23 de set de 2017

Com segunda votação de Temer a caminho, Aldo Rebelo entra no PSB e especulações sobre chapa de “união nacional” disparam


A confirmação de que o ex-comunista Aldo Rebelo vai se filiar ao PSB na próxima terça-feira deu início a um frenesi de especulações nas redes sociais sobre um acordão nacional pelo qual ele seria candidato a vice numa chapa encabeçada por Rodrigo Maia, do DEM, em eleições indiretas no Congresso.

Pela proximidade que Aldo desenvolveu com os militares quando foi ministro da Defesa no governo Lula, o ex-comunista é apontado como articulador de uma chapa tutelada pela caserna cujo objetivo político principal seria o de superar o racha histórico entre varguistas e anti-varguistas no Brasil.

Aldo também foi ministro da articulação política de Lula e presidente da Câmara dos Deputados. Ele é palatável para a maior bancada do Congresso, a do agronegócio, já que militou pelo novo Código Florestal e em defesa do interesse dos latifundiários.

Em julho, num manifesto convocando à “união nacional”, ele ofereceu algumas pistas aos kremnologistas —  os leitores dos bastidores de Brasília — sobre as prioridades do pós-Temer.

No texto, que poderia muito bem ter sido formulado num think tank militar, a “missão” é apresentada:

Hoje, nos marcos da economia globalizada e com o País em condições mais favoráveis que no passado, temos a missão de iniciar um novo projeto nacional, o quinto movimento, em três direções e três objetivos: 

1) ampliar a soberania nacional com o pleno desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e dos meios de defesa do País; 

2) elevar a qualidade de vida do povo brasileiro com a redução das desigualdades sociais; proteção da infância e da maternidade, acesso à educação de qualidade, saúde e saneamento básico; combate sem tréguas ao crime organizado e valorização da segurança pública contra o banditismo em todas as suas formas; 

3) fortalecer a democracia e a tolerância na convivência entre os brasileiros, com realização de uma reforma política que liberte nosso sistema político do controle de interesses corporativos e oligárquicos e assegure o predomínio dos grandes debates dos temas nacionais na esfera pública. 

A crise nacional acontece em meio a um quadro global de mudança de época, marcado por: 

a) agravamento das consequências socioeconômicas negativas da globalização dirigida pelas finanças especulativas internacionais; 

b) alteração do eixo geoeconômico mundial para a Eurásia-Pacífico; 

c) emergência de um cenário de poder multipolar, em contraposição à unipolaridade do período posterior ao fim da Guerra Fria; 

d) novas revoluções científicas e tecnológicas e rápida introdução de tecnologias inovadoras (Quarta Revolução Industrial), com profundos impactos sobre as formas de produção de bens e serviços, níveis de emprego, relações de trabalho, qualificação da força de trabalho e as próprias relações sociais em geral. 

Mas é mais adiante que o input da caserna fica mais delineado: fortalecimento das Forças Armadas, indígenas tutelados na tradição do marechal Rondon e ‘colonização’ da Amazônia nos moldes de uma ocupação humana tradicional sempre foram pontos-chave na cartilha dos militares.

Leiam:

As Forças Armadas são instituições fundadoras da nacionalidade e do Estado Nacional e cumprem a dupla missão de defender e construir o País. Do programa nuclear ao nosso primeiro computador, da pesquisa espacial, indústria aeronáutica e defesa cibernética, as instituições armadas têm cumprido papel de vanguarda e pioneirismo. Cumprem missão humanitária socorrendo os índios e ribeirinhos da Amazônia ou as vítimas da seca no sertão nordestino sem perder o etos de organização de combate e de defesa da Pátria.

Portanto, é preciso valorizar e reconhecer as Forças Armadas brasileiras, seus feitos e seus heróis, seus valores, patriotismo e elevado espírito de generosidade e solidariedade para com a comunidade. Tal atitude deve ter sentido educativo para as crianças e para a juventude exposta ao ambiente de corrosão dos valores da nacionalidade com que convivemos no dia a dia.

A política ambiental deve refletir um real compromisso com o desenvolvimento sustentável do País, em vez de simplesmente se enquadrar em agendas formuladas por atores e interesses externos. Entre outras prioridades, deverá enfocar as deficiências em saneamento básico, disposição de lixo, ocupação irregular de áreas de risco, e a ampliação da infraestrutura de previsão e resposta a emergências causadas por fenômenos naturais.

Da mesma forma, é preciso uma urgente redefinição da política para as populações indígenas, compatibilizando-a com o direito de toda a população a uma evolução civilizatória digna, respeitando-se as suas tradições culturais e sua contribuição decisiva para a constituição da identidade nacional. Somente assim será possível assegurar-lhes uma integração gradativa à sociedade nacional, como cidadãos plenos e aptos a dispensar, eventualmente, a tutela permanente do Estado.

Alvo de pressões e cobiça internacional, a Amazônia clama por ações efetivas de controle e afirmação da soberania sobre seu imenso território, e por políticas públicas de estímulo e apoio ao seu desenvolvimento e de proteção de suas populações indígenas e ribeirinhas e da biodiversidade.

Mas, por que os congressistas votariam em uma eventual chapa Maia-Rebelo?

Por causa deste trecho do manifesto (íntegra aqui):

O combate à corrupção deve ser um objetivo permanente da sociedade e do Estado, mas não se pode paralisar o País a pretexto de se eliminar um mal que é endêmico nas economias de todo o mundo. 

Em linguagem cifrada, é a promessa de que combater a corrupção é prioridade, mas não do jeito escandaloso e paralisante como vem sendo feito por MPF e Polícia Federal na Lava Jato.


São instituições muito jovens, que não sabem o que é o país, não têm conhecimento da história e consideram o combate à corrupção algo absoluto sem qualquer relação com nenhuma outra atividade social, o emprego, a economia, o interesse nacional. Aliás, o Ministério Público celebra, à margem da lei, uma série de convênios de cooperação com instituições internacionais, que deviam ser monopólio do Poder Executivo. Eu fiquei muito tempo no Congresso, vi coisas absurdas, de agentes de segurança, policiais federais, delegados que recebiam dinheiro na própria conta de agencias internacionais de combate ao tráfico, com a agência norte-americana.

O senhor acha que por trás do impeachment havia esse interesse de entrega do patrimônio brasileiro?

Depois do pré-sal os americanos rearticularam uma frota para vigiar essa parte do Atlântico, o Brasil passou a figurar como um grande protagonista, player na área de energia. Há gente bem informada que julga que os elementos, as gravações que deram origem a esse processo, sequer foram feitos por instituições nacionais, foram colhidas de alguma forma pelos métodos que levaram à gravação da presidente do Brasil, da primeira-ministra da Alemanha e depois repassados de alguma maneira para que esse processo fosse desencadeado. Há méritos do combate à corrupção – isso precisa ser reconhecido e valorizado. Mas não se pode fechar os olhos para a destruição da economia, de empregos, da ciência, tecnologia.

As especulações ganharam força porque:

1 - Rebelo disse que iria para o PSB na “hora certa”;

2 - As manifestações de chefes militares nos últimos dias podem ser entendidas também como um fora Temer;

3 - Rodrigo Maia ameaçou Temer com uma rebelião logo agora, que a segunda denúncia contra o usurpador chegou à Câmara, usando como desculpa quizílias partidárias de segunda ordem;

4 - Temer publicou um vídeo espantoso nas redes sociais, prometendo ‘resistir’ no tom de um Nixon ou Collor. Ele fala que é vítima de uma conspiração. Pode ter razão. É importante lembrar também que o Brasil institucional sempre abominou o povão e preferiu resolver as coisas em conchavos de bastidores.



No Viomundo

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