25 de set de 2017

21 pontos para entender a crise nas Forças Armadas

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2017/09/25/a-fumaca-nao-e-de-cigarro-21-pontos-para-entender-a-crise-nas-forcas-armadas/


O blogueiro passou o final de semana conversando com pessoas que têm ou tiveram relações muito próximas com as Forças Armadas nos últimos anos, em especial nos governos Lula e Dilma. Desde parlamentares que atuam ou atuaram em comissões da Câmara e do Senado, onde é necessário negociar com militares, passando por ex-ministros que estiveram em áreas de interesse direto ou indireto do setor.

Todos, por motivos diferentes, aceitaram falar apenas em off. Em geral, o argumento era de que precisavam manter as pontes que tinham para ajudar na solução da crise.

A partir dessas entrevistas, o blogueiro listou 21 pontos que considera importantes para entender o que se passou na semana passada e o que ainda pode vir.

1 — Todos os entrevistados concordam que o governo Temer perdeu o respeito dos militares e que há um imenso constrangimento de ter um presidente tão corrupto e impopular como chefe das Forças Armadas.

2 — Que em boa medida essa insatisfação se ampliou por conta dos cortes orçamentários que teriam afetado projetos estratégicos tanto no Exército, como na Marinha e na Aeronáutica. Esses projetos são considerados muito importantes para a soberania nacional.

3 — Os cortes da política fiscal de Temer também impactaram sobre bonificações e gratificações dos militares, além de também ter diminuído recursos para o básico, como compra de fardas e munições.

4 — Que há uma diferença entre a insatisfação no Exército e nas outras forças. E que a situação no Exército é mais tensa.

5 — Que no Exército há uma disputa antiga entre uma linha mais dura e outra mais profissional. E que a primeira deve ter ganhado força tanto por conta da crise como por conta da debilidade física do comandante Villas Bôas, que tem uma doença degenerativa. A sucessão para o seu cargo já está aberta.

6 — De alguma forma, todos entrevistados também concordam que o nacionalismo nas Forças Armadas tem sutilezas. Ele não deve ser entendido como um espaço de resistência, por exemplo, contra as reformas neoliberais e a entrega do patrimônio nacional. Isso não está no centro das preocupações dos militares. Ao contrário, a entrevista à Revista Exame do general Sérgio Westphalen Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, é clara. Ele defende as privatizações inclusive do setor elétrico.

7 — Em relação a Etchegoyen, que é hoje uma das pessoas mais fortes do Exército atualmente, ele tem uma mágoa pessoal da esquerda e em especial de Dilma e do PT. Isso de deve ao fato do nome do seu pai ter sido incluído na lista da Comissão da Verdade.

8 — Com exceção de um dos entrevistados, que se mostrou mais preocupado, a ampla maioria acha que o sinal amarelo de fato acendeu com as declarações do general Mourão, mas que ainda há muito espaço para o diálogo antes de uma crise mais aguda.

9 — A despeito de no episódio terem aparecido com destaque os generais Mourão e Heleno, que já está na reserva, além do Comandante Vllas Bôas, uma das fontes alerta para que se fique atento com os movimentos do Chefe do Estado Maior do Exército, o general Fernando Azevedo e Silva. Ele tem grande poder sobre a tropa.

10 — Outra coisa que é consenso é que a despeito de Mourão ser uma pessoa especialmente dura e já ter expressado opiniões polêmicas em outros momentos, tendo sido inclusive punido, dessa vez ele não falou apenas por ele.

11 — Uma das fontes chama atenção para esta entrevista do General Villas Bôas, concedida ao jornal Valor, onde ele, entre outras coisas, diz: “Somos um país que está à deriva, que não sabe o que pretender ser, o que quer ser e o que deve ser”.

12 — Uma outra fonte diz que a preocupação com as declarações de Mourão e Heleno não são exageradas “porque os militares são como um time de futebol que só treina e não joga, porque felizmente o Brasil não tem se envolvido em guerras. E uma situação como a atual pode levá-los a achar que é hora de jogarem sim”.

13 — Uma das pessoas entrevistadas diz que a linha mais dura tem crescido porque há um entendimento prevalente nas Forças Armadas de que não tem se dado ao Ministério da Defesa, desde a redemocratização, a importância que os militares consideram razoável.

14 — Um dos entrevistados diz que conversou com dois militares de alta patente e que eles disseram que as declarações do general Mourão mais atrapalham do que ajudam

15 — Um dos entrevistados considera que Mourão fala por um setor minoritário e que até ousaria uma intervenção militar, mas que isso não teria respaldo do alto escalão.

16 — De qualquer forma, todos concordam que o alto comando das Forças Armadas querem sim que os civis construam uma solução que passaria pelo fim do governo Temer.

17 — Uma observação de um dos entrevistados é bem interessante. A pessoa considera que Villas Bôas não puniu Mourão para não vitimizá-lo e criar um movimento de solidariedade e ele, que poderia ampliar sua liderança nas Forças.

18 — Aldo Rebello de fato é um civil muito respeitado entre os militares. Sua relação com eles é antiga, desde que presidiu a Comissão das Relações Exteriores da Câmara. Mas Nelson Jobim é ainda mais. Ele é uma peça chave para participar de uma solução para esta crise atual.

19 — O fato de a base, principalmente do Exército, estar muito alinhada com Bolsonaro, não significa que no alto comando este pensamento tenha força. Pelo contrário, Bolsonaro é considerado uma caricatura pelo alto escalão das Forças e muitos deles, inclusive, acham que sua candidatura pode tirar parte da credibilidade recuperada nos últimos anos.

20 — Quase todos os entrevistados acham que é preciso manter o alerta ligado. Um deles foi mais incisivo, quando sai fumaça dos quartéis em geral não é de cigarro. Por isso, não é hora de relaxar e achar que está tudo bem.

21 — Um outro entrevistado acha que até a votação da segunda denúncia do impeachment de Temer, que deve acontecer nos próximos 30 dias, devem surgir novas declarações de militares com o objetivo de pressionar o Congresso. Ou seja, os sinais de fumaça, na opinião deste, ainda estariam apenas começando.

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