31 de ago de 2017

Operação Milagre


Chamam-lhe "a cegueira". É um conjunto de quatro edifícios modernos situado a sudoeste de Havana (Cuba), especificamente no verde e florestal município de Marianao. Não longe da mundialmente conhecida sala de espetáculos tropicana e do colégio jesuíta de Belém, onde estudou os seus estudos secundários Fidel Castro. Oficialmente chama-se "Instituto Cubano de Oftalmologia" Ramon Pando Ferrer e foi aí que foi inventado, em 9 de julho de 2004, por iniciativa de Fidel e Hugo Chávez, a famosa "Operação Milagre" que lhe foi devolvido a vista a milhões de pessoas cegas e sem recursos, não só em Cuba e na Venezuela, mas em dezenas de países da América Latina e do mundo.

O hospital existia, em forma embrionária, antes da revolução cubana. Chamava-se "a liga contra a cegueira" (daí o nome com o qual ainda é conhecido popularmente) e tinha sido fundado em 1956 por um grupo de oftalmologistas humanitários, financiado por um patrocínio de caridade à base de doações voluntárias da população. Mas a maioria dos seus médicos, após a vitória da revolução, abandonaram os seus pacientes e foram para os Estados Unidos.

Com o pessoal que não desertou e se manteve fiel ao projeto transformador, pouco a pouco, graças também a um grupo de jovens oftalmologistas, o projeto foi retomado. Foi assim a consolidação da ideia de promover a criação de um hospital docente oftalmológico inteiramente financiado pelas novas autoridades revolucionárias.

Em 1988, por iniciativa do presidente Fidel Castro, foi criado, no seio deste hospital, com os mais modernos equipamentos tecnológicos, o centro de microcirurgia ocular que em breve iria colocar Cuba nos primeiros lugares, a nível mundial, em matéria de cirurgia das Cataratas, miopia e glaucoma. De todo o planeta, começaram a vir pacientes para se submeter a intervenções delicadas. E a excelente reputação do "Pando Ferrer" foi espalhando pelo mundo inteiro.

"Como surgiu a ideia da "Operação Milagre", pergunto ao Dr. Marcelino Rios, diretor do Hospital Pando Ferrer. Acompanhados pela Dra. Eneida Perez, que dirige o departamento das Cataratas, estamos no seu modesto escritório no qual destaca uma grande foto em preto e branco, emoldurada - obra de Alberto Korda -, que mostra em primeiro plano a Fidel Castro acendendo um Charuto ao lado de Che Guevara. O Dr. Rios leva o seu roupão branco bem apertado acima de uma camisa azul, está sentado diante de uma mesa cheia de livros e documentos, e me conta: "tudo começou um dia 9 de julho de 2004. Se cumprem agora exatamente treze anos. Eu já era diretor. Lembro-me que era uma sexta-feira, à noite, depois das sete da tarde. Uma grande parte do pessoal, como é lógico, já tinha ido para casa. Começava o fim de semana... e, de repente, anunciam-me que chega, de imprevisto, Fidel. Imagine! "

O Dr. Rios põe as mãos na cabeça e afunda os dedos no seu espesso cabelo cinzento, enquanto, abrindo bem grandes olhos, tenta reproduzir a surpresa surpresa de então: "ignorava a que vinha o comandante... e coloquei a reunir todos os médicos que, nessa hora, poderia encontrar disponíveis. Não eram muitos, quatro ou cinco no máximo. Entre eles estava a jovem Dra. Eneida Perez que não devia ter nem trinta anos, então... chegou Fidel, com seu uniforme verde-Oliva, suas botas altas, afável como sempre. Vinha sozinho, sem nenhum ministro. Reunimo-nos numa pequena sala. Expectantes... e aí, sem muitos delongas, bebendo um copo de água, Fidel nos pediu, como um favor, se pudéssemos receber no dia seguinte de manhã - um sábado...- a um grupo de cinquenta pacientes venezuelanos que estariam chegando de Caracas para ser operado às cataratas...

"Vocês já dominaram a cirurgia das Cataratas? Voltou a perguntar à Dra. Eneida Perez. Venerada por seus pacientes e gentil, considerada como uma das melhores cirurgiãs oftalmólogas do mundo, a Dra. Eneida me explica: "Bem, talvez não tanto como agora com treze anos mais de experiência... Mas já, em 2004, com cerca de várias cirurgias por semana... e já então, vários de nós, exatamente sete, dominávamos a mais moderna técnica sala, a blumenthal, para o tratamento das Cataratas, doença que é responsável, tem que se lembrar, de metade dos casos de cegueira no mundo."

"No dia seguinte - prossegue o Dr. Marcelino Rios - às sete da manhã, chegavam ao nosso hospital os cinquenta venezuelanos anunciados por Fidel. Uma hora depois já tinham sido operados os primeiros. E na segunda-feira seguinte, os nossos sete cirurgiões, trabalhando sem descanso, tinham operado todo o grupo. Chamou-me Fidel para nos felicitar e perguntar-me se podíamos operar mais pessoas... Quantos mais? Perguntei-lhe. E é aí que me diz que, sem dúvida, se tinha expressado mal porque o que ele nos tinha pedido era de operar a muitos venezuelanos... por dia! Além disso, não deveria perturbar o serviço aos pacientes cubanos já atendidos normalmente...

"Tivemos de trazer outros sete oftalmologistas do interior do país porque não dávamos conta... - explica-me a Dra. Eneida Perez - tivemos de formar dois grupos: o primeiro começava às 7 da manhã... Terminava no final do dia... Calcule você, cada intervenção naquela época durava cerca de 15 minutos... e cada cirurgião operava cerca de 15 pacientes por dia... no total, os quatorze cirurgiões operavam a média de cerca de 500 pacientes todos os dias... foi um desafio formidável. Foi avassalador. Dois meses depois, tínhamos cerca de 14.000 pacientes. Quase todas eram pessoas sem recursos. Com histórias muito comoventes: Mães ou pais que viam os seus filhos pela primeira vez... cegos de nascimento... - Porque há cataratas de nascimento...- que finalmente recobravam a visão e descobriam o mundo... muitos choravam de emoção. Humanamente foi uma experiência fabulosa."

"Fidel - lembra do Dr. Rios -, um tempo antes, em uma reunião anterior, eu tinha perguntado: 'qual é a melhor tecnologia para a cirurgia oftalmológica, sem contemplar preços mas obviamente que não seja americana' eu disse, sem hesitar, que era a alemã ou a japonesa. E o comandante, apesar das reservas expressas por um ministro, mandou importar o melhor. Para dar o melhor tratamento ao nosso povo. Isso permitiu aos nossos médicos e a todos os nossos especialistas formar-se para as técnicas mais atuais, mais avançadas. Sem essas equipas de alta tecnologia e sem esses progressos, não teríamos estado à altura do desafio que nos colocou naquele dia 9 de julho de 2004. Fidel tinha pensado nisso, sem dúvida, desde muito antes. Recordemos que, com Hugo Chávez, já tinham lançado com enorme sucesso, na Venezuela, a 'missão bairro dentro', enviando milhares de médicos cubanos para os bairros mais pobres para atender pacientes que, por vezes, não tinham visto um médico ou a um dentista em toda a sua vida. Por isso, os dois comandantes conceberam a ideia de lançar a "Operação Milagre mas não divulgaram a iniciativa; mantiveram-na em segredo até ver se tudo correria bem. "

"Durante mais de um ano, a Dra. Eneida Perez tem estado a operar milhares e milhares de pacientes venezuelanos. Foi criada uma verdadeira ponte aérea com Caracas. Cada doente vinha, por razões óbvias, acompanhado de um parente. E a este parente, os nossos serviços médicos submetiam-os a um exame de saúde completo, multidisciplinar. E muitas vezes se descobria que sofriam de várias doenças de saúde ou doenças crônicas; e também eram tratados. Então, o paciente e o acompanhante voltavam para o seu país completamente curados. "

"Quando foi anunciada publicamente a existência da "Operação Milagre", pergunto ao Dr. Marcelino Rios. "Foi, responde, no âmbito do programa de televisão 'Estou Presidente' que se realizou aqui em Cuba, na província de Pinar del Rio, em uma aldeia chamada Sandino, em 21 de agosto de 2005. Onde os presidentes Hugo Chávez e Fidel Castro anunciaram que já tinham sido operados mais de 50.000 pacientes e divulgaram a existência da convenção através do qual se cria a "Missão Milagre" que coloca a intervenção cirúrgica a seis milhões de Latino-Americanos, vítimas de doenças oculares , em um período de uma década. Ela foi chamado de "milagre" porque é a expressão popular de centenas de pacientes que, ao reencontrar a vista, afirmam surpreendidos: é um milagre! Muitos deles contavam-nos as suas experiências de peregrinação pelos diferentes serviços de saúde dos respectivos países, sem resposta. E já tinham abandonado toda a esperança de recuperar a vista um dia...

"A "Operação Milagre" - pergunto ao Dr. Rios - se espalhou para outros países além da Venezuela? "No ano seguinte ao anúncio feito pelos comandantes Fidel e Chávez, ou seja em 2006, abrimos vários centros oculares na Venezuela, integrados por profissionais cubanos - uma centena deles trabalhadores do nosso hospital Pando Ferrer. Devo dizer que, na Operação Milagre participam cerca de 165 instituições cubanas. Além disso, está disponível uma rede de 82 centros oculares com 82 posições cirúrgicas em 14 países da América Latina e do Caribe. Porque, com efeito, Fidel e Chávez, a partir da experiência cubana, decidiram alargar o serviço a outros países, incluindo vários estados do Caribe, como o Haiti e São Vicente e a Bolívia foi a próxima nação. Depois juntaram-se a Guatemala, Honduras, Equador, Paraguai, Salvador, México, Argentina, Uruguai... até atingirem cerca de vinte, mais dezenas de estabelecimentos cirúrgicos abertos por pessoal cubano na África e na Ásia."

No mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há cerca de 45 milhões de cegos. E, como a Dra. Eneida Perez precisava, metade deles, ou seja, cerca de 25 milhões, são simplesmente por causa de Cataratas. O que significa que, com uma simples operação cirúrgica, esses 25 milhões de pessoas podem recuperar a visão. Em outras palavras, essas 25 milhões de pessoas são cegas porque são pobres. Porque não podem pagar uma intervenção cirúrgica de alto custo, ou porque não vivem num país com um sistema público de saúde que preste essa atenção e assuma essa despesa. Essa é a tremenda injustiça que tentaram combater os líderes da revolução cubana e bolivariana. Tal como ambos lutaram e erradicaram completamente o analfabetismo nos respectivos países, propuseram-se a erradicar a cegueira.

Alguns podem perguntar se tudo isto que estou a dizer é apenas propaganda. Para verificar, como eu era muito míope e com umas cararatas muito complicadas, decidi testar na minha própria pessoa a "Operação Milagre" e me submeter a cirurgia nos dois olhos.

Após as análises pertinentes, misturadas com as dezenas de pacientes que enchem os corredores do Hospital Pando Ferrer, fui submetido à intervenção. Com as mãos de anjo, a Dra. Eneida Perez operou-me. Uma semana o primeiro olho. Na semana seguinte, o segundo. Seis ou sete minutos de cada vez. Nenhuma dor. Incrível. Totalmente ambulatorial. Mal operado, levanto-me da mesa da sala de operações pelos meus próprios pés e, sem a ajuda de ninguém, vou para casa. Duas horas depois, tiro o esparadrapo que cobria o olho operado. Milagre. Estou com bom aspecto. Já posso terr uma vida normal. Eu posso testemunhar isso. Como não pensar nos milhões de pessoas que viveram esta experiência? Como não estar eternamente grato aos dois comandantes que impulsionaram este grande milagre?

Ignacio Ramonet

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