4 de set de 2017

A traição do Cabo Anselmo


O livro "O Massacre da Granja de São Bento", do jornalista pernambucano Luiz Felipe Campos, traz informações inéditas sobre a operação que praticamente jogou por terra as ações da guerrilha urbana no país e esmiúça o massacre de guerrilheiros traídos pelo Cabo Anselmo. É um livro que precisa ser lido, principalmente pelos mais jovens, para que tomem conhecimento do submundo da ditadura militar. É um precioso documento.

Um dos mais bem guardados segredos da ditadura militar começa a ser desvendado com a publicação do livro "O Massacre da Granja de São Bento", do jornalista pernambucano Luiz Felipe Campos, lançado na semana passada.

A obra reconstitui, por meio de documentos e relatos de personagens da época, como o agente duplo Cabo Anselmo, o "Kimble" para os órgãos de repressão, atraiu para Pernambuco o maior número possível de militantes para a emboscada executada por Fleury. O jornalista pesquisou o assunto durante cinco anos no Brasil, no Chile, no Uruguai e na Argentina e entrevistou mais de 50 pessoas para escrever o livro.

No massacre de 8 de janeiro de 1973, seis militantes da VPR foram assassinados por agentes da ditadura, por meio da colaboração direta de Cabo Anselmo: os corpos de Pauline Reichstul, Soledad Barrett (companheira do próprio Anselmo), Jarbas Pereira Marques, Eudaldo Gomes e José Manoel da Silva foram encontrados com um total de 32 tiros, sendo 14 na cabeça. Eles haviam sido presos um dia antes de os corpos serem encontrados.

A operação foi comandada pessoalmente pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury que chegou até os guerrilheiros pelas informações do agente duplo, o marinheiro José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo.

Cabo Anselmo ficou conhecido por protagonizar uma revolta de marinheiros em março de 1964 -episódio que foi um dos pretextos usados pelos militares para o golpe de Estado daquele ano. Hoje, documentos que começam a ser revelados indicam que já nessa época, Anselmo era informante dos órgãos de repressão, especialmente do DOPS paulista e do delegado Fleury.

Jurado de morte por todas as organizações guerrilheiras, ele se submeteu a uma cirurgia plástica. Por causa da Lei da Anistia, Cabo Anselmo nunca foi julgado por sua colaboração à ditadura.

Em maio de 2012, a Comissão da Anistia do Ministério da Justiça negou o pedido de reparação do ex-marinheiro. "A Comissão foi integrada exclusivamente por pessoas filiadas à ideologia marxista. Foi uma 'ação entre amigos' privilegiando os militantes e ideólogos da ditadura comunista", afirmou, na época, o Cabo Anselmo.

Hoje, Cabo Anselmo, afirma não sentir culpa pelo que fez. Mais do que isso, diz que já foi "anistiado" por Deus. "Colaborei com o Estado legal, com a pátria, com a nação, consciente de que a Ditadura do Proletariado ou qualquer ditadura é contrária à liberdade. A motivação maior foram valores cristãos incutidos na infância", afirmou Anselmo, em entrevista ao UOL.

Após o fim do trabalho para os órgãos de repressão, ele afirma ter sido ajudado durante somente quatro anos por empresários amigos, com os quais ainda mantém contato. Jurado de morte por todas as organizações guerrilheiras, ele se submeteu a uma cirurgia plástica, arranjada por Fleury.

Depois disso, Anselmo voltou a prestar serviços à repressão pelo menos uma vez. Encapuzado, palestrou para um grupo de militares sobre técnicas de guerrilha, mostra o livro. Montou também uma consultoria, na qual ajudava clientes a identificarem tendências políticas consideradas subversivas em seus funcionários.

Além desse massacre em Recife, o Cabo Anselmo entregou para a repressão e a morte praticamente todos os militantes das organizações de guerrilha urbana que conheceu durante os treinamentos em Cuba. Além disso, o simples fato de conhecer os ter contato com Anselmo era uma sentença de morte para os órgãos de repressão, que queriam a qualquer custo manter sigilo sobre o informante.

Esse foi o caso do ex-marinheiro Edgar Aquino Duarte, o Ivan, que conheci durante minha passagem pelo DOI-CODI de São Paulo, em maio de 1972. Nessa época, Ivan ficava no X -3, uma das celas da carceragem coletiva do DOI-CODI, junto com outros presos e nunca era chamado para interrogatório.

Operador da Bolsa de Valores e na época sem militância política, ele foi preso em 13 de junho de 1971, em seu próprio apartamento, na Martins Fontes, 268, apto 807, São Paulo, por agentes do DOPS/SP, em operação conjunta com o DOI-CODI/SP. Esteve preso por mais de dois anos, incomunicável. Incialmente esteve preso no DOPS-SP, em cela solitária do “fundão”; em seguida foi para o DOI-CODI/SP. Foi visto pela última vez no DOPS - SP em 22 de Junho de 1973.

Meses antes de ser preso, em 1971, Edgar encontrou-se com Cabo Anselmo, que havia acabado de retornar de Cuba, e, atendendo ao pedido de Anselmo, que havia atuado com Edgar na revolta dos marinheiros, em 1964, acolheu-o em seu apartamento, sustentando-o com o salário de corretor da bolsa de valores. Por isso, foi morto e consta da lista de desaparecidos.

Morreu simplesmente por conhecer o Cabo Anselmo e saber que ele era agente infiltrado.

Durante um dos seus interrogatórios, um de seus algozes bradou: “Você mexeu com segredo de Estado. Você tem que morrer”.

Em 2012, o Ministério Público Federal denunciou à Justiça Federal em São Paulo, o coronel da reserva Carlos Brilhante Ustra, já falecido, pelo crime de sequestro qualificado, acusado de sequestrar Edgar de Aquino Duarte, em junho de 1971.

Lançar luz sobre a tenebrosa história do Anselmo José dos Santos e seus crimes é uma forma de preservar a memória dos tempos de chumbo da repressão política no Brasil, para que isso nunca mais aconteça.

Pena que os crimes do Cabo Anselmo e de outros agentes do Estado envolvidos com a repressão, a tortura, o assassinato e o desaparecimento de militantes políticos continuem impunes.

Moacyr Oliveira Filho - Moa
No Ultrajano

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