15 de ago de 2017

Violência em protesto extremista nos EUA acende alerta. No RS, polícia monitora neonazistas

Atropelamento em Charlottesville. Imagem feita por drone do atropelamento por supremacista branco
(Reprodução)
As manifestações extremistas registradas nos Estados Unidos no último final de semana acenderam o alerta para o crescimento de manifestações neonazistas em outras partes do mundo. Na região Sul do Brasil, operações policiais contra esse tipo de crime de ódio têm ocorrido há pelo menos 15 anos. “Estamos em alerta e eles sabem disso”, afirma o delegado Paulo Cesar Jardim, que comandado operações contra grupos neonazistas no Rio Grande do Sul.

No sábado passado (12) um homem de 20 anos avançou com seu carro sobre manifestantes contrários a uma marcha de supremacistas brancos na cidade de Charlottesville, no Estados Unidos. Uma pessoa morreu e 19 ficaram feridas. O caso modificou o cenário da pacata localidade universitária da Virgínia e atraiu a atenção do mundo para a volta de manifestações abertamente neonazistas.

Com essas demonstrações aparecendo cada vez com mais frequência e com estudos que demonstram que o Sul do Brasil possui o maior número de simpatizantes das ideologias de Adolf Hitler, o questionamento sobre a possibilidade de uma réplica dessas manifestações é inevitável. Especialistas ouvidos pelo Sul21, apesar de dizerem não acreditar nessa possibilidade, coincidem ao opinar que é importante permanecer em alerta e monitorar os movimentos dessas pessoas.

“Eu diria que não vejo no momento essa possibilidade, porém estamos atentos e estamos observando. E eles sabem disso”, diz o delegado Jardim. “O nosso combate é contra uma ideologia. Eles acreditam nisso, eles acreditam no discurso da pureza da raça, eles acreditam no discurso hitlerista. E baseado nessa teoria do prazer pelo ódio eles executam as suas atividades”, completa.

Segundo o delegado da 1ª DP, desde que o combate a esses grupos começou no Estado foi formado um grupo de pessoas preparadas para realizar o monitoramento constante. Paulo Cesar Jardim não revela quantos neonazistas monitora, mas afirma que esse trabalho tem como objetivo prevenir possíveis atos organizados. “Esclarecer um crime é muito bom, mas o sonho da polícia é evitar que esse fato aconteça”, diz o delegado.

Material apreendido pela Polícia inclui propagandas do White Power Sul Skin – grupo neonazistas atuante na região sul do país |Foto: Polícia Civil/Divulgação
O neonazismo no RS

Um estudo de 2013 mostrou que Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os Estados com o maior número de simpatizantes do nazismo identificados com a ajuda da internet. O trabalho de monitoramento realizado pela antropóloga Adriana Dias detectou um crescimento de 170% no número de sites com conteúdo neonazista entre 2002 e 2009.

A pesquisadora identificou usuários que baixaram grande quantidade de material sobre nazismo e chegou a um número de 42 mil simpatizantes do nazismo apenas no RS. Segundo revelou em entrevista à Agência Brasil quando da divulgação do trabalho, a maioria são jovens influenciados por outros jovens e sua atuação é limitada à internet.

Um dos episódios de apologia nazista mais marcantes ocorreu em 2005, quando três jovens identificados como judeus porque usavam um quipá foram atacados na Cidade Baixa. Um deles chegou a ficar gravemente ferido. Depois desse caso, várias operações foram deflagradas no Rio Grande do Sul para combater esses grupos, sobretudo na Grande Porto Alegre e em Caxias do Sul.

Consultados, no entanto, especialistas dizem que apesar de similaridades com o nazismo do começo do século passado, os neonazistas locais não estariam organizados a ponto de repetirem uma manifestação como a que ocorreu em Charlottesville.

“O neonazismo aqui é uma questão de polícia e não de política e muito menos de etnia. A polícia faz muito bem em monitorar porque isso pode desencadear em algo”, alerta o historiador René Gertz. Professor aposentado em doutor em Ciência Política pela Universidade de Berlim, Gertz é autor de vários estudos sobre o assunto.

Em um deles, o historiador questiona o suposto vínculo entre a existência de simpatizantes nazistas e a grande imigração alemã para o Sul do Brasil. Gertz conta que localizou cerca de 30 pessoas classificadas pela polícia como neonazistas e denunciados pelo Ministério Público. Desses, segundo ele, apenas 5 tem alguma forma de descendência alemã. “Não há nenhum indício de que tenha relação entre a quantidade de imigrantes alemães no Estado e a existência desses grupos nazistas”, defende.

O historiador também é um crítico da divulgação “irresponsável” de notícias de casos de ataques supostamente nazistas. Ele cita o caso mais recente, de março deste ano, quando a direção do Colégio Estadual Paula Soares, de Porto Alegre, denunciou uma estudante de filosofia que fazia estágio probatório na escola por apologia ao nazismo. Segundo o relato da época, a estagiária foi introduzida à turma que deveria lecionar e se apresentou como “nazista” e exigiu que os alunos fizessem a saudação tradicional de Adolf Hitler.

“Sim, devemos ser cuidadosos, mas não podemos banalizar isso. Temos que parar de culpar os imigrantes alemães, pois isso que cria ódio”, argumenta René Gertz. Para o historiador, no entanto, apesar de sugerir pé no freio com a divulgação sem critérios de supostos crimes de ódio, a possibilidade de existir alguma mobilização organizada desses grupos não pode ser totalmente descartada. “Normalmente épocas de crise causam isso”, explica.

“A nossa esquerda faz tanta besteira que abre o espaço para gente desse tipo”, aponta, citando novos líderes da extrema direita que têm discursos extremistas. “Se a crise não se resolver, essas pessoas podem ter uma recepção a discursos como esse”, alerta.

Similaridades históricas

Autor do livro “Histórias não (ou mal) contadas: Segunda Guerra Mundial, 1939-1945”, Rodrigo Trespach reluta em comparar o momento histórico atual com o surgimento do nazismo na Alemanha. Ele pondera que a história não é algo determinista e linear, mas sim complexa. Para Trespach, velhas ideias se moldam a novas, se integram a fatos e contextos novos e daí surgem movimentos semelhantes.

A semelhança observada pelo escritor nos dois momentos da história, o período entre a Primeira e a Segunda Guerras, e o momento atual, com a ascensão de movimentos de extrema-direita em várias partes do mundo, é que nos dois pontos da história “o sistema político-econômico tem falhado em pontos cruciais, a diferença entre os países mais ricos e os mais pobres ainda é enorme”.

“Na época, o nazi-fascismo foi uma saída para a crise financeira que afundava a Alemanha e a Europa. Entre o comunismo e uma socialdemocracia débil, venceu a terceira via, radical e autoritária. Essa terceira via se valeu muito do medo do comunismo – muitos industriais alemães deram apoio a Hitler”, argumenta.

Para Rodrigo Trespach as migrações são o elemento novo do atual contexto e com isso “velhas ideias de superioridade racial estão voltando à tona”. “O migrante é visto como um inimigo, que vai tirar seu emprego, usar dinheiro do seu Estado e causar desordem (em parte isso é verdade, mas o Estado atual não está preparado para resolver esse problema). Não sabendo como enfrentar a situação, o que ocorre é uma onda de ansiedade e medo. Por isso, as políticas ultranacionalistas que marcaram o século XX voltaram a aparecer depois de um sono entorpecido”, defende.

Lucas Rohan
No Sul21

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