2 de ago de 2017

Servidão voluntária: Temer tratora o Brasil na Câmara com as ruas vazias porque nossa vocação é ser golpeados

Solta mais uma picanha
“Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; (…) a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Considere os versos manjados de John Donne e o Brasil.

A não ser que caia uma bomba atômica em Brasilia, Temer sairá como vencedor na Câmara, que vota se a denúncia da Procuradoria-Geral da República deve seguir para o STF.

Nas contas do governo, 280 parlamentares devem barrar a parada. MT precisa de 176.

Nunca a República foi tão escancarada, tão explícita. Temer anda mais nu do que David Cardoso em suas clássicas pornochanchadas. Há carradas de provas, filmes, gravações, confissões.

No jantar com deputados na noite de terça, ele se queixou de que há um “banditismo muito negativo. Sou obrigado a dizer isso em voz alta e em letras garrafais para que as pessoas saibam com quem estamos lidando”.

O banditismo positivo fica para outra ocasião, mas as pessoas sabem com quem estão lidando.

Sua taxa de popularidade é de 5% segundo o último Ibope. 93% dos brasileiros querem ver o sujeito investigado. Todas as pesquisas, sem exceções, são negativas.

E nem assim.

E nem assim o povo saiu às ruas.

Parte disso é a perspectiva de colocar Rodrigo Maia, que é a mesma tragédia, no lugar.

Sociólogos de todas as cores e tamanhos tentam explicar o sumiço dos protestos.

Cláudio Couto, professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas, disse ao DCM que as grandes últimas mobilizações sociais da história do Brasil, Diretas Já, Fora Collor e os atos pró e contra o impeachment de Dilma Rousseff têm um intervalo de anos entre si.

“Isso não acontece toda hora”, afirma. Não há o que ele chama de “energia mobilizadora”. 

“Os movimentos que pedem Fora Temer são os mesmos que apoiavam o PT. Então a população tem receio de que se dá respaldo a esses movimentos, no fundo está querendo que o PT volte”, diz Maximiliano Vicente, professor de Realidade Socioeconômica e Política da Unesp.

Na campo da esquerda, o pragmatismo de um Rui Costa, governador da Bahia, é um balde de água fria nos militantes. A tal “governabilidade” da foto com Maluf.

Mas o problema talvez seja nossa vocação.

O Paulo Nogueira escreveu um belo texto sobre a servidão voluntária, termo cunhado por Etienne de La Boétie no século 16.

“La Boétie sustentava que são as pessoas que dão poder aos tiranos. Por isso elas são mais dignas de desprezo do que os ditadores de ódio”, lembrou o Paulo.

Somos o país do acordão feito de cima para baixo, desde a Independência. Jango caiu sem resistência, Dilma também (inclusive a dela), a Globo põe e tira, Gilmar Mendes humilha o STF, Sérgio Moro barbariza, Lula é triturado, Rafael Braga fica na cadeia — nada acontece feijoada.

Michel Temer vai sair nos braços de um bando de corruptos comprados com dinheiro público num processo vergonhoso. Meia dúzia de curiosos estarão assistindo. Nas redes sociais, sobe a hashtag #InvestiguemTemer ou qualquer coisa besta. Em duas horas, troca por uma da Anitta.

Em 2018, muitos desses picaretas serão reeleitos. E segue o baile.

A culpa é de quem? Sua. Nossa. Por que ninguém foi à Paulista?

Não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

Kiko Nogueira
No DCM

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