13 de set de 2017

Da Tradição, Família e Propriedade ao MBL: a pátria da ‘suruba’ está sendo violentada intelectualmente


Herdeiros do grupo político-religioso Tradição Família e Propriedade (TFP), os líderes do Movimento Brasil Livre (MBL) aproveitaram a superficialidade das reivindicações que pegaram carona nas Jornadas de Junho de 2013 para colocar em curso o seu projeto de doutrinação ideológica. O grupo teve papel decisivo na “sacanagem política” que levou ao afastamento definitivo de Dilma Rousseff (PT) da presidência da República. É formado por jovens que há pouco saíram da puberdade, canalizando toda sua energia sexual no combate ao que identificam, genericamente, como “a esquerda”, sobretudo, a que julgam estar identificada com o “petismo” e o “lulismo”. Aliados políticos de Eduardo Cunha (PMDB) –  e financiados por partidos como o PMDB, o PSDB e o DEM –, os meninos do MBL refletem perfeitamente uma sociedade pautada pelo falso-moralismo, que está sendo violentada, diariamente, pela classe política, mas não tem coragem de denunciar seus verdadeiros agressores.

Em um país em que um senador compara o direito ao foro privilegiado a uma “suruba” – após admitir ter sido organizado um golpe parlamentar-jurídico para destituir uma presidente legitimamente eleita – “com o Supremo com tudo” – uma exposição intitulada “QueerMuseu: Cartografias das diferenças na arte brasileira” só poderia ser considerada obscena. A TFP dos dias de hoje – vulgarmente conhecida por MBL – tomou para si a responsabilidade de denunciar tal “perversão”. Mobilizou-se, nas redes sociais, para acabar com a “sacanagem toda”. Não! Não me refiro à “suruba” do Jucá e sim à exposição de arte, que traz obras Portinari, Volpi, Flávio de Carvalho e Ligia Clark.

Repaginada, a TFP/MBL se diz “liberal”, mas entre seus pares estão jovens confusos, que têm seus “rendimentos” pagos pelos pais ou pela própria máquina do Estado. Só nas últimas eleições já emplacou pelo menos sete vereadores e um prefeito. Estado mínimo? Só se for para os outros. Consideram-se entendidos em disciplinas importantes – como história e economia –, mas utilizam-se de fontes sem a mínima credibilidade entre os próprios “pensadores da direita brasileira” para “referendar” suas falácias. Por isso, constantemente são  ridicularizados por figuras do seu mesmo espectro ideológico, como o caricato e folclórico Olavo de Carvalho. Defendem o “fim da doutrinação” pregando, abertamente, uma cartilha política e econômica que, haja vista suas posições – ou a “falta delas” –, demonstram desconhecerem profundidade. O liberal Luiz Inácio Lula da Silva teria muito a ensiná-los, mas, como garotos mimados que são, jamais dariam o braço a torcer para ouvi-lo. Uma lástima, pois poderiam perceber que, na prática, o governo petista aplicou justamente a política econômica que eles dizem defender.

Aliás, eles dizem ter solução para tudo nesse país. Menos para resolver as suas próprias contradições. Temer e Aécio estão soltos. Impunes! Seriam os seus “bandidos de estimação”? Geddel “estaria do lado do Brasil” (leia-se do MBL), por ocasião dos ataques à EBC, durante o governo Dilma, mas, hoje, foi defenestrado pelo movimento. Está esquecido! Atirado à própria sorte. É assim que o movimento começa a “sair do armário”. Os que se dizem “apartidários” revelam-se, na verdade, profissionais da “suruba” legalizada. Não possuem nenhum pudor. Mas apresentam-se como moralistas beatificados pela mão invisível do “Deus Mercado”. Jamais teria sido possível entregar o país a investidores estrangeiros, retirando direitos trabalhistas e, em breve, previdenciários, sem uma base de sustentação legitimada pela sociedade civil. Foi assim, também, em 1964, quando os militares tomaram de assalto o poder, levando a uma ditadura que ceifou vidas e cometeu crimes bárbaros – como estupros – em nome do combate à “ameaça vermelha”. A TFP tem participação decisiva para a chegada dos generais/torturadores ao poder.

Não se engane! O doutrinador mais perverso é o sádico. Haviam muitos deles, na época do regime militar, abusando de jovens militantes grávidas em nome do “combate ao comunismo”. É fácil identificar um falso-moralista. Ele se diz “livre” de qualquer amarra política e ideológica para, sorrateiramente, impor, como natural, a sua visão de mundo. Não importa que, em sua vida privada, “use e abuse” da máquina pública, que tanto diz condenar. A liberdade dos outros não “acaba onde começaa deles”. Ela simplesmente não existe!Defendem a privatização do acesso à cultura, à educação, à saúde, mas, seem algum desses âmbitos, estiver sendo tratada umaorientação sexual, política ou ideológicaque contraponha-se adeles, reivindicamuma certa “autoridade metafísica”para legitimar suas obsessões autoritárias. O momento é propício a isso. Precisam – a todo custo – retirar o foco dos que estão a estuprar a pátria, com transmissão ao vivo e em horário nobre, pela emissora que transformou uma artista pornô em “rainha dos baixinhos”.

Eduardo Silveira de Menezes, é jornalista e doutorando em Letras pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel)
No Sul21

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