza não é vã: há que haver base para extrair dela, da informação, a substância capaz de fazê-lo olhar para frente e seguir como sujeito da História, e não como conjunção acessória.

Ter algum poder, até o poder de decidir não fazer nada e quedar-se resignado, é saber como costurar o mosaico de inputs que lhe chegam pelo smartphone, pela web, pelos veículos tradicionais de comunicação, pela conversa tête-a-tête que jamais deixou de valer a pena, pela leitura dos analistas certos no momento adequado. O Brasil do último fim de semana nos brindou com o momento ideal para fazê-lo.

No domingo (24.set.2017) uma facção liderada pelo publicitário Roberto Medina e pelo secretário-geral da Presidência da República, Moreira Franco, tentou tomar de assalto a cena dantesca de um Rio de Janeiro conflagrado em meio a tropas ocupando ruas com blindados e armamento de guerra e disputas por morros entre traficantes. Viciados em propaganda com dinheiro público e sem nada mais a oferecer senão verbas do erário da propaganda oficial, Medina&Moreira anunciaram um “Calendário de Atividades Turísticas” para “reeguer” o Rio ao custo de R$ 200 milhões.

Sócio da Artplan, agência de publicidade que contém uma empresa de eventos e inventou o Rock in Rio, além de deter diversas contas publicitárias federais administradas por Moreira Franco, o velho Medina fez o que sabe fazer como poucos: vendeu ilusões, cobrando caro e com cliente certo a bater à porta como associado – a mídia tradicional, fissurada em verbas de divulgação sobre o nada.

Alguns amigos pessoais foram a essa edição provecta do Rock in Rio, festival que perdeu o elã de plataforma de lançamento do país para o futuro, ao trazer para cá as vozes e os acordes da contemporaneidade. A rave de Roberto Medina e de sua família virou, na verdade, uma espécie de “Almoço com as Estrelas” em que ele – um Chacrinha engomadinho – faz as vezes de Airton Rodrigues (marido de Lolita Rodrigues, apresentador original da atração) e faz questão de confundir e não de explicar como o Abelardo Barbosa d’antanho. A soldo e a tiracolo, Moreira Franco, o ex-adepto do maoísmo que se crê intelectual orgânico do Palácio do Planalto – um deserto onde não floresce nem joio, nem trigo. Quiçá intelectuais…

Ao passo que o Rio de Janeiro da vida real se fechava em casa com medo da guerra de facções que desceu o morro e se embrenhou nas matas por onde bandidos podem acessar diversos bairros da cidade, o Rio de Janeiro edulcorado de Medinas, Moreiras e de João Doria (que esteve lá, como pretendente a candidato presidencial) botava a língua de fora e posava com as mãos em gestos ridículos de polegar, indicador e mindinho estendidos – como se o mundo fosse “roquenrou”. Não é.

A coisa mais estúpida que li no post de alguém, numa rede social, foi a decretação de que eram cidades apartadas – a do Rock in Rio e da guerra nas favelas.

Só alguém desprovido da capacidade de se indignar pode aceitar que este ano se estima o registro de 60.000 homicídios no Brasil. E em outros 115 países – entre eles EUA, Rússia, China, Canadá, todas as Nações do continente europeu, somados, terão média de homicídios igual à brasileira. Estou a falar de uma cifra abaladora e desabonadora. Estamos a ter de lidar com uma verdadeira desagregação social.

Não só o Rio é uma cidade partida. São Paulo o é. Recife, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Goiânia, Vitória, Manaus, Belém, Porto Alegre estão partidas. E mesmo Caruaru (PE), onde um apresentador da Rede Globo local levou um tiro na cabeça proveniente de bala perdida, ou Crateús (CE), onde assaltos a banco viraram rotina. Brasília, outrora ilha de tranquilidade, é já uma metrópole a padecer dos mesmos males da maré de violência e insegurança. O país naufragou na ausência absoluta de um projeto de união nacional e os que nos oferecem os áulicos palacianos – aqui, Moreira e seu escudeiro Medina a pilotar a facção propagandística desse último domingo em terras cariocas – é um Calendário Turístico”?

Ao cimentar as pedras do mosaico e dar contorno de mapa mental às informações dispersas no jorro de notícias dos últimos dias é patente a constatação da chegada do Brasil a um ponto de inflexão: cairemos numa aventura, e isso será doloroso.

Lutar contra a usurpação do poder por um grupo que tomou de assalto o Palácio presidencial, como ora ocorre, é uma coisa. Brigar até os estertores das regras democráticas para que a sucessão de uma trupe ilegítima se dê na direção de quem não tem compromissos com a democracia – como Bolsonaro, Mourão e, em alguma medida, Doria – é do jogo e está dentro do razoável. Imaginar, contudo, que um desses possa via a ser legitimado pelo voto é impensável. Mas não é impossível. Além disso, caso desabe essa tempestade sobre a vida nacional, ela não se daria sem a vitória nas urnas estaduais de um ou outro candidato a governador que reze na cartilha bestial desses proto-políticos.

A ascensão legítima ao poder de qualquer um desses nomes do trio-que-baba-e-rosna tornar-se-ia o reagente a provocar a desagregação definitiva de nossa sociedade.

Enxergo, contudo, uma nesga de saída constitucional: a mudança abrupta, imediata, do poder formal – fazendo-o sair do grupo que hoje está no Planalto e devolvendo-o ao caminho sucessório constitucional. Isso faria a ordem regressar, sem necessariamente desfazer a violenta ruptura institucional experimentada pelo impeachment de 2016. Só uma injeção de legitimidade e restauração, fazendo a fila andar e a faixa simbólica da Presidência passar às mãos do Parlamento onde há eleitos, embora não o tenham sido para tal, será capaz de interromper a escalada do país na direção do abismo. Ele é visível no horizonte, está à extrema direita do cenário. Só não o vê quem não quer.

Luís Costa Pinto
No Poder360

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