27 de ago de 2017

Renê

Lilian desconfiou que Artur iria deixá-la. Ele dormia de costas para ela e não a chamava mais de Lili. Lilian decidiu que a solução era provocar ciúmes em Artur. Como? Comprou um buquê de flores, escreveu num cartãozinho “Lilian: me diga quando e onde...”, assinou – depois de pensar muito num bom nome para amante – “Renê”, e mandou entregarem o buquê com o cartãozinho no seu próprio endereço. 

Deu certo. Foi o Artur quem recebeu as flores na porta. Disse:

– Flores para você.

Lilian, fingindo surpresa: 

– Flores? Para mim?

– E um cartãozinho.

– Um cartãozinho?

– Posso abrir?

– Não! Deixa que eu...

Mas Artur já estava lendo o cartãozinho.

– Muito bem. Quem é Renê?

– Renê?

– “Lilian, diga quando e onde”. Assinado, Renê. 

– Eu não tenho a menor...

– “Diga quando e onde” o quê? Hein? Hein? E quem é esse Renê?

– Eu...

O tapa foi tão forte que Lilian caiu de costas no sofá. Quando se ergueu estava sorrindo. O Artur sentia ciúmes. O Artur ainda a amava, afinal. O Artur ainda a amava! Gritou:

– É uma brincadeira! Fui eu que mandei as flores. Fui eu que escrevi o ... 

Não pôde terminar porque o Artur começou a sufocá-la com uma almofada do sofá.

Lilian não entendia a raça dos homens. Não sabia que homem não tem ciúmes porque ama. Ciúmes nunca é uma questão entre o homem e a pessoa que ama. Ou é, mas a pessoa que ele ama é ele mesmo. Ciúmes é sempre entre o homem e ele mesmo. 

– Quem é esse Renê? Hein? Hein? 

Súbito, o Artur parou de sufocá-la com a almofada. Levantou-se.

Tinha se dado conta de uma coisa. Disse:

– Eu sei quem é esse Renê. Eu conheço esse Renê!

A Lilian ainda tentou chamá-lo de volta.

– Não existe nenhum Renê! Fui eu que inventei!

Mas o Artur já tinha saído de casa, depois de passar no quarto e pegar o revólver da gaveta da mesinha de cabeceira.

Lilian passou o resto do dia rondando pela casa, nervosíssima.

Quando ouviu o ruído da chave na fechadura, correu para a porta. O Artur entrou sem olhar para ela. 

– Onde você estava? O que aconteceu?

Artur não respondeu. Foi para o quarto trocar de roupa. Lilian foi atrás. Havia respingo de sangue na camisa do Arthur. O tiro fora de perto. Ele não trouxera o revólver de volta. Provavelmente o jogara em algum matagal. Lilian:

– O Renê do cartãozinho...

Artur tapou a sua boca com a mão. Disse:

– Não se fala mais nesse nome nesta casa. Nunca mais. Está ouvindo?

E depois:

– Esse aprendeu a não se meter com a mulher dos outros.

Naquela noite, nenhum dos dois dormiu. Lilian pensando “Renê, Renê... Quem é que eu conheço com esse nome? Quem é esse Renê, meu Deus? Ou quem era?”

De madrugada, amaram-se loucamente. O Artur dizendo:

– Viu o que eu faço por você? Viu?

Era a primeira vez que se amavam assim em pelo menos três meses. Ele até a chamou outra vez de Lili. 

A felicidade voltara ao seu lar, pensou Lilian. Fosse quem fosse o Renê, morrera por uma boa causa.

Luís Fernando Veríssimo

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