23 de set de 2017

Carta aberta à querida procuradora do doutor Sérgio Moro


Querida Isabel Cristina Groba Vieira:

Tomo a liberdade de lhe chamar de “querida”, ressalvando que com todo respeito, assim como fez o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva no interrogatório do doutor Sérgio Moro. Quero apenas lhe dizer que somos brasileiros de outra categoria, não nos importamos com esses detalhes. Tanto que Lula acatou imediatamente o pedido do juiz, um perfeito representante da sua laia, para que lhe chamasse de “doutora”, ou “senhora procuradora”.

Querida, você me fez lembrar do juiz Antônio Merreiros, de São Gonçalo (RJ), que em 2005 entrou na Justiça exigindo ser tratado por “senhor” ou “doutor” pelos porteiros do prédio onde morava e ganhou a causa. Se um porteiro tivesse a pachorra de chamá-lo de “você”, teria de pagar multa de cem salários mínimos. Não sei o resultado do processo, mas o relevante é que Merreiros (doutor Merreiros, desculpem) teria dito: “Doutor é uma palavra que significa pessoa formada e é assim que quero ser chamado.”

Antes de comentar o sentido da notícia, preciso esclarecer, embora sucintamente, o conceito de “doutor”. Não para você, querida, que, do alto da sua arrogância, sabe muito bem disso. Segundo o doutor Cláudio Moreno, do site Sua Língua, só pode ser chamado assim aquele que cumpriu as etapas constantes no curso de doutorado, incluindo a defesa de uma tese original diante de uma banca composta por cinco outros doutores. Fora do mundo acadêmico, ainda segundo o doutor Cláudio Moreno, são também chamados de “doutores” os médicos e os advogados. Isso deve ser resquício do ensino colonial, diz ele, quando os jovens brasileiros abonados iam à Europa estudar medicina ou direito.

Em um ambiente em que historicamente pouca coisa acontece sem a marca da discriminação social, “doutor” também é qualquer um com algum estudo ou cuja aparência sugira que pertence às classes dominantes. É o “doutor” falado por guardadores de carro, porteiros de cinema, vendedor dos semáforos. Como você, querida, muitos desses “doutores” agem como se o simples fato de ostentar símbolos de poder desobrigasse alguém de prestar contas, a si mesmo ou à sociedade, dos passos que executa.

O seu caso, querida, assim como o do juiz carioca, é mais um exemplo dos que se beneficiam da fragmentação que fomenta o caos e exorciza a harmonia social em nosso convívio. Essa sua arrogância tem origem no passado escravagista do país. Não é novidade — como você bem sabe, querida — que as classes dominantes querem perpetuar a indolência nacional — que existe mais na mitologia do que na realidade — como reflexo de seu modo de vida calcado na ideologia escravocrata. Vocês veem a grande massa de brasileiros pobres como seres primevos por sermos negros, índios, mestiços, despossuídos a ponto de não termos direito sobre o próprio corpo e cuja vida deve ser definida pelo trabalho cruciante e pelos suplícios impostos pelos patrões. Vocês, querida, querem a nossa submissão como sucedânea da lei.

Mas você também sabe muito bem, querida, que isso é uma anomalia no Estado democrático, herança asquerosa de um país que manteve a escravidão até as barbas do século XX — caso único no mundo —, o que fez essa ideologia impregnar a carne de vocês. É por isso que há entre os dois extremos sociais brasileiros uma desconfiança recíproca, uma indisposição a selar pactos, uma oposição natural a qualquer tentativa de organização conjunta, nacional. Ainda está muito vivo no inconsciente coletivo do país, querida, o sentimento de que a política e a Justiça obedecem sempre a interesses minoritários e poderosos, de que Estado é sinônimo de opressão, de que pactos nunca favorecem o cidadão comum.

Em dois ou três séculos, pouco mudou na essência do modo como vocês e o povo se veem e se relacionam. Sua laia, querida, continua abusando do seu poder inchado, sabotando a trama social existente no país e nutrindo ódios de classe. Nós, o povo, continuamos lutando com todas as forças pela sobrevivência, enquanto vocês nos querem confinados no rodapé da pirâmide social, com um controle à base do extermínio regular de muitos dos nossos. Brasileiros da sua laia, querida, não temem a lei: ou saltam a barreira ou passam por baixo. Poucos se detêm na fronteira do direito.

É fácil compreender essa situação, querida, se percebermos que há apenas pouco mais de sete décadas — aí pelos anos 1930 — começamos a projetar de fato o rompimento com a herança da sua turma que impregna a alma do país, debatendo e aperfeiçoando um projeto contemporâneo e factível de sociedade. Sofremos muitos reveses e, por isso, o projeto democrático de sociedade ainda é algo que está para florescer no Brasil. E, na mesma medida, a construção de uma sociedade coesa, fundada na ética, disposta a erigir sistemas que sustentem a longo prazo o desenvolvimento econômico e a justiça social. Assim como Lula, nunca desistiremos dessa luta, querida!

Abraço!

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