22 de ago de 2017

O jornalismo sem honestidade intelectual de IstoÉ, feito com ajuda da Lava Jato de Curitiba

A turma de Curitiba - com algumas exceções - joga no mesmo time de Michel Temer. Todos estão pouco interessados que mais uma delação contra o presidente surja antes que a OAS ofereça mais munição contra Lula


O jornalismo, quando exercido sem nenhum compromisso com a honestidade intelectual, além de indevidamente subestimar o leitor, corre o risco de revelar um pezinho na loucura. É o caso de IstoÉ e a matéria da última edição, que tenta colocar Michel Temer e aliados como vítimas da perseguição de Rodrigo Janot, um petista enrustido na visão dos procuradores de Curitiba e outros.

Basicamente, a revista disse aos leitores o seguinte: sabe aquelas delações da Lava Jato (Delcídio do Amaral, Sergio Machado e Joesley Batista) que outrora ajudaram a sacar Dilma Rousseff do poder, multiplicaram as ações penais contra Lula e continuam sendo usadas para destruir a imagem do pretenso candidato à presidência da República? Pois bem, acreditem ou não, elas fazem parte de um grande esquema montado pelo atual procurador-geral da República para "proteger o PT" e perseguir seus adversários políticos, de PMDB a PSDB.

Esse é o nível de argumentação de quem está comprometido com o atual governo e seus vultosos recursos publicitários.

Nos calçados dos procuradores de Curitiba, IstoÉ escreveu que não é de hoje que Janot vem "ajudando" o PT.

Um outro procurador sem nome, do Rio Grande do Sul, também teria dito que Janot tentou usar as delações da Lava Jato para salvar Dilma do impeachment. A tentantiva (fracassada, por sinal) de mostrar isenção com as delações tinha o objetivo de "evitar o impeachment colocando os líderes de todos os partidos em um mesmo saco", disse a fonte.

Segundo a tese, Janot lançou a delação de Sergio Machado - que inclui o áudio sobre o "grande acordo nacional" - para tentar reverter o impeachment de Dilma no Senado. O grampo que deveria trazer problemas para o PMDB foi revelado em maio e a votação final se deu em agosto.

Para a revista/procuradores de Curitiba, o time de Janot agora tenta "desarmar" não só a delação de Machado, mas também a de Delcídio do Amaral. Isso justificaria o aparecimento de procuradores e policiais federais de Brasília criticando a falta de provas nas duas delações.

No caso da delação de Delcídio, a revista disse que Janot demorou para fechar o acordo para ajudar Dilma. E a estratégia que encontrou foi mandar investigar se o que Delcídio dizia tinha alguma fundamentação. Sim, a obrigação da PGR virou mera tática para interferir na política.

Acima de tudo, IstoÉ simplesmente ignorou que Lula tem 6 processos nas costas, sendo que os 3 que estão em Curitiba são alimentados com as falas de Delcídio, que foi até chamado de delator de plantão pela defesa do ex-presidente. Outros 3 processos correm em Brasilia, pelo menos um instaurado precisamente graças à delação vazia do ex-senador, patrocinada pela turma da PGR.

A delação da JBS tampouco blindou Dilma e Lula. Ao contrário disso, levantou uma acusação que, pouco a pouco, vem sendo desmontada com ajuda do próprio MPF, que reconhece a falta de provas na história das contas no exterior com 150 milhões de dólares para os ex-presidentes.

O que Janot inaugurou e andou desagradando a turma anti-PT foi a chamada operação controlada, que pegou Aécio Neves no pulo, assim como pegou Temer abrindo as portas do governo a Joesley Batista em troca de um esquema de propina que pudesse abastecer PMDB pelas próximas duas décadas.

Mas contrariando o raciocínio lógico, IstoÉ publicou: "O mais flagrante esquema de favorecimento ao PT implantado por Janot na PGR se deu com a delação do empresário Joesley Batista. (...) O objetivo do grupo de Janot ao acelerar a delação da JBS era o de desestabilizar a gestão de Temer ás vésperas da votação das reformas e obter elementos para forçar uma denúncia oficial contra o presidente."

No final, o leitor mais atento percebeu que o jogo da revista em favor do governo reside nesse trecho publicado:

"O estopim [da crise entre a turma de Curitiba e Janot] foi a maneira como se desenrolaram as tratativas para a delação de Eduardo Cunha. O acordo estava sendo negociado havia mais de três meses. São cerca de 100 anexos, que comprometem 20 políticos entre parlamentares e governadores. Os procuradores de Curitiba sustentam que já têm provas suficientes para apontar Cunha como chefe de uma organização criminosa e afirmam que o que ele está revelando agora já está bem caracterizado nas investigações da Lava Jato."

Em outras palavras: a turma de Dallagnol - com algumas exceções - está no mesmo time de Michel Temer. Todos estão muito pouco interessados que mais uma delação contra o presidente ou o PSDB saia antes que a OAS ofereça mais munição contra Lula.

Cíntia Alves
No GGN

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