24 de ago de 2017

O Ódio e a Ode ao Lula

Ricardo Stuckert
O ódio ao Lula vai além do Lula. É muito anterior.

O ódio ao Lula é um ódio aos ancestrais. Ódio aos avós e bisavós que vieram fugidos de misérias e fome. Vieram na desesperança de Europas e Ásias, fugidos da marginalidade, de uma realidade que hoje os netos idealizam em castelos e nobrezas, reis e rainhas. Imaginam-se valetes ou bobos da corte. Menestréis ou saltimbancos mambembes. Aristocratas de uma Europa que na Europa deixou de existir.

O ódio ao Lula é ódio à própria opção pela servidão da que antepassados fugiram em busca de melhor sorte e dignidade.

Dessa dignidade é a ode ao Lula. Ode à esperança de um mundo novo que resiste desde o século passado, retrasado. Ode à ausência de medo por bruxas e dragões. Ode à esperança na oportunidade, na igualdade de condições. Às conquistas pelo esforço de cada um, de quem está e quem chega. De todos os que chegam vindos pelo aumento da produção, do implemento de indústrias retomadas do nada, recursos onde era negação e risco. Ode ao desenvolvimento que ainda hoje ecoa por todo o mundo, por toda a nação que foi primeira da América Latina entre a economia internacional.

O ódio ao Lula é antigo. Vêm do tempo das senzalas. Dos Negreiros a trazer mistérios em culturas e deuses de vingança em macumbas e quimbandas pelo látego e o pelouro. Sangue e suor. Gente de lágrimas e carnes vivas. Carnes e provocações, tentações em peitos, bundas e coxas. Carnes de estupros. Vergonha de inércia, lassidão e preguiça branca. Ódio à tristeza por si, à melancolia branca realçada na alegria do batuque, da dança, da festa a sobrepor a crueldade questionando falsa civilização e devoção em crença cristã. A dúvida dos infernos na incerteza da reza por perdão de atrocidades de senhores nos eitos e maldades de sinhazinhas na casa grande a brincar de fadas em paraísos do Senhor sem aceitar igualdades perante o Senhor. Arrependimentos por excessos aos quais sempre querem retrocesso.

Também aí a ode ao Lula pelo filho na escola se fazendo doutor. À igualdade de acesso à luz, teto e moradia. À água e alimento, médicos e saúde, oportunidade a talentos e vocações de cada um. Aos versos do poeta, às prosas do escritor. Às descobertas em laboratórios, às universidades e todas as ciências e artes, todas as técnicas profissionalizantes e à tecnologia. Acesso aos saberes e experiências de todos os mestres, até mesmo os do exterior.

O ódio ao Lula tem diversas faces, inclusive regionais. É o ódio à percepção da dependência da espoliação nordestina para construção das maravilhas sulinas. Ódio à mão de obra barata para subir chaminés e descer metrôs. Unir com pontes e viadutos por mão e obra que o ódio separa em favelas e periferias. Prédios e edifícios por mão e obra que o ódio relega ao abandono e amontoa em presídios. Ódio às falas socadas, duras, sem o arrastar itálico, sem a verborragia de neologismos, sem a elegância dos anglicanismos. Ódio contra a cultura por uma cultura que se mente ter.

Mente-se cultura de uma Europa que europeu não quer e busca no nordeste que aqui se menoscaba numa coceira de vira-latas.

A cultura de um nordeste pelo qual o turista entoa ode ao Lula admirando transformação de cidades e transposição de águas dignificando sobrevivência no sertão, resultando em redução de migração, da superpopulação e violência. Reduzindo ocupação e destruição de meio ambiente. Ode ao Lula por empresários e visitantes de toda parte. Ode às melhorias de infraestrutura, qualidade e confiabilidade em prestação de serviços. Ode às melhores estradas e logradouros, portos para se comerciar, produção para se negociar.

Mas o ódio ao Lula é também o velho ódio de sempre. Aquele sempre ódio ao pobre e ao que trabalha. É o ódio que aponta egoísmos e hipocrisia em falsas crenças, falsas promessas, engodo pelo voto, pelo golpe. A realidade do que trabalha e quem trabalha tem suor. E suor fede. A realidade de quem não tem trabalho e se não há trabalho, tem fome. E fome fede. A realidade de quem se não trabalha é por vício e se trabalha que use a entrada de serviço.

Se não trabalha de nada serve e se trabalha reclama e requer direitos. Direitos ao pobre dá ódio porque trabalho é exclusivo aos privilégios de patrão, não por direitos e compensação. Todos os direitos ao patrão e ao trabalhador execução da justiça dos donos da reforma trabalhista.

A volta do trabalhar para não cantar a chibata do feitor, mantida na arrogância dos cães de guarda dos privilégios do dono.

O retorno do trabalhar para existir e continuar trabalhando.

Reivindicação de direitos atrapalha o sono do dono e a quem não trabalha: eliminação. Trabalhador com emprego é empregado sem direitos e em trabalhador sem emprego se emprega bala, cela e polícia para virar notícia e parecer segurança.

Mas a ode ao Lula é pelo direito humano a médicos, ensino e escola. É ode às oportunidades e não à esmola. Ode ao poder de aquisição do mínimo para o viver de todos e até, por que não, viagem de avião. Ode ao Lula é pelo direito a casa e mobília, cerveja com amigos e churrasco em final de semana.

A ode ao Lula é à indústria naval. Ao Pré Sal e a ferrovia. Ódio à autonomia nacional, à estabilidade da moeda e do preço do litro de combustível. Diesel e gasolina e cada um decidindo a própria sina.

A ode ao Lula é pelo resgate da miséria e pobreza, pela redução do abismo social, à ascensão de 40 milhões, à retirada do Mapa Mundial da Fome.

É a ode ao pleno emprego e ao Brasil protagonizando no mundo preconizando participação na superação da crise internacional.

Porém, no fundo, o ódio ao Lula é também individual. É o ódio de cada um pela decepcionante incompetência dos em quem se acreditou.

Não é ódio por mortos e desaparecidos nem pelas tantas torturas, mas pela inutilidade de tudo que se acreditou e não levou o Brasil a nada, além de analfabetismo e violência, pobreza e doença. Levou o Brasil por tortuosos e torturantes caminhos que não chegaram a lugar nenhum.

Tanta imposição, tanta impostação e aos olhos do mundo apenas a decepção de mais uma ditadura de República das Bananas.

O ódio ao Lula é à própria inadvertência em eleger produto de mídia que só fez média e de tão inútil se teve de tirar. O ódio ao Lula é à inapetência de empoados que se elegeu só para servir de capacho e tirar sapato. Ódio ao Lula é ao menoscabo aos aposentados xingados de vagabundos. Ao congelamento de salários, à triplicação de dívida, à entrega do patrimônio público.

Ódio ao Lula é por se ter elegido o que terminou em descrédito mundial e apagão. É o escuro ódio ao próprio fracasso, à frustração por si mesmo.

Quem nunca elegeu um governo ao qual possa entoar ode por algum feito, como poderá entender multidão em ode ao Lula? Como pode entender a ode do mundo e do Brasil de fundo? Como pode querer o Brasil que é, se não aceita o próprio ser querendo ser o que nunca foi? Mentindo-se a própria realidade?

Ódio ao Lula não é por seus feitos, mas ao nada feito antes de Lula. Ao nada a se contar e cantar. Apenas silêncio e constrangimento por um Brasil falido com vergonha perante o mundo.

Como entender títulos e honrarias, respeito e admiração internacional ao que apenas resta o negar? Como aceitar ode ao Lula quem não tem motivo para compor ode à ninguém.

Ode à quem? Por quê? Sobre o quê? O que há? Que houve para ode ao antes? Ao agora que lateja o ódio ao Lula por tantas incertezas e nenhuma perspectiva.

Ódio ao Lula se revela na ausência de argumento, no mero xingamento, na repetição de pobres trocadilhos. E se desvela na irritação ao estribilho internacional apontando o golpe. Se desvela na vergonha da vaia e no ridículo do afirmar que pôs o Brasil nos trilhos quando tudo degrada, desaba, desmonta, decai. Tudo descarrilha em carência, violência e encontros escusos, corrupções e despencar de delações, perdoar de sonegações, descredito em previsões que se ajustam, apertam, tiram e corrigem em bilhões.

Ódio ao Lula é o ódio às próprias deficiências. É a transferência do ódio da própria displicência desde a escola, no diploma comprado, da imerecida conquista pelo “quem indicou?”, pela consciência da ausência de qualquer talento e merecimento. Ódio ao Lula é ódio ao reconhecimento de glória roubada pelo feito por outro, da omissão aos feitos de outros.

É o jeitinho dado para se iludir com o próprio sem-jeito. É ódio à revelação da própria incompetência.

Mas não é ódio às fraudulentas falências financiadas pelos PRÓ ERerários públicos desfalcados. Não é ódio às farsas de bolinhas de papel e boladas de negociatas. Às evasões e inversões. Não é ódio aos superfaturamentos, aos flagrantes de tráfico e extorsão, às toneladas de carreiras em helicópteros, às denúncias e impunidades, à corrupção e homicídios. Não é ódio ao tanto do tudo que se comprova e até mesmo se admite em própria voz de gravações imprevistas.

Ódio ao Lula já nem mesmo é pelo Brasil não ser Europa ou porque para Europa, Brasil nem ser mais América Latina, mas “de outro mundo” *.

Ódio ao Lula e seus companheiros é pelo se ter de imputá-los sem haver provas. Por se ter de condená-los inventando fantasiosas literaturas sem nenhum realismo. É o fantástico da condenação ao que o juiz reconhece não ser real, não ter ocorrido o crime acusado. É à premiação ao que juiz reconhece ser crime real e efetuado, provado e comprovado, assumido e confessado.

O ódio ao Lula é reincidente porque reincidente é o juiz, o crime, o criminoso e a impunidade. O ódio ao Lula é a evidente e escancarada verdade que ecoa no mundo e responde em ode mundial ao Lula.

É o ódio por ter de estancar a sangria de tudo o que se comprova a cada prova do que são os que o acusam e condenam Lula.

É ódio enorme e infindo que vai muito além de Lula, muito depois de Lula. Ódio que se levará ao túmulo porque em qualquer tempo futuro, onde for deste mundo se contará a história de quando o Brasil foi deste mundo. E onde se contar a história do Brasil deste mundo e do mundo futuro, se cantará ode ao Lula.

Ódio ao Lula é à ode ao Lula que se entoará pelo mundo quanto maior o ódio ao Lula a correr consciência de quem não tem memória de nada a contar daqueles que nem mais lembram ter elegido, tentado eleger ou a se impor por golpe à vontade democrática por golpe ao Estado de Direito.

E quando lembram, preferem fingir haver esquecido.

Mas o ódio ao Lula nunca será esquecido pelos que odeiam, pois que não há como se esquecer de si mesmo. O ódio ao Lula nunca será esquecido por sempre se repetirá à ode ao Lula.

Sobre Lula nunca haverá silêncio, porque Lula é história. Daqui há 100, 200 anos, Lula será história. Enquanto houver Brasil e história, se ouvirá uma ode ao Lula. Talvez, então, os de daqui a um, dois séculos já consigam entender, não possam compreender porque hoje o ódio ao Lula. Mas hoje aqui se evidencia na ode o germe do ódio ao Lula.

Um ódio de matar. Mas se esse ódio matasse o Lula, a ode viraria hino em todo o mundo a ensurdecer o “outro mundo” *

* “Brasil é outro mundo” - Herta Däubler-Gmelin, Ministra da Justiça da Alemanha em entrevista realizada em julho de 2007 e traduzida para 30 idiomas.

Raul Longo

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